Brasil

Elis Regina, uma vida e três amores futebolísticos

Uma das maiores cantoras brasileiras da história esteve ligada a três clubes ao longo da vida e contamos sua relação com Grêmio, Fluminense e Corinthians

Na música brasileira, poucas pessoas mereceram tanto o adjetivo de “singular” quanto Elis Regina Carvalho Costa. Adorada ou odiada, em razão do comportamento imprevisível e competitivo – o apelido de “Pimentinha” não era à toa. Seu cantar era considerado emotivo demais (no começo da carreira) ou técnico demais (no meio dela). Entretanto, ao aliar as duas qualidades no decorrer dos cerca de 20 anos de trajetória, a cantora superou as polêmicas e se consagrou como um dos grandes talentos da canção brasileira, em todos os tempos. Em que pesasse a visão controversa da opinião pública, quando o assunto era sua qualidade, Elis já era “entronizada em vida” antes mesmo de seu falecimento surpreendente e precoce, aos 36 anos, em 19 de janeiro de 1982.

Mas um 17 de março, como esta quinta-feira, foi o dia do nascimento de Elis, há 77 anos. E ao longo da vida, embora a aproximação tenha se alternado em momentos mais ou menos intensos, no palco ou mesmo fora dele, a cantora apresentou proximidade com o futebol. Proximidade simbolizada, até, por três amores dentro das quatro linhas, ao longo da vida: o Grêmio, o Fluminense e o Corinthians.

Grêmio: o primeiro amor

Gaúcha nascida em Porto Alegre – mais precisamente, no bairro dos Navegantes –, Elis não se vinculou de princípio a nenhum dos dois clubes mais conhecidos do estado. Reza a lenda que começou a conhecer o futebol ao colecionar figurinhas, mais precisamente as de Gilmar dos Santos Neves, na época goleiro do… Corinthians, que voltará a esta história daqui a pouco. De quebra, em casa, Elis tinha alguém com o sonho de ser jogador: seu irmão, Rogério Costa (também já falecido), que acabou se tornando um colega de trabalho – como técnico de som, Rogério participou da maioria dos espetáculos da carreira da irmã.

Mas logo Elis escolheu o seu lado no futebol gaúcho. Quando adolescente, tornou-se uma torcedora do Grêmio. Colaborou para isso a excelente fase vivida pelo Tricolor: eram os tempos do primeiro pentacampeonato gaúcho, entre 1956 e 1960. E um dos grandes símbolos dessa sequência vitoriosa colaborou bastante para isso: o meio-campista Gessy era o jogador favorito de Elis.

A aproximação foi tanta que, em 1962, ainda morando em Porto Alegre, Elis se tornou sócia do Grêmio: carteirinha 688, dentro do quadro feminino de sócios do clube da Azenha. Apenas seis anos depois, já um nome nacional, Elis voltou a Porto Alegre, e foi homenageada pelo primeiro “amor”: o presidente Hermínio Bittencourt presenteou a “sócia da carteirinha 688” com um cartão de prata.

A lembrança dos primeiros tempos seguiu até o fim da vida. De volta a Porto Alegre, em 1981, para a única apresentação de “Trem Azul”, o espetáculo derradeiro da carreira (e da vida), no Gigantinho, Elis foi entrevistada no quadro de variedades do “Jornal do Almoço”, da então TV Gaúcha que hoje é a RBS. Quase no final de uma polêmica entrevista, mencionou-se uma pergunta não feita, entre as tantas que os telespectadores haviam enviado via telefone, já com a resposta: sim, Elis era – ou fora – gremista. 

A própria reconheceu o afastamento, mas deixando claro que não era de todo desinformada, ao citar o titular inicial do primeiro título brasileiro do clube, ganho naquele mesmo 1981: “Lamento informar que não tenho mais a menor intimidade com o time. Só sei que o chato do Leão está no gol”. Entre o estupor dos entrevistadores, Elis justificou citando outro craque do futebol brasileiro daqueles tempos com quem conversara aqui e ali: “Foi o Reinaldo quem me disse que ele era chato…”.

Fluminense: o segundo amor

A adolescente que torcera pelo Grêmio viu a vida virar do avesso ao chegar ao Rio de Janeiro. Vinda para a cidade em 1964, Elis rapidamente virou a sensação da música na cidade – mais precisamente, no Beco das Garrafas, uma travessa sem saída na rua Duvivier, onde algumas boates revelavam nomes que seriam conhecidos na música brasileira em pouquíssimo tempo.

Mais um ano, e em 1965, Elis virava nome nacional, vencendo o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, com a canção “Arrastão”. Alguns meses passados, Elis fazia o show “Dois na Bossa” com Jair Rodrigues no Teatro Paramount, em São Paulo; passava a apresentar o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record; e em 1967, já era um dos nomes mais conhecidos do Brasil.

Foi nesse ano que Elis se casou com o compositor e jornalista Ronaldo Bôscoli (1928-1994). A partir disso, pode-se dizer que foi nesse ano que Elis começou a fase de maior aproximação com o futebol em sua vida. Até porque Ronaldo era um dos mais célebres torcedores do Fluminense que o meio artístico carioca possuía.

A convivência com o marido da época fez com que Elis ganhasse intimidade com o futebol. A começar no próprio repertório. Em “Bom tempo”, canção gravada no disco “Elis Especial” (1968), Elis citava a alegria com o tricolor carioca ostentada por outro compositor/torcedor famoso do Fluminense — mais até do que Ronaldo Bôscoli: Chico Buarque. Não deixava de ser uma “segunda declaração de amor” futebolística que Elis cantasse “Jovem Flu satisfeito/A alegria batendo no peito/O radinho contando direito/A vitória do meu Tricolor”.

Na época, Elis se tornara até presença frequente nos jogos do Fluminense no Maracanã. Ao lado de Ronaldo Bôscoli, tornou-se até integrante de um grupo de gente do meio artístico que torcia pelo clube – além de ambos, Chico Buarque, o jornalista/compositor Nelson Motta, o ator Hugo Carvana (1937-2014), o cantor Silvio Caldas (1908-1998), o cantor/compositor/arranjador Dori Caymmi, e Armando Pittigliani, então diretor da Philips/Polygram, gravadora na qual Elis estava na época.

Tal grupo era o supracitado “Jovem Flu” de “Bom Tempo”. E a confraria tinha até pedidos de mudança na presidência do clube: mais precisamente, queriam Francisco Leitão Laport no cargo. Até mesmo uma carta aberta do Jovem Flu teve Elis como signatária, trazendo: “O princípio básico do Jovem Flu é que o Fluminense Football Club forme e mantenha um grande time, justificando o seu nome. Para isso, o Jovem Flu exige uma revolução”. Teve certo êxito: em 1969, Francisco Leitão Laport assumia a presidência do clube das Laranjeiras.

Não bastasse a proximidade com o Fluminense, a relação com Ronaldo Bôscoli levou Elis mais perto da Seleção Brasileira. Basta citar uma parceria musical já conhecida: também em 1969, Elis gravou duas músicas de Pelé, “Vexamão” e “Perdão, não tem”, com a participação do próprio.

Em matéria publicada em janeiro deste ano, no UOL, à guisa de lembrança dos 40 anos da morte de Elis, foi descrita toda a logística que fez Pelé deixar o histórico Brasil 1 a 0 Paraguai das eliminatórias da Copa de 1970 — a maior lotação, em números oficiais, da história do Maracanã. Em 31 de agosto de 1969, o Rei partiu direto para os estúdios que a Polygram mantinha, onde Elis o esperava para a gravação do compacto simples, lançado em LP com o título “Tabelinha Elis & Pelé”.

Até mesmo o nascimento do primeiro filho de Elis teve lá sua relação com futebol. Na convivência com alguns jogadores da Seleção, a cantora até brincava com promessas de homenagens a eles no nome do rebento. A Pelé, ela prometia que o bebê se chamaria Edson; para Carlos Alberto Torres, a promessa era de que viria um homônimo; e por aí ia. Nada disso aconteceu.

De todo modo, Elis Regina deu à luz o hoje conhecido produtor/apresentador João Marcello Bôscoli num dia histórico para o futebol brasileiro: 17 de junho de 1970, data do Brasil x Uruguai da semifinal da Copa do Mundo. Nem mesmo ver o filho nascer, aliás, dissuadiu Ronaldo Bôscoli do prazer do futebol: parto ocorrido pela manhã, o marido de Elis pediu autorização — concedida — para deixar o hospital e assistir ao 3 a 1 em Guadalajara, que levou a Seleção à final no México.

Corinthians: o terceiro amor

Tempos depois, em 1972, Elis se separou de Ronaldo Bôscoli. Quase simultaneamente, deixou o Rio de Janeiro, rumando para a São Paulo em que viveria até morrer. O futebol também parou de ocupar tanto espaço na carreira e na vida. Mas pelo menos nisso, o afastamento não era definitivo. Em 1973, Elis gravou “Meio de Campo”, canção de Gilberto Gil que partia de uma saudação a Afonsinho — o meio-campista que iniciara a pioneira discussão pelo passe livre, nos anos 1970 — para usar metáforas futebolísticas.

Em famosa participação no programa “Ensaio”, da TV Cultura, em 1973, após cantar “Meio de Campo” — que traz na letra “A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que joga na Seleção/E eu não sou Pelé nem nada/Se muito for, eu sou um Tostão” —, Elis gracejou: “Tostão deve ter ficado muito satisfeito com essa letra, né?”.

Em São Paulo, discreta e esporadicamente, Elis até ia a estádios. E neles, redescobriu a terceira e última paixão de sua vida no futebol: o Corinthians. Paixão exposta publicamente numa ocasião: em fevereiro de 1980, em reportagem da revista Placar, na qual citava os momentos tricolores (gaúcho e carioca) anteriores da vida antes de comentar o reencontro com o Corinthians – pelo qual jogava Gylmar, que estava nas figurinhas vistas por Elis quando era menina. 

A matéria de Carlos Maranhão, com fotos de Ronaldo Kotscho com esta abaixo, ainda citava que o pequeno João Marcello, que nascera no dia da semifinal da Copa de 1970, tinha simpatia pelo Palmeiras. Crescido, e já com simpatia apenas pelo futebol em si, sem se ligar a este ou àquele time, João Marcello evocou ainda uma lembrança futebolística curiosa, em entrevista a Juca Kfouri, em 2007: em meio às memórias da Copa de 1978, a primeira que vira com consciência, João dizia ter medo de Cesar Luis Menotti, técnico da Argentina que seria campeã.

Elis Regina com a camisa do Corinthians, em foto de Ronaldo Kotscho

Falando em 1978, foi nesse ano que Elis inseriu mais uma canção com clara referência ao futebol na letra. Ainda que crítica: composta em 1970 (estava na trilha sonora do documentário “Tostão, a fera de ouro”), “Aqui é o país do futebol”, de Milton Nascimento e Fernando Brant – dois compositores preferenciais na obra da cantora – se embevecia com a mobilização que o futebol causava, sem deixar de apontar que isso direcionava para uma alienação: “Noventa minutos de emoção e alegria/Esqueço a casa e o trabalho/A vida fica lá fora/O dinheiro fica lá fora”… em algumas apresentações do espetáculo “Transversal do Tempo”, Elis apresentou “Aqui é o país do futebol”.

Num arranjo diferente, a canção voltou à carga em “Trem Azul”, supracitado último espetáculo da cantora, em 1981.

Enfim, Elis Regina tinha gosto pelo futebol. Talvez bem explicado pelas suas próprias palavras, na matéria citada da revista “Placar”, em 1980: “Para mim, é como o jazz, que eu também adoro. Você dá o tema, que no caso é o gol, e o cara começa a improvisar”.

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