América do Sul

Por que futebol do Brasil e da Argentina são quase opostos no posicionamento sobre a ditadura

Países vizinhos compartilham passado doloroso, mas lidam com ele de forma muito diferente

Rivais dentro de campo, Brasil e Argentina partilham semelhanças tristes e profundas durante as ditaduras militares que aterrorizaram os dois países. Apesar dessas similaridades, no futebol, as coisas são muito diferentes. A postura e comportamento dos clubes argentinos e brasileiros nessa sensível questão é praticamente oposta.

E a postura dos dois berços mais vitoriosos do futebol para tratar um tema tão sério para a sociedade levantou uma questão: por que existe tamanha diferença? Esse foi o pontapé inicial para a Trivela (tentar) buscar essa resposta — que não se limita aos gramados.

A memória da ditadura militar

Desde 2002, a Argentina recorda o golpe das Forças Armadas no Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça. Por lá, o feriado do dia 24 de março serve como protesto contra a ditadura e a lembrança dos desaparecidos durante o regime autoritário.

Em entrevista à Trivela, o jornalista argentino Santiago Sourigues, do site “Top Mercato Latam”, destaca como a própria sociedade argentina, em sua grande maioria, entende o importante processo de construção de memória, que se reflete no futebol local.

— Na Argentina, existe um consenso bastante difundido na busca da verdade com aqueles que desapareceram na última ditadura militar. É um tema que sensibiliza a maioria.

— Os clubes de futebol são apenas um dos setores da sociedade que se curvam aos pedidos de memória, verdade e justiça todo dia 24 de março.

Ano após ano, os principais clubes argentinos se manifestam nas redes sociais para integrar o processo de memória coletiva contra o golpe militar. Em 2025, por exemplo, 28 dos 30 times da primeira divisão nacional (93,3%) fizeram pelo menos uma publicação no 24 de março sobre a ditadura.

Protesto reúne milhares de argentinos no dia 24 de março, em Buenos Aires
Protesto reúne milhares de argentinos no dia 24 de março, em Buenos Aires (Foto: Imago)

Com exceção de Aldosivi e Independiente Rivadavia, os clubes da Liga Argentina, desde os mais tradicionais até os modestos, se juntaram ao movimento “Nunca Mais” — contra o regime militar — ou exaltaram a memória dos mortos e desaparecidos durante a ditadura.

Na última semana, a Trivela esteve em Buenos Aires e reportou como foi o 24 de março com participação da ala do futebol, com movimentos engajados na participação política, nas ruas da capital.

Entretanto, os dias 31 de março e 1 de abril, que marcam o início da ditadura militar no Brasil, não possuem o mesmo apelo popular, com protestos contra o regime ou exaltação da democracia — e isso se reflete no futebol.

Apenas Vasco, Bahia, Botafogo, Corinthians, Sport e Internacional, dentre os 20 clubes da elite do Brasileirão (30%), se pronunciaram sobre a data alusiva ao golpe de Estado de 1964. Fora da Série A, Remo, Náutico e Sousa-PB também fizeram publicações institucionais sobre a ditadura.

Em 2024, só quatro clubes da Série A se pronunciaram: Bahia, Corinthians, Internacional e Vasco (20%).

O quarteto brasileiro é conhecido por sua ligação popular e posicionamento em pautas sociais importantes. Contudo, as mensagens contra o golpe de Estado são mais contidas em comparação aos dos clubes argentinos.

No ano passado, mesmo sendo responsável pela Democracia Corintiana, o time paulista fez uma publicação protocolar em que exalta a figura de Sócrates — um dos líderes do movimento –, com a hashtag (quase que escondida) com a frase “Ditadura Nunca Mais”.

Os clubes baiano e carioca adotaram estratégia parecida, publicando breves mensagens que exaltam a democracia. A equipe gaúcha foi mais incisiva para escrever com todas as letras que o período do golpe de Estado foi “uma das datas mais tristes” da histórica nacional.

Para Lívia Gonçalves Magalhães, doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora do livro “Com a Taça nas Mãos: Sociedade, Copa do Mundo e Ditadura no Brasil e na Argentina”, a diferença entre Brasil e Argentina para tratar o tema da ditadura militar, dentro e fora de futebol, é o processo de construção de memória histórica na sociedade civil.

— Existe quase que um pacto social na Argentina pós-ditadura de que isso está errado. Isso não acontece no Brasil por diversas questões. Acredito que uma das mais fortes é que temos de uma forma muito tímida, para não dizer inexistente, de políticas públicas de memória.

Em terras hermanas, não houve anistia aos militares envolvidos no golpe — o que aconteceu em solo tupiniquim. Portanto, o impacto social de um julgamento em tribunal civil dos responsáveis pelo regime autoritário resultou em um programa educacional contra a ditadura na Argentina:

— Eles (argentinos) têm essa ideia de que “Ditadura Nunca Mais”. E isso repercute nos clubes. São jogadores que têm uma noção social, eles crescem sabendo o que aconteceu na ditadura.

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O futebol reflete a sociedade?

"Tem que ser muito cagão para não defender os aposentados", frase dita por Diego Armando Maradona foi levada pelos manifestantes argentinos durante os protestos do dia 24 de março Foto: (Imago)
“Tem que ser muito cagão para não defender os aposentados”: frase dita por Diego Armando Maradona foi levada pelos manifestantes argentinos durante os protestos do dia 24 de março Foto: (Imago)

— O futebol é um elemento popular de identidade nacional que serve para reivindicação de muitas outras identidades.

Foi assim que Lívia resumiu o papel do esporte dentro da sociedade. Por ser parte fundamental da cultura de brasileiros e argentinos, o futebol não fica alheio — ou pelo menos não deveria — do que acontece fora dos gramados.

Na Argentina, os clubes enquanto instituição são um braço do povo para se manifestar sobre a ditadura. Como o golpe militar é uma pauta apartidária para a sociedade do país, o futebol trata o regime autoritário com posicionamentos contrários e mais firmes.

Isso ajuda a explicar porque os clubes argentinos, 42 anos depois, continuam a lembrar de nomes e fotos de torcedores, sócios e futebolistas que desapareceram ou morreram nas mãos da ditadura militar.

Em 2019, por exemplo, o Banfield foi o primeiro clube argentino a realizar uma cerimônia para restituir a condição de sócios a 11 pessoas que possuíam este título quando foram detidas pelo regime. De lá para cá, essa iniciativa foi replicada em outros times.

Já no Brasil, falar sobre o golpe de Estado é um tema sensível (e até mesmo polêmico) para a sociedade. Mais de seis décadas se passaram desde a ditadura militar, mas a discussão sobre o nefasto regime autoritário ainda é vista como um tema sensível, atrelado a uma agenda partidária.

Como consequência, os (poucos) clubes brasileiros adotam cautela para se posicionar. Na maioria das vezes, o silêncio toma conta das instituições do futebol, que é uma saída para não se comprometer.

— É uma questão da sociedade brasileira, que não quer falar. No ano passado, tivemos o (aniversário dos) 60 anos do golpe, que foi praticamente um debate da academia. O próprio Governo Federal optou por não ir nesse caminho porque ainda é muito tenso hoje em dia.

A mudança brasileira tem que vir de cima para baixo

Para o futebol brasileiro começar a lidar com mais firmeza em relação à ditadura militar, primeiro é preciso que a sociedade civil assuma esse papel. Foi assim que a Argentina passou a tratar o regime autoritário como tema de importância pública:

— O Estado (brasileiro) não tem uma política pública de que, todo dia 31 de março, tem que ter um debate sobre isso (ditadura). Quando você cria (memória) como uma constante, a sociedade vai começar a incorporar.

Os clubes da Argentina só abraçaram a defesa da democracia e a memória dos horrores vividos após o golpe militar devido a um processo ininterrupto de ensino público. Lívia argumenta que esse é o caminho para o povo brasileiro repugnar a ditadura, o que se refletiria no futebol:

— Pode parecer uma besteira de “a gente vai ficar quanto tempo lembrando de 1964?”. Tem que lembrar para sempre. Ninguém pergunta quanto tempo vamos ficar lembrando do Holocausto, porque tem que lembrar para sempre. São coisas indiscutíveis. Mas no Brasil é discutível.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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