Enquanto CBF lava as mãos, arbitragem do Brasileirão segue uma tragédia
A arbitragem continua sendo um problema no Campeonato Brasileiro. E a Comissão de Arbitragem segue em brancas nuvens, lavando as mãos, de forma irresponsável. É comum em quase todas as rodadas termos erros, alguns claros e absurdos, outros menos evidentes. A 32ª rodada teve mais uma vez alguns episódios que levantaram discussões fortes sobre a arbitragem. Há, como sempre, um pouco de exagero de alguns, um excesso de passada de pano em outros, mas a arbitragem segue incompetente. E quem a comanda, segue sem tomar uma atitude.
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Neste fim de semana, por exemplo, tivemos o pênalti não marcado para o Sport contra o Palmeiras, quando a bola bateu na mão de um imprudente Mina; o impedimento absurdo não marcado no gol de Guerrero, do Flamengo, contra o Corinthians; a lambança feita pelo árbitro no Grenal ao expulsar um jogador que tomou um soco; e a expulsão inacreditável de Kléber, do Coritiba, no jogo contra o Fluminense.
Sou dos que costuma ser crítico ao excesso de espaço dado para as reclamações sobre a arbitragem. Às vezes, há mesmo uma histeria em torno de insinuar esquema ou complô em torno de um ou mais times. Isso é sempre irresponsável, porque é jogar gasolina na fogueira de torcedores que já estão putos da vida pelos erros que a incompetência da nossa arbitragem comete. O problema está acima dos árbitros: está na Comissão de Arbitragem, que não só não combate os problemas, mas os alimenta.
A irresponsabilidade do sorteio
Vamos começar do começo. O recém-empossado chefe da Comissão de Arbitragem, Marcos Marinho – aqui em São Paulo conhecido como Coronel Marinho pelos tempos de comandante da Polícia Militar em jogos de futebol – resolveu fazer uma inovação no sorteio de árbitros para as rodadas. Ao invés de dois ou três árbitros colocados no sorteio para cada jogo, escolhidos por algum critério técnico, há um sorteio completamente aleatório, colocando 12 árbitros de níveis técnicos e de experiência completamente diferentes para um mesmo jogo.
Isso significa, na prática, que um árbitro muito ruim tecnicamente, como é o caso de Francisco Carlos do Nascimento, possa ser sorteado para aquele que é um dos jogos mais difíceis de todo o Campeonato Brasileiro, o Grêmio x Internacional. Foi o que aconteceu. Durante toda a semana, se falou muito no Rio Grande do Sul em como este árbitro costuma causar confusões nos seus jogos. Foi o que aconteceu.
Lambança e mentira na súmula no Grenal
Começa com uma agressão de Bolaños a William, lateral do Inter. Sim, tem o histórico: Willian foi o responsável por fraturar o maxiliar do equatoriano durante o Campeonato Gaúcho. O histórico era quente e o jogador do Grêmio deixou o cotovelo no jogador do Inter. O árbitro, porém, não viu – ou, pior ainda, ignorou.
Vitinho sofreu uma falta e, nervoso, deu um tapa na bola que enervou os gremistas. Edílson foi para cima dele, formou-se um bolinho e o lateral gremista desferiu socos em Rodrigo Dourado, voltante do Inter. Francisco Carlos do Nascimento mostrou cartão vermelho ao gremista. Pressionado pelos jogadores do time da casa, ele deu cartão amarelo para Vitinho, que foi merecido. O árbitro se deixou pressionar, não soube o que fazer e, oito minutos depois, escolheu alguém para expulsar do inter: justamente Rodrigo Dourado.
O árbitro quis reiniciar o jogo e não conseguiu, porque os jogadores gremistas o pressionaram. Ele, incompetente, escolheu Dourado para expulsar e ainda : relatou que a expulsão do jogador colorado foi porque ele foi agredido por Edílson e “revidou com outro soco na altura do rosto de imediato”. Inacreditável. É um caso para afastamento do árbitro no mínimo até o final deste campeonato. No mínimo.
Impedimento de manual não marcado
No jogo entre Flamengo e Corinthians, o assistente Rafael da Silva Alves cometeu um erro absurdo: validou o gol de Guerrero em um impedimento claro. No lançamento para a área, três jogadores rubro-negros estavam em impedimento. O assistente não marcou nada. Segue o jogo.
O lance é daqueles que poderiam ser usados para explicar a alguém o que é impedimento, tal o grau de clareza. Pouca gente que vê o lance pode achar que não havia impedimento. É verdade que às vezes a impressão inicial é desmentida pelo replay, mas não foi o caso: o impedimento parecia claro e era claro mesmo. Erro grave.
É impossível saber por que o assistente errou um lance tão fácil, mas é difícil não associar com as sistemáticas reclamações de dirigentes. O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, tem sido taxativo em dizer que o Flamengo é muito prejudicado neste Campeonato Brasileiro. Depois do erro no gol impedido de Guerrero, disse que este é o primeiro erro de arbitragem a favor do Flamengo no Brasileirão. Bom, nem é preciso dizer que evidentemente que não é, certo?
O objetivo de declarações como a do dirigente do Flamengo é justamente pressionar a arbitragem, além de dar uma satisfação para os seus torcedores, que ganham uma narrativa para defender. O que acontece, depois de cenas patéticas como a protagonizada por Bandeira de Mello mostrando o celular com os erros a favor do Palmeiras na rodada anterior, contra o Figueirense, é que os árbitros entram na rodada seguinte com medo de errarem contra o time que reclamou – no caso, o Flamengo. E olha que nem se tratava do jogo do rubro-negro.
Não que a pressão justifique os erros, claro. Nem pode. O assistente jamais poderia errar um lance como aquele. O problema é que basta um segundo de hesitação para que um impedimento claro como o de Guerrero se transforme em um lance legal. E, neste caso, ainda em gol.
Pênalti claro não marcado para o Sport
Se Bandeira de Mello se transformou em uma figura que gosta de reclamar de arbitragem neste campeonato, Paulo Nobre não fica atrás. Chegou a chamar uma coletiva para manifestar a insatisfação com a interferência externa (que, aliás, aconteceu, embora seja impossível de provar) no jogo entre Flamengo e Fluminense.
O espetáculo protagonizado por Nobre pagou dividendos: na rodada seguinte, o árbitro Igor Junio Benevenuto acabou marcando um pênalti bastante questionável sobre Gabriel Jesus – o tipo de lance que, marcando ou não marcando, ele seria criticado. Escolheu marcar.
Não que o árbitro (e o trio de arbitragem, como um todo) fosse competente para fazer uma boa arbitragem. O lance com Dudu, que ele marcou falta do atacante palmeirense, embora pareça ter sofrido a infração, só mostra isso. A bola ter pingado fora no lance do segundo gol alviverde nem pode cair na conta do árbitro, mas principalmente do assistente, Guilherme Dias Camilo, e do quarto árbitro, Fabio Filipus – os que tinham condições de ver o lance – e não viram.
No domingo, no Allianz Parque, o que se viu foi um pênalti claro não marcado em favor do Sport quando o jogo estava 0 a 0. Ricardo Marques Ribeiro estava bem posicionado para ver quando a bola bateu na mão de Mina. O zagueiro do Palmeiras estava com os braços no alto, abertos. Foi imprudente e a orientação dada à arbitragem é que este lance é falta e, portanto, pênalti. Um erro de interpretação, o que é diferente de um erro de impedimento, mas é um erro bastante claro. O Sport reclamou muito da arbitragem – e neste lance, tinha razão para isso.
Árbitro expulsa Kléber por falar palavrão
Inacreditável é a palavra que podemos usar para falar sobre a expulsão de Kléber, atacante do Coritiba, no jogo contra o Fluminense, na noite de domingo. Assistindo ao jogo, ficou difícil entender a expulsão do jogador, aos 42 minutos do primeiro tempo. Raphael Claus, árbitro do jogo, mostrou cartão vermelho ao jogador depois de uma falta cometida por ele. Mas o cartão vermelho direto não foi pela falta.
Assistindo ao vídeo do jogo, fica claro que Kléber faz a falta sobre o lateral Wellington Silva, do Fluminense. O árbitro marca a infração, o que desperta reação do atacante do Coritiba, que diz, pelo que dá para ver na imagem: “Vai tomar no cu”.
O atacante em seguida dá a mão ao lateral adversário para levantá-lo, quando é surpreendido por Claus mostrando o cartão vermelho. Foi tão inacreditável que até o lateral do Fluminense ficou olhando para o cartão, tentando ver se era o vermelho mesmo. E era.
Segundo Claus, ele expulsou Kléber porque o jogador falou um palavrão para o árbitro. Nas palavras colocadas na súmula:
Expulso por, após ter cometido uma falta sancionada por mim virou-se em minha direção e dirigiu-se as seguintes palavras:
– vai tomar no seu cú
após a expulsão o mesmo permaneceu em campo por 4 minutos contestando minha decisão, sendo contido por seus companheiros
Defendo que alguns tipos de xingamento deixem de ser falados e a punição da Fifa por homofobia em alguns casos é justamente para tentar mudar esse panorama de estádios que se tornaram territórios livres para exercer racismo, homofobia e xenofobia. Isso é uma coisa; outra coisa é o árbitro expulsar um jogador que tenha reagido dizendo as palavras descritas pelo próprio árbitro. Isso é excesso de autoritarismo e um critério que o árbitro jamais consegue sustentar, nem neste jogo, nem nos próximos.
Se ainda fosse um caso de racismo, como o árbitro ser negro e ser xingado por isso, ou algo do tipo, seria compreensível. Há casos que as ofensas que os jogadores fazem aos árbitros, ou ao trio de arbitragem, são mesmo passíveis de expulsão. Não era o caso de Kléber. Uma expulsão que, além de injusta, ainda prejudicou o time que ficou com um a menos por um tempo inteiro. Tem muito mais cara que Claus levou em conta o histórico do atacante do que efetivamente o que ele fez.
O maior problema: a Comissão de Arbitragem
O grande problema de tudo isso que vemos na arbitragem vem justamente de quem a comanda. Falta transparência para a Comissão de Arbitragem, que sempre, invariavelmente, defende os árbitros e suas decisões – mesmo que, de portas fechadas, punam estes mesmos árbitros os afastando, como deve ser o caso de Sandro Meira Ricci pela confusão que ele causou no Fla-Flu.
Para começar do começo, é preciso primeiro orientar os árbitros em relação ao que deve ser feito em campo. Há uma diferença enorme de critérios entre os árbitros que é prejudicial ao campeonato. Além disso, há erros que precisam ser corrigidos. É o caso de todos estes casos que citamos aqui nesta rodada, mas poderíamos ter feito em tantas e tantas outras.
Não significa dizer que a Comissão de Arbitragem tenha que vir a público detonar seus árbitros a cada rodada. Mas é preciso orientar os árbitros que impedimentos como este do gol de Guerrero não podem passar batidos; que lances como a mão de Mina devem ser marcados; que a expulsão de Rodrigo Dourado e a mentira colocada na súmula não pode ser aceita; que a expulsão de Kléber é absurda e desproporcional. É preciso mostrar aos árbitros o que deveria ter sido feito em cada um desses lances, após a rodada.
Isso não só não acontece como nem os árbitros parecem saber bem o que fazer. Sofrem a pressão dos dirigentes, interessados apenas nos seus próprios umbigos e não em resolver a questão, e se veem sem uma orientação de verdade da CBF para isso. Claro que passa pela profissionalização, para que, por exemplo, os árbitros sejam chamados à sede da CBF após cada rodada para reuniões deste tipo. Para que os árbitros também possa dizer o que sentiram dificuldades, para falar sobre o comportamento de técnicos, jogadores e comissão técnica, enfim, terem voz.
Isso para não falar no sorteio. A própria existência do sorteio, é bom dizer, é fruto de uma lei após o caso Ivens Mendes em 1996. É obrigatório por lei usar sorteio, mas a lei, além de mau feita, é pouco descritiva. Sergio Correa, o ex-comandante da Comissão de Arbitragem, coloca dois ou três árbitros no sorteio de cada jogo, já, assim, selecionando os árbitros que eram considerados adequados para aquela partida. Ainda era sorteio, mas era um sorteio dirigido, por assim dizer.
Com Marcos Marinho, o sorteio coloca todos os árbitros no meio balaio, no mesmo nível de experiência e de técnica, e vira uma roleta russa. Um árbitro inexperiente pode cair em um jogo dificílimo. Um árbitro experiente pode ser colocado em um jogo absolutamente fácil, que não seria necessário.
E por que a Comissão de Arbitragem faz isso? Para lavar as próprias mãos. Ao dizer que é sorteio, não há culpa dela, Comissão de Arbitragem, na escalação de cada árbitro. Só que o problema é que há sim. O sorteio é nocivo ao futebol brasileiro e deveria ser extinto. É lei, então que seja feita outra lei. A CBF tem a bancada da bola, mas ela só serve para travar investigações sobre a entidade e tudo isso. Para coisas úteis, como este caso, ela é completamente inútil.
Arbitragem tem que ser discutida a sério, mas não de forma clubista como vemos os dirigentes fazendo, rodada após rodada, só para tentar se beneficiar. Enquanto os clubes não se unirem para isso, nada vai mudar. E eles não farão isso. Você consegue imaginar os clubes se unindo? Eu não. O que vemos entre os dirigentes é o famoso ditado: farinha pouca, meu pirão primeiro. E, no fim, parece que o pensamento dos dirigentes é: erro contra mim é absurdo; erro a meu favor, foda-se. Os dirigentes não dizem isso, mas as atitudes são assim.



