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Como a dança das cadeiras dos técnicos se assemelha às criações de marcas da moda

O treinador com a camisa polo do seu clube e o diretor criativo estiloso e bem-vestido têm muito mais em comum do que se imagina

Você é um executivo que busca sucesso. Contrata uma pessoa nova para comandar sua equipe, alguém cheio de ideias e expectativa. A primeira exibição dividiu opiniões; a segunda cativou alguns, mas não caiu nas graças daqueles que acompanham há mais tempo; a terceira, dado o resultado ruim, foi também a última — você decidiu demitir sua recente contratação e acabou por perder muito dinheiro.

Quem é você? Um CEO de uma marca de moda de luxo ou um diretor de um clube de futebol brasileiro?

Provavelmente essa não é uma associação feita com frequência. Afinal, geralmente os públicos de cada área são compostos por tribos diferentes na sociedade. Mas os campos de futebol e as passarelas das fashion weeks têm muito mais em comum do que você imagina.

O que acontece no gramado, acontece na passarela

Tite e Dorival Júnior
Dorival Júnior e Tite negociaram pela vaga de treinador do Corinthians recentemente (Foto:
IMAGO / Fotoarena)

Técnicos de futebol e diretores criativos de marcas de moda são figuras muito contrastantes em estética, glamour e, muitas vezes, pensamento de vida. E, curiosamente, são igualmente banhados pela cultura resultadista de suas categorias.

O ofício dos dois também é parecido, ao menos no romantismo de suas funções. O técnico tem que entender a cultura do seu clube, os anseios da sua torcida e, com isso, fortalecer a conexão entre equipe em campo e os fãs — enquanto, claro, faz com que seu trabalho dê resultados positivos.

Arlindo Grund, consultor de imagem e moda e apresentador, explicou à Trivela como as tarefas do diretor criativo, a mente pensante de uma marca de moda, podem ser assemelhar às dos treinadores de futebol.

Quando é contratado, o novo diretor criativo tem que entender os códigos da marca e como ela se comunica com seus clientes. E, a partir daí, reinterpretar esses códigos e seduzir o cliente que já compra aquela marca.

Os códigos da marca são, resumidamente, sua identidade. Da mesma forma que a Versace consolidou a ideia de criar roupas extravagantes que embelezem o corpo feminino e seus traços, o Barcelona tem uma ideia clara de como gosta de jogar futebol: esteticamente agradável, com controle da bola e sinergia entre os atletas. É a personalidade de cada um.

O especialista indica, no entanto, que essa quebra de identidade pode ser comum com as mudanças abruptas de comando. “Quando muda o diretor, muitas vezes os clientes podem ficar em choque, porque havia uma conexão com o que era a marca antes”, pontua. Isso lembra algo que acontece no futebol?

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A dança das cadeiras no futebol e na moda: por que isso acontece?

A expressão já faz morada no noticiário esportivo brasileiro há anos. Em 2008, por exemplo, a informação de que cinco clubes da Série A trocaram de treinador nas três primeiras rodadas já não era tão surpreendente.

Um dos treinadores envolvidos nessa mudança brusca há 17 anos era Ney Franco. O 1/tag/athletico-paranaense/” target=”_blank” rel=”noreferrer noopener”>Athletico Paranaense demitiu o treinador, apesar da vitória sobre o Ipatinga na estreia do Brasileirão e um empate com o São Paulo, na segunda rodada.

ney franco
Ney Franco em 2012, quando levou o São Paulo ao título da Sul-Americana (Foto: Imago)

Para o treinador, muitos clubes não têm planejamento a longo prazo, trocando treinadores sem levar em conta a continuidade de um trabalho ou o perfil dos elencos.

— A gente sabe que hoje, no futebol brasileiro, o treinador já assume sabendo do risco. É o jogo. A cobrança é imediata, o resultado precisa vir rápido, senão o ambiente fica pesado, a pressão vem de todos os lados. A gente já entra consciente disso — disse o técnico à reportagem.

Na moda, a constante dança das cadeiras também não é recente.

Segundo Arlindo, se tornou algo mais perceptível e falado por conta da globalização da internet e o interesse crescente nos bastidores desse mundo — o que aumenta o burburinho pela queda das vendas de alguma marca com um novo estilista.

Chanel, Gucci, Balenciaga e Versace são alguns exemplos de marcas que passaram por mudanças impactantes nas últimas temporadas da moda.

— Muitas vezes o estilista, mesmo sendo uma contratação planejada, pode acabar não entendendo os códigos da marca e não consegue se comunicar com o público final, ele pode não entender quais os desejos e a demanda do público. E às vezes ele consegue estabelecer essa comunicação, mas nem sempre o que ele cria está dentro da expectativa de quem vai comprar — complementa o apresentador.

Treinador e diretor criativo: identidade, pressão e resultado antes de método

Desfile da Gucci na semana de moda de Milão, em 2024
Desfile da Gucci na semana de moda de Milão, em 2024 (Foto: Imago)

E quando se fala sobre identidade, a relação com o futebol é nítida. “Muitas vezes um estilista chega querendo imprimir o seu trabalho mesmo em uma casa centenária, com valores intrínsecos que são ligados a ela, então acontece um susto do público, que acaba se afastando, e novas pessoas deixam de consumir essa marca”, adiciona o consultor.

Te lembra algo? É a história clássica do treinador “cabeça dura”, que se deu bem em um contexto com seu estilo de jogo, e quer replicá-lo por onde quer que vá — e nem sempre tem sucesso. Mas isso pode depender de diferentes fatores: seja o treinador que realmente não se adaptou ou o clube que não deu tempo para que ele desenvolvesse seu trabalho.

Grund volta a elucidar essa transição nas passarelas: tem quem seja inovador e domine o cenário por anos, mas que pode dar grande prejuízo a uma marca de luxo.

— Tivemos oito anos de Alessandro Michele, um estilista super vanguardista, dirigindo a Gucci, e a marca estourou. Quando ele saiu, assumiu um novo estilista, o Sabato de Sarno, que é mais minimalista. Quem consumia Gucci estava esperando aquele exagero de informação (nas roupas), e isso não aconteceu. Ele (de Sarno) durou três temporadas (cerca de um ano e meio) e saiu porque as vendas caíram muito.

E o divórcio de uma dupla de sucesso pode acabar com um final trágico para os dois. Tanto o empregador quanto o empregado podem não voltar a ter mais o mesmo sucesso que tiveram juntos. Lembrou e alguma separação assim no futebol? Pois é…

— Michele agora está na Valentino, e você pode pensar ‘Ele fez sucesso na Gucci e agora vai fazer sucesso na Valentino’. Mas o que os números estão dizendo? Que desde o lançamento da coleção do Michele, houve uma queda de 20% no faturamento. Ou seja, nem sempre buscar um estilista de sucesso em uma marca para a sua vai repetir essa fórmula — completa o apresentador.

Criadores e pensadores entre a liberdade e a opressão

Mas, em números muito maiores do que os exemplos de cabeça-dura, existem aqueles que querem aplicar seus anos de estudo em seus novos cargos. Querem testar as ideias que tiveram, pôr em prática as influências que consumiram. Só não são permitidos.

— Existem ideias que você carrega, que são fruto de estudo, de observação de tendências, de testes em treinos, mas que acabam ficando na gaveta por pressão de resultado imediato, de diretoria, de torcida, imprensa, ou mesmo pela leitura que você faz do grupo que tem nas mãos — pontua Ney Franco.

Fernando Diniz, treinador do Cruzeiro (Foto: Imago)
Campeão da Libertadores com o Fluminense em 2023, Fernando Diniz não teve sucesso no Cruzeiro em 2024 (Foto: Imago)

— Já tive vontade de usar mais a formação com três zagueiros em clubes que, culturalmente, não aceitavam esse modelo. Várias vezes quis implementar um jogo mais posicional, apoiado, paciente na construção, mas percebia que a ansiedade externa e até dos próprios jogadores exigia um futebol mais direto, para tentar o resultado de forma mais rápida — argumenta o treinador.

Ney Franco ainda filosofa sobre a bagagem que alguém em sua posição carrega. Mais do que um treinador, essa figura é a de um pensador: precisa ser criativo e inovar. Mais uma semelhança com os rapazes bem vestidos dos desfiles.

— Essas ideias não se perdem. Eu as levo comigo. Às vezes, o ambiente certo, o elenco certo, o momento certo, permitem que você tire esses planos da gaveta –.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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