Brasil

‘A festa mais bonita’: futebol cearense pega contramão e luta por torcida dividida

A Trivela esteve em Fortaleza, capital do Ceará, e conversou com atores que fazem do Clássico-Rei um exemplo de festa nos estádios para o Brasil

O futebol brasileiro cada vez mais normaliza e adota a torcida única nos estádios em dias de clássicos. Liderado por São Paulo, o movimento vem ganhando adesão de estados importantes, como Minas Gerais e Bahia. As justificativas são muitas, mas a que prevalece é o combate à violência entre torcidas, problema crônico do esporte mundo afora.

Apesar do aumento no número de estados adotando a prática, normalmente criticada por torcedores e jornalistas, existem estados no Brasil que vão na contramão da ideia e garantem a possibilidade de torcedores rivais acompanharem a mesma partida de dentro dos estádios. O Ceará é um deles.

O Estádio Castelão tem se notabilizado pelas festas incríveis das torcidas de Ceará e Fortaleza nos clássicos locais. A última delas, na final do Campeonato Cearense de 2024, vencido pelo Vozão, teve imagens que rodaram o mundo. Além, da possibilidade de torcida dividida, 50% a 50% — nos jogos de fases de grupo a divisão é 70% a 30%, bem maior que a usual de 90% a 10% —, mosaicos, bandeirões, faixas e bandeiras, estas últimas muitas vezes proibidas, deixaram o clima do estádio ainda mais sensacional.

As imagens, porém, contrastam com outras finais Brasil afora. Talvez a principal dicotomia tenha sido em relação ao clássico mineiro, o Cruzeiro x Atlético-MG que decidiu o campeão estadual em Minas Gerais. As diretorias de Raposa e Galo fecharam um acordo que definiu torcida única nos jogos entre eles nos anos de 2024 e 2025. É importante ressaltar que essa foi uma decisão dos clubes, e não dos órgãos de segurança e governamentais mineiros. O poder público chegou a afirmar que tinha plena capacidade de realizar clássicos com torcida dividida, pontuando que nesses casos, a organização é mais fácil do que um jogo com torcida dividida em 90% a 10%.

Como o Cruzeiro teve a melhor campanha na fase de grupos do estadual, ganhou a vantagem de decidir o confronto no Mineirão, com 100% de sua torcida. Os cruzeirenses lotaram o estádio e fizeram bonita festa, batendo o recorde de público do estádio desde sua reforma, com 61.582 torcedores. Mesmo com toda a mobilização dos cruzeirenses, o time não correspondeu e foi derrotado, de virada, por 3 a 1. Após o apito final, foi confirmado o pentacampeonato mineiro do Atlético.

O que se viu depois disso foi uma entrega de taça e comemoração do título para um estádio vazio, uma festa solitária dos jogadores, que pouco durou no gramado, sem volta olímpica ou barulho ensurdecedor. A comemoração de um penta, sobre o maior rival, no grande palco do futebol mineiro, ficou restrita à lives e provocações nas redes sociais. O atleticano pôde celebrar pelas ruas de BH — os que não desistiram de sair pela grande concentração de cruzeirenses em regiões próximas ao Mineirão —, mas sem o calor e a emoção de ver seus herois de perto.

Atlético-MG comemorou seu pentacampeonato com fumaça, papel picado, mas sem torcida
Atlético-MG comemorou seu pentacampeonato com fumaça, papel picado, mas sem torcida – Foto: Pedro Souza/Atlético-MG

Exemplo a ser seguido pelo futebol brasileiro

Procurada pela Trivela para comentar a realização do clássico com torcida dividida e o que possibilita o modelo, a Secretaria do Esporte do Estado do Ceará (Sesporte) emitiu nota informando que há todo um trabalho conjunto de vários órgãos e uma série de ações, como: medidas de segurança, planejamento e organização, acordos entre os clubes e organização da Federação. De acordo com a Sesporte, o desejo é que isso se torne exemplo em todo o Brasil.

— O trabalho envolvendo Governo do Estado, clubes e Federação possibilita esse momento do futebol cearense, que vivencia clássicos com as duas torcidas presentes sem ocorrências. Realizar os clássicos com a presença dos torcedores de ambos é motivo de orgulho para os desportistas locais e para a cidade. Que o exemplo possa ser seguido por todo o futebol brasileiro — diz a nota.

Clubes apoiam divisão de torcidas

Ceará e Fortaleza, clubes envolvidos na realização dos clássicos estaduais, também se mostraram favoráveis à realização dos clássicos com torcida dividida. Eles esperam que isso continue e que o que é feito no estado seja exemplo fora dele.

Haroldo Martins, diretor de futebol do Ceará, afirmou que a presença de duas torcidas engrandece o espetáculo e passa um recado importante ao mundo do futebol.

— O clube entende como positiva a manutenção da divisão de torcida no Clássico-Rei. É salutar para a disputa desportiva, pois é da natureza da competição, além de ser um recado para o mundo do futebol de que é possível compatibilizar um ambiente de paz com a rivalidade desportiva. A presença das duas torcidas no clássico somente engrandece o Clássico-Rei — afirmou Martins.

Marcelo Paz, presidente do Fortaleza, foi mais um que se disse favorável aos clássicos com torcida dividida. Para ele, essa disputa também nas arquibancadas, é essencial para o esporte, além de mover e criar paixões.

— Sou um defensor do clássico com duas torcidas. Acho que isso é a essência do futebol, que a paixão pelo também é criada nesses momentos, em que os opostos estão ali duelando. Duelando em campo, duelando na arquibancada, de forma respeitosa sempre. É uma vitória da sociedade também quando se consegue fazer um clássico com duas torcidas. Isso passa mensagem de que é possível respeitar, conviver com quem pensa diferente. Acho que a gente tem conseguido, nos últimos muitos anos, ter torcida dividida com pouquíssimos acontecimentos no estádio. Praticamente não tem nenhum tipo de briga. Às vezes tem fora, distante, e tem sido punido também. Então, defendo e espero que isso continue assim aqui no nosso estado — declarou Paz.

Cooperação dos órgãos públicos é fundamental

Carol Lobo, membro da equipe mosaico, grupo responsável por festas nas arquibancadas da torcida do Fortaleza, celebrou a possibilidade dos clássicos serem disputados com torcida dividida. A torcedora ainda apontou que para que seja possível festas como essa, é preciso colaboração de órgãos públicos e que o entendimento governamental da importância da torcida dividida tem proporcionado momentos como esse.

— Ter duas torcidas no mesmo estádio é incentivar um ambiente harmonioso, onde as torcidas possam se encontrar. Acredito muito que seja muito mais vantajoso do que aumentar a rivalidade, dando a entender que essas organizações não possam vir em harmonia, não possam ficar no mesmo local. Além do mais, isso motiva os jogadores. Você olhar para o estádio e ver as duas torcidas com o bandeirão, com o mosaico, faz cada um lutar por cada posse de bola – disse.

— Mas também, para ver esses jogos, é muito importante a colaboração da Polícia e Ministério Público. Os governantes daqui da cidade sabem da importância e contribuem para isso, fornecendo a segurança de todo mundo. E acaba que isso fica a desejar em outros estados. Nós, daqui da cidade, temos orgulho em ter clássico meio a meio, de ter essa rivalidade. Não importa se o Fortaleza perde, se o Ceará perde, logo depois no Twitter vai estar todo mundo falando, agradecendo por ter essa possibilidade de poder assistir um título com o seu time, mesmo ele sendo visitante. Então, a gente não pode perder isso. Essa é a festa-raiz — finalizou.

Orgulho e preocupação

Edilton Souza tem 26 anos, é vendedor, e costuma frequentar o Castelão em dias de jogos do Fortaleza. Ele pondera que apesar de ter seu lado positivo, a torcida divida afasta alguns torcedores do estádio que temem brigas no entorno. Ele destacou que confrontos no estádio não costumam acontecer, mas que fora dele é rotineiro.

— É bom por um lado e ruim pelo espetáculo em si. Porque, de certa forma, desfavorece um dos grupos. E o esporte é nacional, cultural. Seria válido a gente poder aproveitar a oportunidade com a família, sem medo, principalmente da rivalidade, de confusões, brigas. Quando tem muitos problemas, a polícia consegue conter, mas dentro do estádio, Fora ou em torno, sempre tem confusão, principalmente quando é clássico. Ou em jogos de algum outro clube de fora que a torcida não seja aliada. Ainda acontece — ponderou o vendedor.

Já Dario Fontenelle, engenheiro de 40 anos e tricolor, disse sentir orgulho do estado do Ceará, pela possibilidade dos jogos com torcida dividida.

— Eu acho que é um privilégio a gente poder ter isso aqui. Eu frequento estádio e clássico desde que eu tenho seis, sete anos de idade e nunca tive problema. Hoje em dia, eu acho mais seguro eu vir para o clássico do que para o jogo comum. Porque o aparato de segurança é mais reforçado. A gente chega cedo, sai cedo, sem problema, sempre tem as divisões. Nunca, num Clássico-Rei, eu vi briga dentro do estádio. E eu acho que é um exemplo pro resto do Brasil, inclusive. Eu acho que o aparato de segurança aqui do estado traz esse orgulho para a gente de poder ter essa festa dividido, de trazer essa rivalidade de dentro do campo para cima da arquibancada também, isso é sensacional. O dia de clássico é inigualável — elogiou Dario.

Por fim, o torcedor elogiou o Clássico-Rei, entre Ceará e Fortaleza, afirmando se tratar da festa mais bonita do futebol brasileiro.

— Ah, é a festa mais bonita do Brasil, com certeza, por muito. A gente tem essa rivalidade, os mosaicos, tem de tudo aqui, os gritos, as respostas. Para o amante do futebol, fica muito mais bonito e pra quem vem viver o clássico também fica muito mais legal — finalizou.

Paulo Araújo, empresário de 37 anos e torcedor do Ceará é mais um que valoriza a torcida dividida. Segundo ele, o dia de Clássico-Rei muda a dinâmica da cidade, até mesmo no sentido de organização e operações organizacionais, e que tirar uma torcida não vai mudar isso. Além disso, afirmou se sentir seguro indo para o estádio e dentro dele.

— Com uma ou duas torcidas no estádio, o dia de Clássico-Rei vai seguir como um dia diferente na cidade, que exige uma operação de trânsito e segurança ampla. Tirar uma das torcidas não vai mudar isso. Talvez só piore ao tirar as organizadas do estádio. E o Castelão, tanto pelo tamanho quanto pela localização, com as duas torcidas tradicionalmente chegando por vias diferentes, permite relativo controle desse deslocamento. Eu me sinto mais seguro indo assistir ao jogo na arquibancada que em um bar, por exemplo. Não vejo o Clássico-Rei apenas como um jogo, mas também como um símbolo da cidade pra sua gente. O Estado se esforçar para que esse jogo ocorra com as duas torcidas valoriza os clubes, o futebol cearense, as torcidas e também o próprio Estado. Futebol é grande demais aqui pra ser só um evento esportivo, é parte do que somos — argumentou Araújo.

Festa do torcedor para o torcedor

Tércio Brilhante é jornalista esportivo no Ceará e contou que em 2023 houve uma proposta do Ministério Público cearense para a implementação de torcida única, o que foi repudiado pelos clubes. Ele ressalta, ainda, que a torcida dividida cria um clima de hostilidade entre as torcidas, algo notável em Minas Gerais e São Paulo, onde as torcidas rivais se mostram cada vez mais belicosas.

— Isso preserva a ideia do clássico como espetáculo para além dos times que estão em campo. Então, mesmo se os times que estiverem em campo são times fracos, o atrativo será o espetáculo das torcidas. Vale a pena você estar lá presente. Só por isso você paga para fazer a festa e para ver a festa do seu rival e tentar fazer melhor. Com a torcida única não se tem ninguém para celebrar a vitória na cara. Você não tem ninguém para, caso perca, ter que aguentar a explosão. Na prática, os casos de briga quase nunca são no estádio, são quase todos ou muito longe ou em um entorno cujo o policiamento qualificado pode coibir isso. Não é algo que se resolve tirando o torcedor comum do estádio — argumentou.

— Para o torcedor comum é muito pior, porque você vai se normalizando a não existência do rival. A não convivência com o oposto. Eles coexistem e isso é promovido pelo fato do Clássico-Rei ser dividido da forma como é. Então, apesar de sim, serem rivais, que se provocam, que trocam ofensas, há meio que um acordo de cavalheiros: “Eu tiro onda contigo, tu tira onda comigo, e assim é a vida”, e isso faz parte do jogo. A torcida única nega ao torcedor o direito de provocar e ser provocado. Se você fizer um amistoso clássico rei hoje, dá 20 mil pessoas. Porque o jogo em si, a partida de Ceará contra Fortaleza, ela é algo chamativo. As festas realizadas pelo torcedor para o torcedor — finalizou Tércio.

A Trivela tentou contato com a Polícia Militar do Ceará e com a Federação Cearense de Futebol, mas até a publicação da matéria, não havia recebido retorno.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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