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Imbróglio entre Flamengo e família de vítima da tragédia do Ninho se estende com novos recursos

O Flamengo questiona a posição de um dos membros a serem indenizados, enquanto a família de Christian Esmério,

Os problemas nas indenizações da tragédia do Ninho do Urubu ainda não terminaram. O Flamengo recorreu à decisão de pagar quase R$ 3 milhões à família de Christian Esmério, a última cujo acordo era pendente, alegando confusão no grau de parentesco de um dos indenizados. O outro lado, dos familiares, por sua vez, também entrou com um recurso, questionando o parcelamento do pagamento.

Ambas as partes questionaram a decisão do juiz André Aiex Baptista Martins, titular da 33ª Vara Cível do Rio, por meio de um embargo de declaração, que tem como finalidade de esclarecer contradição ou omissão na sentença. A documentação foi obtida inicialmente pelo O Globo, e Trivela também teve acesso. É mais um capítulo dessa reta final das indenizações da tragédia do Ninho, que já deveria ter sido resolvida há muito tempo.

O lado do Flamengo

São dois questionamentos por parte do departamento jurídico. O primeiro, mais incisivo, pede esclarecimentos sobre o grau de parentesco de Alessandro da Silva dos Santos, citado como irmão de consideração de Christian Esmério no processo, que deve receber R$ 120 mil em danos morais, como parte da decisão. O Flamengo entende que Alessandro é, na verdade, tio da vítima, algo que poderia alterar na sentença.

“Apesar de qualificado na inicial como irmão da vítima Christiano Esmério Cândido, em verdade é seu tio por parte de mãe. Sendo assim, adotou a sentença embargada “o entendimento perfilhado no Colendo Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo o qual, para fins de legitimidade ativa em casos de dano moral indireto ou reflexo (ricochete), o vínculo a ser considerado no núcleo familiar é presumidamente estreito quanto aos pais e irmãos da vítima. (…)

Como a própria sentença atestou, o mencionado autor se apresentou como irmão da vítima, para nesta qualidade formular pedido indenizatório por danos morais, quando em verdade é seu tio, alterando a verdade dos fatos em comportamento que seria capaz de induzir o atento juízo em erro, não fosse percebida a falsa informação quando da prolação da sentença. Portanto, impõe-se enfrentar a questão da litigância de má-fé”

O Flamengo também voltou a questionar os valores a serem pagos para a família de Christian Esmério. De acordo com o departamento jurídico do clube, “os pedidos foram julgados apenas parcialmente procedentes, para condenar o embargante ao pagamento de indenização total, por danos morais, no valor de R$ 2.944.000,00”.

O lado da família de Christian Esmério

Os advogados da família de Christian Esmério questionaram o modelo de pagamento da indenização. No embargo de declaração, a defesa entendeu que o parcelamento seria uma espécie de “tortura psicológica”, um lembrete à tragédia e, por isso, pediu que os valores fossem recebidos de maneira integral. O total gira em torno de R$ 2,1 milhões, que seriam pagos em vencimentos de R$ 7 mil por mês, ao longo de 25 anos.

“Devido todo os acontecimentos, os embargantes entendem que, ficarem vinculados ao clube embargado, por mais de 25 anos, é o mesmo que reviver, mensalmente, o trágico incêndio do dia 08.02.2019. Hoje, tudo que os embargantes querem e esquecer o acidente e darem continuidade em suas vidas, todavia, entrar para a folha mensal de pagamento do clube embargado impossibilitará os mesmos de fecharem esta página triste das suas vidas, relembrando, mensalmente, o incêndio em uma verdadeira tortura mensal”

É importante frisar que, dentro desses argumentos, a defesa ainda cobra os valores retroativos. Segundo os advogados, a família de Christian Esmério pode receber com tranquilidade, já que o Flamengo é um dos clubes mais ricos do país. Os familiares da vítima também chegaram a questionar uma possível SAF no Rubro-Negro, mas os planos estão distantes.

Depois disso, a defesa ainda retrucou sobre o embargo do Flamengo. Os advogados explicaram a situação do tio, considerado um irmão pela família, e ainda frisa que o próprio clube já estava ciente dessa relação entre Alessandro e a vítima.

Andreia Oliveira, mãe de Christian Esmério, foi a única a reivindicar seus direitos contra o Flamengo na Justiça (Foto: Divulgação)

“A mãe do embargante ALESSANDRO, e da embargante ANDREIA, veio a óbito quando Alessandro tinha apenas 02 anos de idade, passando o mesmo a ser criado por sua irmã, a embargante ANDREIA, junto com a vítima, Christian. Inclusive, o embargante ALESSANDRO recebeu ajuda psicológica do clube embargado, o que comprova que o clube embargado reconhece o laço de irmandade socioafetiva do mesmo e, ainda, a sua legitimidade sequer foi impugnada pelo clube embargado”, finalizou.

Assunto precisa ser encerrado o quanto antes

O novo capítulo é mais um episódio triste para o Flamengo, no que tange a tragédia do Ninho do Urubu. Estender o caso, embora dentro da lei, não é nem um pouco necessário para o clube. A movimentação, inclusive, foi muito criticada nas redes sociais. A torcida quer que o assunto termine, já que a família de Christian Esmério é a única que ainda não firmou um acordo com o Rubro-Negro.

A defesa, inclusive, vê a movimentação do Flamengo como um ato baixo, para adiar a decisão e, como consequência, o pagamento do valor determinado pela Justiça. Os embargos fazem com que os prazos sejam suspensos, e ambas as partes só poderiam partir para uma última apelação após o julgamento dos recursos. Em resumo, a burocracia deve atrasar uma decisão final.

A tragédia do Ninho do Urubu é o episódio mais triste da história do Flamengo, tendo tirado a vida de dez jovens atletas das categorias de base, entre 14 e 16 anos. O episódio completou cinco anos no início de fevereiro e, até o momento, ninguém foi condenado.

Foto de Guilherme Xavier

Guilherme Xavier

É repórter na cobertura do Flamengo há três anos, com passagens por Lance! e Coluna do Fla. Fã de Charlie Brown Jr e enxadrista. Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida!
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