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Há 10 anos, Palmeiras recebeu o Palmeiras no Palestra e perdeu (ou ganhou) de goleada

A Copa São Paulo de Juniores tem os seus problemas, mas também é uma fonte de histórias maravilhosas. Na edição de 2005, o Grupo T teve o Palmeiras como líder. O U teve o Palmeiras como vice-líder. Resultado? Os dois times se enfrentaram na primeira rodada da segunda fase, em um jogo oficial que o Parque Antártica nunca havia visto antes: Palmeiras 0 x 4 Palmeiras.

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Explico: o do Grupo T, o mandante, era o Palmeiras B, filial que foi fechada em 2013 porque nunca serviu ao seu propósito. Disputava as divisões inferiores do Campeonato Paulista com jogadores encostados do time principal ao invés de formar e revelar jovens. Pelas regras do Estadual, as duas equipes não poderiam disputar a mesma divisão, mas elas não se aplicam à Copinha. Em 2005, o então presidente Mustafá Contursi inscreveu ambas.

Marco Polo Del Nero, palmeirense e presidente da FPF, afirmou naquela semana que tomaria providências para algo parecido nunca mais acontecer, mas o leite já estava derramado e não adiantava chorar. Apenas tirar sarro. A torcida entrou na brincadeira gritando: “se o Palmeiras não ganhar, olê, olê, olá, o bicho vai pegar”. E ganhou (embora também tenha sido goleado, mas vamos simplificar as coisas), por 4 a 0. O craque do time foi o atacante Elias, hoje em dia mais conhecido como o meia Elias, ídolo do Corinthians. No segundo tempo, entrou Ilsinho na lateral esquerda, pouco mais de um ano antes de trocar o Palmeiras pelo São Paulo.

O mais curioso é que a melhor campanha valeu ao Palmeiras B o mando de campo e jogar de uniforme verde. Ou seja, o Palmeiras principal jogou no seu próprio estádio, de branco, como visitante. Pelo menos não passou pela vergonha de perder para a sua filial (apenas a de ser eliminado na oitavas de final pelo União São João). Quem esteve nessa partida foi o nosso editor Ubiratan Leal, que levou o cunhado alemão para passear em São Paulo e depois escreveu o que viu no seu site Balípodo.

O dia em que o futebol voltou a ser brincadeira

Já se passavam mais de 20 minutos de jogo quando o garoto da foto tomou coragem para dirimir sua dúvida. Algo que, aparentemente, ele já deveria saber e que, por isso mesmo, o fez esperar tanto tempo para fazer a tal pergunta. “Afinal, pai, nosso time é o branco ou o verde?”. “Os dois, meu filho, os dois.” A reação foi um “como assim?” mudo, dito com o olhar. Mas, pelo menos, ele se tranqüilizou. Percebeu que a dúvida que carregava não era infundada. Cena típica de um jogo tão inusitado que fez o futebol voltar a ser uma grande brincadeira.

Mesmo antes da partida já se via isso. Muitos torcedores, mesmo o de outros clubes, já imaginavam várias situações engraçadas para um jogo de um time contra ele mesmo, caso do Palmeiras B x Palmeiras A desse domingo pela Copa São Paulo. Um jogo que uma torcida aproveitou para brincar, celebrar o bizarro e, sobretudo, se divertir vendo uma partida de futebol.

Eu mesmo admito que o interesse quase antropológico em analisar a reação de espectadores e atletas me atraiu. Ainda mais se tinha de ciceronear o cunhado alemão que queria ver um jogo ao vivo no “país do futebol”. O mais curioso é que, para um germânico, entender o fato de o Palmeiras jogar contra ele mesmo nem foi difícil. Afinal, na Copa da Alemanha, o Bayern de Munique e o Bayern de Munique Amador (o time B) estão nas oitavas-de-final. Não se enfrentarão ainda (e isso dificilmente ocorrerá, pois a equipe B terá de passar pelo Werder Bremen), mas há essa possibilidade.

Primeira situação inusitada foi entrar no estádio. A diretoria do Palmeiras decidiu liberar as numeradas apenas para os sócios do clube. Como não esperava um grande público, ainda fechou os setores da arquibancada atrás do gol. Com isso, em um jogo entre Palmeiras A e Palmeiras B, os palmeirenses tiveram de entrar no Parque Antarctica pelo portão da torcida visitante.

E não foram poucos palmeirenses que resolveram ir ao estádio Palestra Itália em uma manhã de domingo (aliás, 11h10 é um horário tão estranho quanto o duelo) para ver esse jogo de, literalmente, uma só torcida. Os torcedores uniformizados estavam lá, claro. Mas o pequeníssimo risco de violência e a entrada gratuita atraíram uma grande quantidade de famílias. De acordo com os jornais, a polícia calculou em 6 mil o público desse Palmeiras x Palmeiras.

O objetivo dos torcedores era se divertir, apenas isso. E todos estavam de espírito tão abertos que mesmo coisas supostamente desagradáveis ganhavam ares cômicos. Por exemplo, dois garotos de cerca de 6 anos começaram a “brincar de briga de torcida”. Um se dizia torcedor do time A e começava a hostilizar o torcedor do time B. Tudo na maior inocência. De qualquer forma, o pai de um dos meninos interveio, dizendo ser a tropa de choque que acabaria com aquela violência.

Durante o jogo, a idéia era ver boas jogadas, independentemente do time. O Palmeiras A começou mais organizado e animou a torcida. Porém, o primeiro lance de perigo foi do time B, que aproveitou uma falha da defesa de branco e quase saiu na frente. E a torcida também comemorou. Na verdade, apenas lamentou a falha do defensor branco e a falta de oportunismo do atacante verde.

Foi nesse momento que a própria torcida uniformizada percebeu que aquele estádio parecia um quadro de Dalí. E começou a cantar “Se o Palmeiras não ganhar, olê olê olá / O pau vai quebrar”. A marcha usada normalmente como apologia à violência virou um símbolo de um jogo despretensioso.

O calor que fez durante o primeiro tempo parece ter afetado os jogadores, que adotaram um ritmo mais moderado. Apenas o atacante Elias, do time A, era mais ativo, buscando dribles e jogadas de efeito. O que chamou a atenção do cunhado alemão. Aliás, ele só se alterava nos lances de perigo e nas raras demonstrações de habilidade. Mas, mesmo sem correr tanto, o time A era muito superior. Na realidade, o Palmeiras B estava desnorteado, sem justificar a liderança de seu grupo na fase anterior.

O primeiro gol veio naturalmente, com um belo chute de Marquinhos no ângulo de Brian. A torcida comemorou, mas logo tratou de dar uma força para o time B, dizendo “o Palmeiras é o time da virada”. A defesa da equipe B sentiu e se perdeu em campo. As falhas de marcação eram evidentes e, se estivesse com um pouco mais de ímpeto, o time branco teria feito mais um gol. Pelo menos. E quase veio em uma bela troca de passes de cabeça entre marquinhos e Elias, que terminou no travessão.

No intervalo, as nuvens apareceram e o tempo se tornou mais agradável. Porém, a torcida também esfriou. O segundo tempo começou quase em silêncio. O time B tentou avançar um pouco mais, mas abriu espaço para os contra-ataques do adversário. Nesse momento, o palmeirense voltou à sua tradicional atitude de se preocupar mais em ver os defeitos do(s) time(s) do que procurar as virtudes.

Até que Rodrigo Braghetto marcou um pênalti para o time A. Imediatamente, a torcida se reaqueceu e voltou a vibrar. Mas o árbitro expulsou Reinaldo, do Palmeiras B, e a arquibancada se uniu para reclamar da arbitragem.

Elias converteu a cobrança e, na prática, definiu o jogo. A partir daí, o time B, com o apoio da torcida, tentava diminuir para perder de forma mais honrosa. Mas, salvo por uma ou outra jogada mais inspirada, pouco produziu. Enquanto isso, os brancos só avançavam nos buracos abertos pela desfalcada defesa verde. Foi assim que Marquinhos entrou livre e fez seu segundo gol na partida.

Pouco depois, André Gaúcho pegou mal uma bola inofensiva que voava pela defesa do time B pedindo para ser isolada e encobriu o goleiro Brian, marcando um estranhíssimo gol contra. E nada mais simbólico em um jogo de um time contra ele próprio do que terminar com um gol contra. Todo mundo vibrando, lembrando que o futebol é uma grande brincadeira.

FICHA TÉCNICA

PALMEIRAS B 0 x 4 PALMEIRAS A
Segunda fase da Copa São Paulo de Juniores de 2005
Local: Parque Antarctica (São Paulo)
Público: Cerca de 6 mil pessoas (portões abertos)
Árbitro: Rodrigo Braghetto

Palmeiras B: Brian; Pedrinho (Léo), André Gaúcho, Reinaldo e Rafael (Túlio); Carlão, Wesley, Paulinho (Ralf) e Everton; Paraguaio e Bruno. T: Niltinho
Palmeiras A: Bruno; Catito, Belém, Rodrigo e Lino; Wellington, Zé Forte (Ilsinho), Thomaz e Fernando (Fábio); Elias (Beto) e Marquinhos. T: Marcelo Martelotte

Gols: Marquinhos (17/1º), Elias (12/2º, de pênalti), Marquinhos (21/2º) e André Gaúcho (29/2º, contra)
Cartões amarelos: Reinaldo e Zé Forte
Cartão vermelho: Reinaldo

E veja os gols do jogo:

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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