Por que futebol do Brasil e da Argentina são quase opostos no posicionamento sobre a ditadura
Países vizinhos compartilham passado doloroso, mas lidam com ele de forma muito diferente

Rivais dentro de campo, Brasil e Argentina partilham semelhanças tristes e profundas durante as ditaduras militares que aterrorizaram os dois países. Apesar dessas similaridades, no futebol, as coisas são muito diferentes. A postura e comportamento dos clubes argentinos e brasileiros nessa sensível questão é praticamente oposta.
E a postura dos dois berços mais vitoriosos do futebol para tratar um tema tão sério para a sociedade levantou uma questão: por que existe tamanha diferença? Esse foi o pontapé inicial para a Trivela (tentar) buscar essa resposta — que não se limita aos gramados.
🇦🇷 A 49 años del último golpe cívico militar, en Ferro gritamos: “¡Nunca Más!”.
🤍💚 En el país faltan 30.000 detenidos desaparecidos y en nuestro club, 18 socias y socios que están más presentes que nunca en nuestras tribunas y en nuestros corazones.
Por Memoria, Verdad y… pic.twitter.com/HIn8F1hyWX
— Ferro Carril Oeste (@FerroOficial) March 24, 2025
A memória da ditadura militar
Desde 2002, a Argentina recorda o golpe das Forças Armadas no Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça. Por lá, o feriado do dia 24 de março serve como protesto contra a ditadura e a lembrança dos desaparecidos durante o regime autoritário.
Em entrevista à Trivela, o jornalista argentino Santiago Sourigues, do site “Top Mercato Latam”, destaca como a própria sociedade argentina, em sua grande maioria, entende o importante processo de construção de memória, que se reflete no futebol local.
— Na Argentina, existe um consenso bastante difundido na busca da verdade com aqueles que desapareceram na última ditadura militar. É um tema que sensibiliza a maioria.
— Os clubes de futebol são apenas um dos setores da sociedade que se curvam aos pedidos de memória, verdade e justiça todo dia 24 de março.
Ano após ano, os principais clubes argentinos se manifestam nas redes sociais para integrar o processo de memória coletiva contra o golpe militar. Em 2025, por exemplo, 28 dos 30 times da primeira divisão nacional (93,3%) fizeram pelo menos uma publicação no 24 de março sobre a ditadura.

Com exceção de Aldosivi e Independiente Rivadavia, os clubes da Liga Argentina, desde os mais tradicionais até os modestos, se juntaram ao movimento “Nunca Mais” — contra o regime militar — ou exaltaram a memória dos mortos e desaparecidos durante a ditadura.
Na última semana, a Trivela esteve em Buenos Aires e reportou como foi o 24 de março com participação da ala do futebol, com movimentos engajados na participação política, nas ruas da capital.
Entretanto, os dias 31 de março e 1 de abril, que marcam o início da ditadura militar no Brasil, não possuem o mesmo apelo popular, com protestos contra o regime ou exaltação da democracia — e isso se reflete no futebol.
Apenas Vasco, Bahia, Botafogo, Corinthians, Sport e Internacional, dentre os 20 clubes da elite do Brasileirão (30%), se pronunciaram sobre a data alusiva ao golpe de Estado de 1964. Fora da Série A, Remo, Náutico e Sousa-PB também fizeram publicações institucionais sobre a ditadura.
Pela Democracia! ✊🏾 #BFR pic.twitter.com/JZ66ZZqozT
— Botafogo F.R. (@Botafogo) April 1, 2025
A Democracia Corinthiana é um dos capítulos mais poderosos da nossa história.
— Corinthians (@Corinthians) April 1, 2025
E é por isso que fazemos questão de lembrar: memória é resistência.
Hoje, relembramos os dias 31 de março e 1º de abril de 1964 — quando um Golpe de Estado deu início à Ditadura Militar no Brasil.… pic.twitter.com/D9efFTRz5v
Para que nunca se esqueça, para que nunca se repita. #DitaduraNuncaMais pic.twitter.com/YtRNG6vlPw
— Sport Club do Recife (@sportrecife) April 1, 2025
Há 61 anos, o Brasil vivia um período sombrio de sua história. Em memória às vítimas e em respeito à liberdade, o Clube do Povo reitera o seu compromisso com a democracia e os direitos humanos: ditadura nunca mais! ✊🇦🇹 pic.twitter.com/GKnaCZllRM
— Sport Club Internacional (@SCInternacional) April 1, 2025
Em 2024, só quatro clubes da Série A se pronunciaram: Bahia, Corinthians, Internacional e Vasco (20%).
O quarteto brasileiro é conhecido por sua ligação popular e posicionamento em pautas sociais importantes. Contudo, as mensagens contra o golpe de Estado são mais contidas em comparação aos dos clubes argentinos.
No ano passado, mesmo sendo responsável pela Democracia Corintiana, o time paulista fez uma publicação protocolar em que exalta a figura de Sócrates — um dos líderes do movimento –, com a hashtag (quase que escondida) com a frase “Ditadura Nunca Mais”.
Homenagem mais do que merecida ao nosso eterno Doutor Sócrates! ✊🏽🖤
— Corinthians (@Corinthians) April 1, 2024
No último fim de semana, a Rua Dr. Sócrates, na Vila Olímpica de Paris, foi inaugurada! Uma honra acompanhar o legado do Dr. sendo espalhado ao mundo por meio de seus ideais. Um craque da bola, um ídolo… pic.twitter.com/9awHnhiEbj
Os clubes baiano e carioca adotaram estratégia parecida, publicando breves mensagens que exaltam a democracia. A equipe gaúcha foi mais incisiva para escrever com todas as letras que o período do golpe de Estado foi “uma das datas mais tristes” da histórica nacional.
Há 60 anos, o Brasil vivia uma das datas mais tristes de sua história. Hoje e sempre, é nosso dever lembrar para jamais repetir: Ditadura nunca mais! ✊🇦🇹🗣️ #DemocraciaSempre #ClubeDoPovo pic.twitter.com/VThyeaLntm
— Sport Club Internacional (@SCInternacional) April 1, 2024
Para Lívia Gonçalves Magalhães, doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora do livro “Com a Taça nas Mãos: Sociedade, Copa do Mundo e Ditadura no Brasil e na Argentina”, a diferença entre Brasil e Argentina para tratar o tema da ditadura militar, dentro e fora de futebol, é o processo de construção de memória histórica na sociedade civil.
— Existe quase que um pacto social na Argentina pós-ditadura de que isso está errado. Isso não acontece no Brasil por diversas questões. Acredito que uma das mais fortes é que temos de uma forma muito tímida, para não dizer inexistente, de políticas públicas de memória.
Em terras hermanas, não houve anistia aos militares envolvidos no golpe — o que aconteceu em solo tupiniquim. Portanto, o impacto social de um julgamento em tribunal civil dos responsáveis pelo regime autoritário resultou em um programa educacional contra a ditadura na Argentina:
— Eles (argentinos) têm essa ideia de que “Ditadura Nunca Mais”. E isso repercute nos clubes. São jogadores que têm uma noção social, eles crescem sabendo o que aconteceu na ditadura.
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O futebol reflete a sociedade?

— O futebol é um elemento popular de identidade nacional que serve para reivindicação de muitas outras identidades.
Foi assim que Lívia resumiu o papel do esporte dentro da sociedade. Por ser parte fundamental da cultura de brasileiros e argentinos, o futebol não fica alheio — ou pelo menos não deveria — do que acontece fora dos gramados.
Na Argentina, os clubes enquanto instituição são um braço do povo para se manifestar sobre a ditadura. Como o golpe militar é uma pauta apartidária para a sociedade do país, o futebol trata o regime autoritário com posicionamentos contrários e mais firmes.
Isso ajuda a explicar porque os clubes argentinos, 42 anos depois, continuam a lembrar de nomes e fotos de torcedores, sócios e futebolistas que desapareceram ou morreram nas mãos da ditadura militar.
🇱🇻✊ En la tribuna siguen faltando ellos, socios del Club Atlético Lanús víctimas de desaparición forzada en la última dictadura cívico-militar.
— Club Lanús (@clublanus) March 24, 2025
Memoria, Verdad y Justicia. Ahora y siempre. pic.twitter.com/cGkj4SfM0j
En el Día de la Memoria, Estudiantes no olvida.
— Estudiantes de La Plata (@EdelpOficial) March 24, 2025
Agradecemos la participación de Pablo Díaz, a Matías Tozzola por su música y a Identidad Pincharrata por la investigación. pic.twitter.com/JFUwnOYYw8
En este Día Nacional de la Memoria por la Verdad y la Justicia, desde Vélez volvemos a decir NUNCA MÁS.
— Vélez Sarsfield (@Velez) March 24, 2025
Con la memoria como motor imparable, hoy recordamos a todas las víctimas de la última dictadura en el país, en especial a los socios e hinchas detenidos-desaparecidos que… pic.twitter.com/0CrFx0YjOW
En Gimnasia, ¡Presentes siempre!
— Club de Gimnasia y Esgrima La Plata (@gimnasiaoficial) March 24, 2025
Memoria, verdad y justicia.#NuncaMás pic.twitter.com/fEP1wB1L2u
Em 2019, por exemplo, o Banfield foi o primeiro clube argentino a realizar uma cerimônia para restituir a condição de sócios a 11 pessoas que possuíam este título quando foram detidas pelo regime. De lá para cá, essa iniciativa foi replicada em outros times.
Já no Brasil, falar sobre o golpe de Estado é um tema sensível (e até mesmo polêmico) para a sociedade. Mais de seis décadas se passaram desde a ditadura militar, mas a discussão sobre o nefasto regime autoritário ainda é vista como um tema sensível, atrelado a uma agenda partidária.
Como consequência, os (poucos) clubes brasileiros adotam cautela para se posicionar. Na maioria das vezes, o silêncio toma conta das instituições do futebol, que é uma saída para não se comprometer.
— É uma questão da sociedade brasileira, que não quer falar. No ano passado, tivemos o (aniversário dos) 60 anos do golpe, que foi praticamente um debate da academia. O próprio Governo Federal optou por não ir nesse caminho porque ainda é muito tenso hoje em dia.
A mudança brasileira tem que vir de cima para baixo
✊🏾🇧🇷 #60anos #NuncaMais #BahiaClubeDoPovo #BBMP pic.twitter.com/imxaA6UJQ5
— Esporte Clube Bahia (@ecbahia) March 31, 2024
Para o futebol brasileiro começar a lidar com mais firmeza em relação à ditadura militar, primeiro é preciso que a sociedade civil assuma esse papel. Foi assim que a Argentina passou a tratar o regime autoritário como tema de importância pública:
— O Estado (brasileiro) não tem uma política pública de que, todo dia 31 de março, tem que ter um debate sobre isso (ditadura). Quando você cria (memória) como uma constante, a sociedade vai começar a incorporar.
Os clubes da Argentina só abraçaram a defesa da democracia e a memória dos horrores vividos após o golpe militar devido a um processo ininterrupto de ensino público. Lívia argumenta que esse é o caminho para o povo brasileiro repugnar a ditadura, o que se refletiria no futebol:
— Pode parecer uma besteira de “a gente vai ficar quanto tempo lembrando de 1964?”. Tem que lembrar para sempre. Ninguém pergunta quanto tempo vamos ficar lembrando do Holocausto, porque tem que lembrar para sempre. São coisas indiscutíveis. Mas no Brasil é discutível.



