Gols na bandeja
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O futebol brasileiro, em geral, pouco valoriza as assistências. Replays de gols, muitas vezes, sequer contêm aquele toque decisivo que os treinadores costumam chamar de “último passe”, normalmente também omitidos nas narrações. No exterior, o quadro é diferente, e habitualmente a tabela de artilheiros traz, ao lado, o de principais assistentes. Esta coluna tem se prestado a esse papel, mostrando sempre no Banco de Dados o principal garçom da Série A de 2008.
Em boa parte do Campeonato Brasileiro, a liderança do ranking de assistências esteve nas mãos de Patrício, da Portuguesa. Experiente, o discreto lateral que teve boas temporadas a serviço do Grêmio convence em sua passagem pelo Canindé e é um nome sempre presente nos passes para os gols da Lusa. Eficaz nos cruzamentos, assim foi que entregou oito de suas dez assistências – o que é ainda mais surpreendente, pois Patrício é um nome lembrado sempre pela capacidade de marcação e não de apoio.
Atualmente, o companheiro de Patrício na liderança é Júlio César, do Goiás. Também lateral, Júlio já havia feito um ótimo torneio em 2007, com o Náutico, quando entregou sete gols de bandeja. Atuando como ala no esmeraldino, tem total liberdade para chegar à frente e é o comandante dos contragolpes, estratégia vital para a reação alviverde no torneio. Sua inteligência nos passes, inclusive, tem feito com que Hélio dos Anjos lhe posicione como meia em alguns momentos, passando então a ala-esquerda para Thiago Feltri.
Dono de exibições bastante razoáveis no primeiro turno, Petkovic acertou oito de seus nove passes para gol na competição justamente nesse período de 19 jogos iniciais. Atualmente, o sérvio perdeu espaço no Atlético-MG em razão de problemas físicos, mas começa a reconquistar seu espaço e articulou a jogada atleticana em vitória no Barradão. É, indiscutivelmente, ainda, um dos meias com maior visão de jogo e precisão em bolas paradas em atividade no Brasil.
Empatado na vice-liderança com Petkovic, o palmeirense Leandro faz uma grande temporada e é, certamente, uma das maiores virtudes na criticada volta de Luxemburgo ao Parque Antártica. Após lesões e partidas marcadas por falta de confiança, o ex-Cruzeiro tem feito ótimo papel e preservado a marcação em muitos momentos. É, ao lado de Juan, o maior nome da posição no campeonato. Todas as suas nove assistências no Brasileiro são provenientes de cruzamentos.
Para muitos, o maior craque do Campeonato Brasileiro de 2008, o selecionável Alex, do Internacional, também tem presença de destaque no ranking de assistências. Mesmo ausente de 10 partidas na Série A, o colorado entregou oito passes perfeitos para gol, em um repertório vasto que vai de cruzamentos dos dois lados, bolas enfiadas e contra-ataques. De quebra, ainda engorda seu currículo com os 10 gols que anotou no campeonato, dando argumentos para quem lhe vê como o melhor da Série A.
Conhecidos pelas sempre freqüentes participações pelos gols de suas equipes, Jorge Wagner e Juan, de São Paulo e Flamengo, comandam a lista dos que têm sete assistências entregues. Com esquemas táticos que lhes liberam para ir à frente, são completamente vitais para a produção ofensiva de seus times. Jorge Wagner, essencialmente pelos cruzamentos, origem de todos seus números. Juan, outro de repertório variado, tem sido cobrado pela queda de rendimento na reta final. E, de fato, seus números caíram: só entregou um passe perfeito no returno e isso já foi há doze rodadas.
Marquinhos, do Vitória, e Paulo Sérgio, do Grêmio, fecham o rol dos primeiros colocados. O atacante baiano é uma das maiores revelações do Brasil em 2008 e, atuando pelo lado esquerdo do meio-campo, tem ótima visão de jogo e velocidade. O experiente Paulo Sérgio, por sua vez, não conseguiu, mesmo com tantos passes para gol – normalmente em cruzamentos -, manter sua titularidade e reputação no Olímpico. Recentemente, foi barrado por Felipe Mattioni, jovem lateral que já interessa à Juventus.
É importante ressaltar que os critérios para a atribuição de assistências são bastante variados e algumas listas podem diferir de outras. Ainda assim, trata-se de um mérito que é preciso ser entregue a quem é de direito.
Melhores no ranking de assistências
1-) Patrício (Portuguesa) e Júlio César (Goiás) – 10 passes
2-) Leandro (Palmeiras) e Petkovic (Atlético-MG) – 9 passes
3-) Alex (Internacional) – 8 passes
4-) Jorge Wagner (São Paulo), Juan (Flamengo), Marquinhos (Vitória) e Paulo Sérgio (Grêmio) – 7 passes
5-) Netinho (Atlético-PR) e Jorge Henrique (Botafogo) – 6 passes
6-) Borges (São Paulo), Lúcio Flávio (Botafogo), Marquinho (Figueirense), Nei (Atlético-PR) e
William (Ipatinga/Náutico) – 5 passes
Interinos que resolveram
Em algum momento desta Série A, os torcedores de Santos e Atlético-MG se sentiram em desespero. Especialmente os santistas, que passaram 20 rodadas dentro da zona do rebaixamento. Contudo, o trauma de quem caiu há tão pouco tempo não pode ser desprezado, e só a proximidade com as quatro últimas posições fatalmente chegou a apavorar os atleticanos em determinadas rodadas.
Se hoje a palavra rebaixamento não é pronunciada na Vila Belmiro e na Cidade do Galo, isso se deve a duas soluções simples, caseiras, mas eficientes que foram encontradas e que já haviam tido sucesso nas categorias de base. Sem nenhum grande planejamento, é verdade, mas que, quando acionadas, cumpriram – e bem – a missão estabelecida. Em outras palavras, Marcelo Oliveira e Márcio Fernandes, que ajudaram a salvar Santos e Atlético Mineiro.
Na Vila Belmiro, o fantasma Vanderlei Luxemburgo tem rondado cada vez mais, e provavelmente por isso a diretoria santista não bateu o martelo e deu um contrato justo e a promoção para Márcio Fernandes. Luxa ainda tem participação efetiva no cotidiano da Vila, é constantemente ouvido por jogadores, dirigentes e membros da comissão técnica santista, mas deve ficar no Palmeiras. Envolto a uma situação financeira delicada, o Santos vê com bons olhos a permanência de Márcio, considerado responsável pela reação do clube no Campeonato Brasileiro.
O aproveitamento de 48% em 17 jogos à frente do Santos, ainda que não seja brilhante, foi suficiente para impor uma distância segura para a zona de rebaixamento. Márcio é elogiado pela didática de treinamentos e escalações simples, tendo superado os confusos tempos com Cuca. Tímido e até mesmo discreto, impôs objetivos possíveis, como a vaga na Sul-Americana e o título do returno, se negando a jogar apenas pela permanência.
Há muitos e muitos anos no Atlético, o ex-jogador Marcelo de Oliveira já era cotado há algum tempo para assumir a equipe profissional. E após o fracasso de Geninho e a dificuldade financeira, dar uma chance a Marcelo foi consenso quase que geral no Galo. Entre outras virtudes, o atual treinador atleticano conhecia, como ninguém, os jovens formados no clube – por ele próprio, diga-se de passagem.
Assim, Marcelo reorganizou a equipe e passou a dar mais confiança aos jovens atleticanos. Sua promoção fez com que Renan Oliveira voltasse à titularidade e assumisse as rédeas do meio-campo, esquecendo os tempos de centroavante. Nomes como Sheslon, Serginho e Pedro Paulo se firmaram e o Galo foi afastando o risco que existia. Nesse meio tempo, o treinador e a direção tiveram pulso firme e dispensaram os indisciplinados Lenílson, Mariano e Calisto. Seu aproveitamento coincide com o de Márcio Fernandes: 48%.
Gastos x pontos
Um estudo interessante publicado pelo Uol, na última semana, mostrou quanto cada clube gasta por ponto conquistado no Campeonato Brasileiro. A conta é realizada a partir da folha salarial de cada integrante da Série A e é feita a relação destes números com a pontuação acumulada até aqui. Apenas Portuguesa, Ipatinga e Figueirense não foram incluídos por não informar o quanto gastam mensalmente com ordenados de seus elencos.
Curiosamente, os dois clubes com melhor e pior relação custo-benefício são do Rio Grande do Sul. Enquanto o Grêmio, brigando pelo título, gasta R$ 850 mil por mês com salários do elenco, o Internacional e seus nomes milionários é disparado o clube com a maior folha do país e gasta R$ 3,2 milhões por mês para manter jogadores de primeira linha do porte de D’Alessandro, mas sequer brigou pela Libertadores de 2009.
Dono da menor folha entre os 17 clubes do levantamento, o Vasco paga por isso ao brigar contra o rebaixamento – o gasto mensal em São Januário com elenco é de apenas R$ 600 mil. Praticamente um terço em relação ao outro clube carioca que pode cair: o Fluminense paga R$ 1,7 milhão por mês aos seus jogadores.
A classificação completa do estudo está no fim da coluna.
Atlético-GO sobe e Vila Nova entra em crise
O momento interessante do futebol goiano no cenário nacional pode ser comprovado pelos posicionamentos de Atlético Goianiense, na Série C, e do Vila Nova, na Série B. Ambos passaram bom tempo das competições dando mostras claras de que o acesso era uma formalidade, mas os últimos dias têm reservado emoções diferentes para as duas torcidas.
Com a promoção garantida com várias rodadas de antecedência, o Atlético se prepara para comemorar, também, o título da Série C, já que tem seis pontos de vantagem sobre o segundo colocado a três rodadas do fim do octogonal. Caso isso se confirme, o clube – o único do país a ter dois títulos da competição -, se isolaria ainda mais com a terceira conquista confirmada.
Em 2007, o acesso já havia batido na trave para o Atlético, que tinha uma equipe forte, mas bobeou no início do octogonal final e acordou tarde demais. A boa fase do clube, porém, pode ser comprovado pelas campanhas recentes também em Copa do Brasil e Campeonato Goiano – que venceu no ano passado, após 17 temporadas de jejum.
No time que deve levar o título da Série C, Mauro Fernandes volta a se destacar nacionalmente 10 anos após a campanha que lhe projetou com o Sport, que ficou entre os oito melhores do país em 1998. O maior destaque da equipe é o atacante Marcão: desconhecido, o jogador tem incríveis 25 gols e lidera, com folga, a artilharia da competição – nove a mais que Marcelo Brás, do Rio Branco-AC, o vice-artilheiro.
Já o Vila Nova, cujo acesso parecia um fato consolidado ao longo de toda a Série B, precisará de um algo mais para cogitar a volta à primeira divisão. O Colorado se enfiou em uma enorme crise e, nos seus últimos sete jogos, perdeu cinco e empatou um. Nesta terça-feira, viu o Barueri ir até o Serra Dourada e lhe tomar o G-4 a três jogos do final.
A situação ficou pior em razão de um suposto pedido de demissão que, dizem, pode partir de Givanildo em breve. O experiente treinador, famoso por muitas conquistas em divisões e regiões secundárias, admitiu à imprensa que sua permanência no Vila Nova é quase insustentável.
Para piorar, em seus últimos três jogos, o Vila não terá absolutamente nenhuma moleza. No próximo par de rodadas, sai para visitar Corinthians, já campeão, e Brasiliense, cuja campanha no retorno é bastante razoável. Na jornada final, é o Bragantino quem irá até o Serra Dourada, provavelmente, ainda com chances de acesso. Páreo duríssima para o Colorado.
Classificação: quem gasta mais por cada ponto que ganha?
1-) Internacional – Folha salarial: R$ 3,2 milhões – Gasto por ponto: R$ 400 mil
2-) Santos – Folha salarial: R$ 2 milhões – Gasto por ponto: R$ 300 mil
3-) Fluminense – Folha salarial: R$ 1,7 milhão – Gasto por ponto: R$ 300 mil
4-) Palmeiras – Folha salarial: R$ 2,8 milhões – Gasto por ponto: R$ 275,4 mil
5-) São Paulo – Folha salarial: R$ 2,3 milhões – Gasto por ponto: R$ 225,5 mil
6-) Flamengo – Folha salarial: R$ 2 milhões – Gasto por ponto: R$ 210,5 mil
7-) Atlético-MG – Folha salarial: R$ 1,2 milhão – Gasto por ponto: R$ 175,6 mil
😎 Atlético-PR – Folha salarial: R$ 1 milhão – Gasto por ponto: R$ 171,4 mil
9-) Cruzeiro – Folha salarial: R$ 1,5 milhão – Gasto por ponto: R$ 155,2 mil
10-) Botafogo – Folha salarial: R$ 1,2 milhão – Gasto por ponto: R$ 146,9 mil
11-) Sport – Folha salarial: R$ 800 mil – Gasto por ponto: R$ 114,2 mil
12-) Coritiba – Folha salarial: R$ 890 mil – Gasto por ponto: R$ 108,9 mil
13-) Náutico – Folha salarial: R$ 650 mil – Gasto por ponto: R$ 108,3 mil
14-) Vitória – Folha salarial: R$ 800 mil – Gasto por ponto: R$ 106,6 mil
15-) Vasco – Folha salarial: R$ 600 mil – Gasto por ponto: R$ 105,8 mil
16-) Goiás – Folha salarial: R$ 700 mil – Gasto por ponto: R$ 87,5 mil
17-) Grêmio – Folha salarial: R$ 850 mil – Gasto por ponto: R$ 85 mil