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Inovador e caricato, Juvenal Juvêncio marcou seu nome na história do São Paulo

A figura de Juvenal Juvêncio terminou como uma piada. Os torcedores rivais ironizavam a forma como o ex-diretor e ex-presidente do São Paulo falava, a insistência em dizer que o São Paulo era “diferente”, dito daquele jeito completamente peculiar.  A sua última imagem, em um terceiro mandato empurrado goela abaixo dos opositores em uma manobra pouco democrática, ficou marcada dessa forma. Mas Juvenal foi muito mais do que isso na sua trajetória. Como diretor de futebol e presidente, conseguiu muito mais que os títulos. Foi inovador em seu modo de agir e conseguiu transformar o clube e fazer dele dominante no cenário nacional.

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Carlos Miguel Aidar, presidente que renunciou ao cargo e que sucedeu Juvenal em 2014, se gabava de tê-lo lançado ao cargo de diretor de futebol, em 1984. Ficou no cargo até 1988, em um momento que o São Paulo foi campeão paulista e brasileiro lançando diversos jogadores jovens que marcariam a história do clube. O time que tinha Silas, Müller e Careca marcou época, levantou taças e criou uma geração de jogadores, sob o comando de Cilinho. O time campeão Brasileiro em 1986, apenas o segundo título brasileiro na história do clube, foi muito importante para fazer do time uma força além das fronteiras paulistas, ainda mais pela forma como ganhou, com bom futebol. Ele foi um dos principais personagens para formar o time com garotos.

A sua primeira presidência, porém, ele não conseguiu repetir o mesmo sucesso. Entre 1988 e 1990, acabou acumulando insucessos e, mais do que isso, viveu um dos piores momentos do clube, ficando em uma das últimas posições em 1990, no que seria chamado do rebaixamento do clube, ainda que tecnicamente ele não tenha acontecido. Pouco importa, porém, o legalismo. A sensação de que o time fez um papelão foi o que ficou. Ele deixou a presidência, sem deixar saudade.

A volta ao futebol veio em 2002. Fruto do mesmo mal que fez com que Aidar voltasse, anos depois: o São Paulo tem um número muito limitado de pessoas com poder. São apenas 240 conselheiros, sendo 160 deles vitalícios. Para concorrer à presidência, é preciso ser conselheiro vitalício e ter apoio de no mínimo 50 conselheiros e, assim, poder formar uma chapa e concorrer. Diante de todo esse cenário, é normal que dirigentes antigos voltem ao poder. Não há muito como fugir dos mesmos.

O presidente na época era Marcelo Portugal Gouvêa, que trouxe Juvenal Juvêncio para fazer o mesmo que tinha feito em 1984: formar o time. Entre erros e acertos, Juvenal conseguiu montar o time que voltaria a disputar a Copa Libertadores depois de 10 anos. Enquanto foi diretor, o time conquistou o Campeonato Paulista, Libertadores e Mundial em 2005. Além disso, foi um dos principais articuladores e mentores do Centro de Formação de Atletas Presidente Laudo Natel (CFA), em Cotia, um dos seus grandes orgulhos enquanto dirigente. Fez com que o São Paulo tivesse uma das melhores categorias de base do Brasil em termos de estrutura.

Os títulos e o CFA em Cotia fizeram com que a sua candidatura à sucessão de Portugal Gouvêa fosse natural. Voltou a ser presidente em 2006, ano que o clube também voltou a conquistar o Campeonato Brasileiro. Foi o primeiro do tri consecutivo do time, novamente elogiado pela captação de jogadores, além de aproveitar alguns bons valores das categorias de base.

O sucesso em todo o tempo que foi diretor e presidente na sua segunda passagem teve muito a ver com a forma de Juvenal perceber, junto com outros membros da diretoria e da comissão técnica, que o mercado tinha mudado, a relação entre jogador e clube mudou e o São Paulo se beneficiou muito rapidamente disso. Contratou diversos atletas em fim de contrato enquanto outros clubes ainda não entendiam bem como isso funcionava. Passou a dar atenção e importância à observação mais profissional de atletas.

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Juvenal emplacou dois mandatos consecutivos, entre 2006 e 2008, depois de 2008 a 2011. Quando mudou o estatuto, que impedia uma terceira eleição, para continuar no poder, foi acusado de golpista pela oposição. Massacrou as opiniões contrárias com vitórias nas áreas deliberativas do clube. Passou por cima com a força que tinha e se reelegeu, pela terceira vez. Um erro que ele provavelmente se arrependeu de cometer. Seu terceiro mandato foi um fracasso. Só um título conquistado, a Copa Sul-Americana de 2012.

Sua atuação como gestor passou a ser questionada. Os resultados, claro, eram o combustível preferido, mas a sua atuação política também foi questionada. A postura arrogante diante dos outros clubes, as acusações de aliciamento de jogadores das categorias de base e uma postura política que muitas vezes ficou ao lado da CBF, em vez de usar o seu poder para questioná-la.

A ânsia de poder de Juvenal foi um problema, mas ele foi também vítima. O episódio do Morumbi como sede da Copa foi definitivamente um golpe dado em cheio no então presidente do São Paulo, que apostava nas boas relações com a CBF, que tinha um Ricardo Teixeira com poder absoluto, além de se relacionar bem com outras instâncias do poder, como os governos do Estado e a prefeitura de São Paulo. O dirigente acreditou demais na sua boa relação política – que se mostrou frágil – e cometeu outros erros que levaram ao resultado que ele não esperava: o Morumbi fora da Copa.

Com Kassab, então prefeito de São Paulo, e Lula, então presidente do Brasil, Juvenal Juvêncio faz visita ao Morumbi (AP Photo/Nelson Antoine)
Com Kassab, então prefeito de São Paulo, e Lula, então presidente do Brasil, Juvenal Juvêncio faz visita ao Morumbi (AP Photo/Nelson Antoine)

Juvenal superestimou o Morumbi, considerando que só a questão política, com apoios em todas as esferas, bastaria. O clube não se preocupou em fazer um projeto que contemplasse o que se exigia, ao mesmo tempo que via os aliados mudarem de lado. O apoio político que Juvenal acreditava ter ruiu e o aspecto técnico da reforma do Morumbi se tornou a pá de cal para que o estádio deixasse de ser palco da Copa do Mundo, como o próprio dirigente já comemorava em 2011.

O governo do Estado, através de Alckmin e Serra, em uma manobra política articulada também pelo governo federal, André Sánchez e a CBF, fizeram com que Itaquera, onde ficaria o novo estádio do Corinthians, se tornasse a sede da abertura da Copa. Uma derrota, antes de tudo, política para Juvenal. Porque se sabia que a questão era muito menos técnica e muito mais política, mas errou na avaliação em todos os aspectos, do Morumbi, na parte política e na parte técnica. A derrota o enfraqueceu externamente, mas ele continuou com muito poder dentro do clube.

Os últimos anos da carreira política de Juvenal foram melancólicos. Arrotando o “Soberano”, criado na sua gestão, falando sempre de um São Paulo “diferenciado”, mas que se igualava aos outros nos seus piores defeitos, não conseguiu nem fazer uma grande gestão política, nem formar um grande time. Saiu, em 2014, elegendo Aidar, então companheiro, que o traiu depois e acabou renunciando diante da ameaça ainda maior de impeachment e responsabilização criminal por comissões mal explicadas e tramoias que, parece, foram esquecidas pelos atuais dirigentes, como se nada tivesse acontecido.

Juvenal deixa a vida aos 81 anos, depois de anos de batalha contra um câncer de próstata que o debilitou muito. A figura caricata, fruto também do seu bom humor e sagacidade, ficou como última imagem. O dirigente que soube ser inovador e construir um dos maiores patrimônios do São Paulo com o CFA em Cotia e a capacidade de perceber bem o mercado enquanto diretor de futebol não soube ter habilidade política para fazer isso também na parte administrativa. O São Pualo segue como um clube dirigido por poucos, pouco democrático, que se acomodou com o projeto de sócio-torcedor por ter criado antes que os rivais, mas que se tornou obsoleto em diversos aspectos.

Se hoje a diretoria do Flamengo é elogiada pelo seu trabalho administrativo e faz um trabalho ruim no futebol, Juvenal pode ser descrito como o contrário disso. Não era um administrador brilhante, mas fazia a gestão de futebol como poucos.

Muricy Ramalho e Rogério Ceni, duas das figuras mais importantes da história do São Paulo e que tiveram protagonismo durante a gestão de Juvenal, falaram sobre o dirigente em 2014, quando ele encerrava seu mandato.

“O senhor foi um cara muito especial na minha vida e na do São Paulo por fazer o clube crescer cada vez mais. O senhor foi o cara mais empreendedor em muito tempo. Quando eu falo centralizador não é negativo, é uma característica, eu me sinto assim, e queria agradecer por tudo o que a gente passou em todo o lugar do mundo”, declarou Ceni.

“Eu passei por várias pessoas importantes nesse clube, e o São Paulo é desse tamanho por causa dessas pessoas. O Juvenal deu um estirão no São Paulo, porque ele é empreendedor mesmo, ele fez crescer demais esse clube. Sei da paixão dele por esse clube, e somos muito agradecidos a ele”, afirmou Muricy Ramalho, então técnico do clube.

O último ato de Juvenal na presidência, aliás, foi a reforma completa do centro de imprensa do Centro de Treinamento da Barra Funda, que abriu os Estados Unidos durante a Copa e recebeu elogios pela estrutura. Juvenal decretou que o centro de imprensa fosse renomeado como “Centro de Imprensa Rogério Ceni” quando o goleiro se aposentasse, o que acontece justamente neste ano.

Juvenal Juvêncio definitivamente escreveu seu nome na história do São Paulo. Será lembrado como um dos grandes dirigentes e presidentes da história do clube, muito além da figura caricata que os anos o tornaram.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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