Pulgar: Por que ‘espelho’ tático de Filipe Luís impressiona no Flamengo, mas não no Chile?
Volante brilha como organizador e líder tático no time rubro-negro, mas esbarra em um sistema que o restringe na seleção chilena
O Flamengo de Filipe Luís parece ter um dono no meio-campo. Mesmo após a chegada de Saúl Ñíguez, nome de peso trazido para aumentar a concorrência no setor, Erick Pulgar voltou de lesão e reassumiu o comando da zona central como se nunca tivesse saído. O chileno é, hoje, a extensão das ideias do treinador dentro de campo — algo que o próprio Filipe revelou recentemente.
— O Pulgar, eu já falei para vocês, é um pilar da equipe, sempre foi para mim, é um jogador fundamental. Um líder tanto dentro quanto fora de campo, é um cara que entende o que penso como ninguém. É uma parte de mim que está dentro do campo, é muito importante — disse Filipe após vitória por 3 a 2 contra o Palmeiras.
Pulgar retornou à equipe rubro-negra justamente num dos momentos mais decisivos da temporada — e o desempenho recente só reforça sua importância. Foram quase três meses afastado por conta de uma fratura no quinto metatarso do pé direito, ocorrida em junho de 2025, durante o jogo contra o Bayern de Munique.
A vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo, no último dia 15 de outubro, marcou o retorno do camisa 5 aos gramados. Ele entrou no segundo tempo e fez jogo seguro e correto. Mas foi nos dois duelos seguintes, diante de Palmeiras e Racing, que o chileno brilhou.
Na ida da semifinal da Libertadores, contra os argentinos, foi o jogador com mais recuperações (13), mais interceptações (2) e maior eficácia nos passes (92%), além de ter completado 68 de 74 passes tentados e 4 de 5 bolas longas.
Participativo também com a bola, terminou o jogo como segundo em dribles certos (3). Um retrato estatístico daquilo que Filipe Luís vem repetindo desde o início de sua trajetória como técnico: Pulgar é o termômetro e o equilíbrio de seu time.

Com ou sem Saúl, Pulgar é titular do Flamengo de Filipe Luís
Durante a ausência de Pulgar, o meio-campo do Flamengo passou por diversas formações. Filipe Luís testou inicialmente Allan e Evertton Araújo, que chegaram a atuar lado a lado nas partidas sem Jorginho. A configuração, no entanto, mudou com a chegada e ascensão repentina de Saúl à titularidade.
O espanhol rapidamente se destacou pela qualidade técnica e pela capacidade de encontrar passes verticais, algo que Filipe valoriza bastante. Com o pé esquerdo refinado e experiência em alto nível europeu, Saúl passou a ser uma das principais peças na saída de bola rubro-negra. Parecia, à primeira vista, o início de uma nova hierarquia no meio.
Pulgar, porém, retornou justamente quando Saúl teve um leve problema no tornozelo esquerdo, que levou Filipe a dosar sua utilização em campo. E foi o suficiente para o chileno retomar o posto e, com atuações seguras, reafirmar sua importância no esquema. Desde então, o volante voltou a ser peça-chave na estrutura tática flamenguista — responsável por dar sustentação ao time e equilíbrio entre os setores.
— Quem está feliz é o treinador de ter todos esses jogadores disponíveis. O Saúl tem o pé esquerdo que nos dá muito nessa saída de bola… mas o Pulgar é fundamental, é um líder, entende o que eu penso. O Jorginho também. É uma concorrência boa — afirmou o técnico na coletiva pós-triunfo sobre o Palmeiras.
Uma possibilidade para ter Pulgar e Saúl juntos seria deslocar o espanhol para o lado direito, função parecida com a que Gerson exercia antes de sair do Flamengo. Era justamente assim que Filipe Luís planejava usá-lo quando ele chegou do Atlético de Madrid, mas as circunstâncias acabaram alterando o plano original.
Para que tal esquema funcione, entretanto, seria necessário abrir mão de um dos pontas — atualmente, Jorge Carrascal, Gonzalo Plata e Luiz Araújo brigam pela posição, tornando o setor uma das maiores interrogações do time.
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O volante de ‘nível Barcelona e seleção brasileira’ aos olhos de Filipe Luís

No meio-campo do Flamengo, Pulgar atua como a verdadeira engrenagem que garante equilíbrio entre defesa e ataque. Sua leitura de jogo permite antecipar ações adversárias, fechar linhas de passe e orientar companheiros, oferecendo ao time estabilidade em transições rápidas e segurança na posse.
Além disso, sua capacidade de variar entre passes curtos e longos mantém o ritmo da equipe, tornando-o peça indispensável para Filipe Luís implementar seu modelo de jogo.
— Se Erick Pulgar fosse brasileiro, estaria na seleção brasileira. E seria titular. É um grande jogador. É o que penso. Não existem muitos como Pulgar no mundo hoje, se tentar encontrar. É um jogador muito importante. O Pulgar lê muito bem o jogo e nos dá muitas opções — Filipe Luís pós-ida da semifinal do Carioca 2025, contra o Vasco.
Essa inteligência tática é justamente o que faz o chileno se destacar e justificar o alto nível de elogios do treinador. Mais do que recuperar bolas, Pulgar organiza, dita o ritmo e cria opções para os meias e pontas se movimentarem com liberdade, funcionando como um maestro silencioso no coração da equipe.
— O Erick, repito, é um jogador que perfeitamente estaria jogando no Barcelona. Vejo os detalhes, o quanto ele corre, o quanto ele previne cada ação, o quanto ele consegue cobrir o campo. Muitas vezes a bola não entra no jogador que ele está perto só porque ele já está prevendo a ação. São muitos detalhes que fazem ele ser um jogador de classe mundial — Filipe Luís pós-título Carioca 2025.
Por que Pulgar não é visto da mesma forma no Chile?

Apesar do destaque que Pulgar alcança no Flamengo, seu desempenho na seleção chilena desperta questionamentos. A explicação vai além de talento individual: envolve o sistema de jogo, o posicionamento tático e o ambiente coletivo em que atua. No clube carioca, o volante tem liberdade para organizar a equipe, ditar o ritmo e atuar como um “segundo armador”, enquanto recebe proteção e apoio dos companheiros de meio.
E isso faz toda a diferença para um jogador cuja força está na leitura de jogo, na precisão de passe e na capacidade de manter o equilíbrio do time em todas as fases do jogo. Enquanto no Flamengo essas qualidades são potencializadas pelo modelo de Filipe Luís, na Roja, Pulgar é frequentemente colocado em situações que limitam sua influência e reduzem sua capacidade de brilhar. É o que explica a jornalista Carla Bernucci, editora do site chileno “Al Aire Libre”, à Trivela.
— No Flamengo, Filipe Luís o utiliza em uma dupla de volantes, ao lado de um meio-campista mais móvel, o que libera Pulgar para jogar como segundo armador. Lá, sua função é interceptar, organizar e distribuir com precisão. Nesse esquema, o chileno se destaca porque a equipe domina a posse de bola, pressiona alto e tem automatismos claros, o que lhe permite brilhar em sua especialidade: o passe curto, a leitura de jogo e a saída limpa.
— Na seleção chilena, por outro lado, pediram-lhe algo diferente. Durante anos, tentaram que Pulgar fosse um “novo Marcelo Díaz”, colocando-se entre os zagueiros para iniciar a jogada desde o fundo. Mas a equipe não tem nem a estrutura de jogo, nem os movimentos coletivos do Flamengo, e isso o expõe. Na La Roja, Pulgar costuma ficar isolado, sem apoios próximos nem volantes que se ofereçam entre as linhas.
— O resultado: no Flamengo, Pulgar brilha como um cérebro tático; no Chile, atua como um volante solitário que apaga incêndios — concluiu Carla.
Como os torcedores chilenos analisam o desempenho e sucesso de Pulgar no Brasil?
— O contraste gera muita discussão. No Chile, Pulgar não é um jogador popular, porque sua contribuição é discreta e seu estilo não tem a energia nem o carisma de Vidal. Nas redes sociais, os torcedores costumam avaliá-lo pelo que é visível (gols, assistências ou intensidade), e aí seu jogo passa despercebido — iniciou Carla.
Para a jornalista, o fato de Pulgar ser, no Flamengo, um jogador de “classe mundial em termos de leitura tática”, expõe o contraste da sua imagem com o torcedor chileno, que não vê a mesma constância nos compromissos com a seleção.
— No Chile, os torcedores o veem como o jogador que “poderia dar mais”, aquele que “não chega a ser o líder de que o meio-campo precisa”. Não se questiona seu talento, mas seu impacto emocional e sua constância.



