Brasil

Ex-atleta no comando. Estatuto do Torcedor? Não sei, não…

Futebl, paixão do povo, quase um caso de segurança nacional, sempre se torna motivo de discussão de gente bem intencionada, que deseja vê-lo bem dirigido, à altura do que representa. E sonhando com o que pode representar.

A discussão não é apenas sobre o jogo em si, defesa, ataque e meio-campo, triângulo de base alta, overlaping circular com meio twist carpado em 45 graus, rolinho, escanteio de pé trocado, passe de primeira etc… Discutimos também marketing – meu time ganha mais que o seu – e o futuro do jogo.

Minha proposta é simples: cada vez que um clube europeu contratar um craque, ele tem a obrigação de levar um dirigente também. Quer o Neymar, leva o Laor. Lucas interssa? O Juvenal vai ser o seu presidente. Está sonhando com o Paulinho? Vai ter de dormir com o Andrés.

Em pouco tempo, esses dirigentes acabariam com o futebol europeu. Funcionariam como cavalos de Troia a espalhar nossa incompetência por lá. Não que eles sejam ótimos, mas isso é assunto para outra conversa.

Minha proposta não tem como prosperar. Outras duas tiveram um destino melhor. Vamos analisá-las:

1) Os clubes deveriam destinar a gerência do departamento de futebol a ex-atletas.

2) A capacidade dos estádios deve ser diminuída, em nome de maior conforto dos torcedores.

No primeiro caso, se espelham em Platini, Beckenbauer e são surpreendidos por Patrícia Amorim. A ex-nadadora, gloria do clube, chegou à presidência do Flamengo e…foi um desastre administrativo. Não conseguiu a reeleição.

Patrícia não pode ser considerada regra, mas tenho dúvida que ela seja exceção. Ex-atleta pode ser bom dirigente? Pode. Mas não há nada que garante esse axioma, totalmente defendido pelos que se acham modernos. Na verdade, quando pensam no sucesso garantido de ex-atletas estão falando de um certo tipo de ex-jogador.

É o “diferenciado”. Jornalista , em geral, adora conviver com jogadores que usam bem os pronomes e não se enroscam na hora de conjugar um verbo. Ele se sente menos diminuído, aceita que alguém que saiba falar bem, ganhe mais do que ele. Nem interessa o que o cara faz em campo.

Para ser dirigente de um clube, a pessoa precisa ter mais do que uma boa conversa. Precisa fazer cursos de gerenciamento, por exemplo. César Sampaio fez. E foi um fracasso no Palmeiras. Também não quero dizer que o futebol deva ser um refúgio dos intelectuais e dos bem nascidos. Resumindo: para trabalhar no futebol é preciso competência. Ex-atletas podem tê-la, mas não há certeza disso.

O estatudo do Torcedor, feito por pessoas muito bem intencionadas, repito, resolveu que o número de ingressos disponíveis para um jogo deve ser proporcional à circunferência da bunda dos torcedores. E todos encolheram.

O São Paulo, que vai disputar um título sul-americano terá o apio de 64 mil torcedores. Antes, o estádio recebia mais de 100 mil. Ninguém reclamava. Mas quem fez o Estatudo do Torcedor nunca foi ao estádio. Magnânimos, buscam dar conforto ao zé-povinho.

Esse jogo contra o Tigre serviu para deixar claro, também, a incompetência dos dirigentes do São Paulo. Terceirizaram a venda pela internet e o torcedor foi brindado com uma série de notícias e informações desencontradas. O clube precisou intervir, dizendo onde é que havia erro, em que setores ainda poderiam ser encontrados ingressos. O sócio-torcedor foi desprestigiado.

Imaginem um diretor desses organizando a final da Champions League. Toda aquela fama de organização cairia por terra. Seria nossa vingança.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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