‘O futebol brasileiro se desenvolveu junto com a ditadura’
Durante o Trivela FC, Tim Vickery relembrou a relação do regime autoritário com o futebol no Brasil
No Brasil, o dia 1 de abril é amplamente lembrado como o dia da mentira. Mas apesar das muitas piadas que surgem neste dia, há um marco que mudou os rumos da sociedade brasileira. Foi nesta mesma data, em 1964, os militares aplicaram um golpe no Estado Brasileiro e destituíram o estado democrático.
61 anos depois, a sociedade e os clubes brasileiros ainda sentem muita dificuldade em tratar do assunto de uma forma mais enérgica, com posicionamentos mais fortes. Dos poucos clubes que se pronunciaram nesta terça-feira (01), a maioria das publicações são mais protocolares do que protestantes.
Realidade bem diferente dos nossos vizinhos argentinos, que tratam o assunto com mais firmeza, tanto no âmbito social quanto entre os clubes de futebol. Em reportagem especial, a Trivela discutiu o porquê brasileiros e argentinos se comportaram de forma tão diferente em períodos tão parecidos das suas respectivas sociedades.

Futebol brasileiro e ditadura andaram de mãos dadas
Em muitos momentos, a história da ditadura militar se confunde com o avanço do futebol brasileiro. Foi durante o período golpista, por exemplo, que aconteceu a criação do Campeonato Brasileiro, em 1971. Vale lembrar que o golpe aconteceu apenas dois anos após a segunda conquista mundial da Seleção Brasileira.
Durante o Trivela FC, Tim Vickery, colunista – e agora também comentarista – da Trivela, comentou sobre os motivos.
— É triste pensar nisso, mas quando [João] Havelange lançou a campanha para ser o presidente da FIFA, a grande coisa que ele tinha para vender era o Brasil. Ele chama todo mundo para o mundialito de 1972 para mostrar o Brasil. Era a ideia de Brasil como modelo de desenvolvimento em um mundo em desenvolvimento — disse Tim.
O título da Copa de 1970 serviu como o estopim de uma falsa ideia nacionalista de união – além de outros fatores sociais mais complexos, como a narrativa do “milagre econômico”. No ano seguinte ao tri mundial, a CBD (que acabou virando CBF), criou o Campeonato Brasileiro, como conta Tim.
— A ditadura no Brasil era uma ditadura militar tecnocrata. Dá para enxergar dentro do futebol os tecnocratas chagando. Claudio Coutinho é o exemplo perfeito, ele pegou com a Nasa os métodos de treinamento para o Brasil. Foi a ditadura militar que iniciou o Campeonato Brasileiro, em 1971. De certa maneira, o futebol se desenvolveu com a ditadura. E eu não estou defendendo a ditadura — destacou o comentarista.

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Por que os argentinos condenam mais a ditadura do que os brasileiros?
Diferente do que foi no Brasil, na Argentina o futebol acabou sendo usado como um contraponto ao período ditatorial. Treinadores e jogadores, a exemplo de Maradora, se colocavam como figuras opostas ao que o golpe militar pregava. O espírito dos jogadores acabou se espalhando na população em geral.
— Quando a ditadura assumiu na argentina em 1976, [César Luis] Menotti (ex-treinador da seleção argentina) tinha uma escolha: pula fora ou fica. Ele resolveu usar a seleção. Na visão dele, a seleção de 78 que ganhou a Copa foi lá para passar uma mensagem sobre os valores verdadeiros da sociedade argentina. Ele deu um discurso antes da final aos jogadores ‘não estamos jogando para os generais na tribuna, estamos jogando para o nosso povo’, é muito difícil pensar o Brasil de 70 com um discurso daquela maneira. [O Brasil] Era uma seleção muito militarizada — explicou Tim.
Apesar da estratégia dos militares de usar o futebol para passar uma mensagem positiva durante o período totalitarista, importantes jogadores da época se opuseram a essa ideia. O principal exemplo, talvez, seja a Democracia Corintiana, liderada por Doutor Sócrates. Em Minas, Reinaldo, ídolo atleticano, também era nome forte.
Trivela estreia novo programa no YouTube
O leitor da Trivela agora tem um novo compromisso semanal. A Trivela lançou em seu canal do YouTube seu novo programa: Trivela FC. Comandado por Márcio Júnior, sempre às 15h, com a participação dos colunistas Tim Vickery e Andrey Raychtock para debater e contar histórias do que há de melhor e mais interessante no esporte.
Os nove primeiros episódios que foram ao ar estão disponíveis completos no YouTube da Trivela para você ver e rever. Aproveite e siga o canal da Trivela.



