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Fábio Santos é mais um a dizer que aprendeu muito com Sampaoli, o problema é que tem sempre um ‘mas’ com o treinador

Fábio Santos é mais um que trabalhou com Sampaoli e aprendeu sobre futebol com o treinador, mas também é mais um que critica sua forma de (não) gerir um grupo

Jorge Sampaoli é um dos treinadores mais controversos que já passou no futebol brasileiro. É difícil encontrar torcedores dos clubes que ele treinou que ficam no meio do caminho quando falam dele, é o famoso “ame ou odeie”. Mas entre os jogadores, o discursos é quase sempre o mesmo: aprenderam muito sobre futebol com o argentino, mas os métodos e a convivência são difíceis. O último a adotar essa descrição foi o agora aposentado Fábio Santos, que trabalhou com ele no Atlético-MG.

Com passagens consideradas curtas por Santos, Atlético e Flamengo no Brasil, Sampaoli sempre dividiu opiniões populares. A exigência por contratações a todo momento gerou até um meme na comunidade do futebol, o famoso “necesito cinco refuerzos más”, com uma foto com a cara do treinador. Dentro de campo, os times do treinador argentino sempre encantavam. A marcação pressão, o jogo posicional, as jogadas de saída de bola, as triangulações, tudo era muito bem avaliado em campo, mas faltou algo para ele se consolidar no Brasil e talvez parar de dividir tanto as opiniões: ganhar títulos.

No Santos, acabou vice-campeão Brasileiro perdendo para o super Flamengo de Jorge Jesus em 2019. No Atlético, foi campeão Mineiro e disputou o título Brasileiro, mas acabou em terceiro lugar. No próprio Rubro-Negro, quando achavam que era finalmente a hora dele estourar, fez o seu pior trabalho em território brasileiro. A sensação é que Sampaoli sempre ficou no quase, e justamente por isso gera essa divergência de opiniões.

O Sampaoli que tem convivência ruim é o mesmo que ensina em campo

Muitos apontam que um dos motivos dos times de Sampaoli sempre ficarem no “quase” é a sua gestão de grupo, ou falta dela. Em todos os lugares que passou (até fora do Brasil), há relatos de jogadores desgastados com o treinador, que não aguentavam ou entendiam seus métodos de trabalho, e principalmente seu trato no dia a dia. Esse foi um dos pontos que Fábio Santos levantou ao falar o argentino.

– Eu fiquei quatro meses dando bom dia pra ele, aí depois do quarto mês eu desisti, pô. Ele olha pra você e não fala bom dia. O que esse baixinho tá arrumando? Os caras já tinham largado com 15 dias: ‘Eu não falo mais que esse baixinho’. Eu insistia. Três, quatro meses, o cara não me dava bom dia. Eu falei, não é pessoal, é dele mesmo. Tinha dia que ele chegava legal pra caramba, contava história, eu falei: ‘Agora ele vai’. No outro dia, ele não falava com ninguém, só xingava — afirmou Fábio Santos em entrevista à ESPN.

Como Fábio Santos destacou, esse tipo de comportamento é algo que faz parte de Sampaoli, não é com um jogador ou com um clube, é em todo lugar que ele vai. Quem o contrata hoje em dia já sabe que terá isso. O ex-lateral afirmou que chega a achar engraçado de tão “insuportável” que o argentino era. Mas afirmou também que isso é algo só do treinador, que a comissão dele é de outra forma, bem mais tranquila e amigável.

Experiente como é, Fábio Santos então destacou que, apesar desses problemas no dia a dia, atualmente não existe mais essa questão de “derrubar treinador” só porque não tem uma convivência boa. Ele apontou, inclusive, que o que faz diferença mesmo é o campo.

Acho que a sintonia é importante, faz você ter um dia a dia mais leve, mas isso não quer dizer que você vai ganhar porque é um bom gestor. O Sampaoli tem uma gestão horrorosa e foi muito bem no Santos e no Atlético – Fábio Santos

O professor Sampaoli

Apesar de todos esses problemas de convivência, Sampaoli é sempre elogiado pelos jogadores que treinou. Diversos atletas que são perguntados sobre como é trabalhar com o argentino falam que aprenderam algo e evoluíram como jogadores sob o comando do argentino – apesar de sempre colocarem esse “mas” sobre o comportamento. Fábio, inclusive, foi um deles.

– É o mais louco (que me treinou), mas taticamente eu aprendi muito com ele. Ele é bom treinador. Não deu tão certo no Flamengo, mas ele tem muita coisa, que eu que gosto de futebol, pude aprender com ele — afirmou o lateral.

No próprio Atlético, onde Fábio trabalhou com Sampaoli, vários outros jogadores já falaram da importância do argentino nas suas carreiras. Eduardo Sasha, que trabalhou com ele no Galo e no Santos, afirmou que foi Sampaoli quem mais “impactou seu jogo” e que começou “a olhar o jogo de uma outra forma” depois de trabalhar com ele.

O lateral Guga, que sempre teve destaque mais ofensivo, foi um terceiro zagueiro com Sampaoli, e afirmou que assim aprendeu muito defensivamente: “Dos caras que trabalhei, é um dos que tem nível mais alto. Sabe o que tirar de um jogador”, disse ao Charla Podcast. Savarino destacou que aprendeu com ele “tanto dentro quanto fora de campo”, que ele ensinava a como se mover em campo. No Santos, Soteldo disse que aprendeu a marcar com o argentino, e Marinho foi além: “Ele me ensinou a jogar futebol”, disse em entrevista ao SporTV.

Todos esses jogadores também falaram de como o argentino é difícil de trabalhar. Da mesma forma que são inúmeros os relatos sobre o quão intenso e desgastante emocionalmente é trabalhar com Sampaoli, há também vários relatos de jogadores que aprenderam muito em campo com ele. Não dá para tratá-lo como um gênio só pelo que faz em campo e nem como horrível pela forma como age. Existe uma balança, que em alguns momentos pesa mais para um lado do que para o outro, mas que também quase sempre quebra com ele saindo por baixo, apesar do grande trabalho em campo.

O certo é que, com Sampaoli, você provavelmente vai ter um time bem estruturado e que joga muito bem, mas isso a custo de uma relação não muito saudável e que, muito provavelmente, não será longa. Como o próprio Fábio Santos afirmou: “Ele não dura nos lugares porque o dia a dia dele é muito desgastante. Você sai do treino com a energia lá embaixo. Ele suga tudo”.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander HeinrickSetorista

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.

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