É preciso reconhecer os méritos da nova Seleção Brasileira de Dunga
Vencer é sempre muito bom. Todo mundo gosta de uma vitória. Se forem oito então, mais ainda. É o recorde de Dunga desde que voltou ao comando da Seleção Brasileira, em agosto. É o melhor início de um técnico na Seleção Brasileira desde 1969, com João Saldanha. Vitórias importantes se pensarmos nos adversários. As duas últimas, especialmente, foram significativas: França em Paris e Chile em Londres. Mesmo assim, há uma certa desconfiança. O futebol ainda é contestado, até pela partida ruim contra o Chile, com vitória só no final graças a um gol de Roberto Firmino. Mas será que era possível fazer mais?
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Logo depois da eliminação na Copa do Mundo com o fatídico 7 a 1 contra a Alemanha e os 3 a 0 contra a Holanda, falei aqui na Trivela que o Brasil tem uma base para 2018. São muitos bons jogadores brasileiros espalhados no Brasil e no mundo para montar uma boa seleção, competitiva, que dispute de igual para igual com as seleções mais fortes. E mesmo ainda longe de mostrar um futebol encantador, o Brasil parece estar tentando ter um time competitivo, com algumas ideias antenadas no que acontece no mundo. Não estamos descolados e a Seleção, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não carrega sozinha o peso dos atrasos do futebol brasileiro. Ela pode, inclusive, ser muito bem antenada, ser a melhor do mundo, e o futebol brasileiro continuar na lama. É preciso saber separar. Neste momento, a Seleção Brasileira tem dado bons sinais.
Dunga é um técnico pragmático. Isso ficou claro na sua primeira passagem pela Seleção Brasileira. Havia uma crítica forte contra o técnico sobre o seu modo de jogo, que parecia ter só um plano A, a velocidade e o contra-ataque, talvez um dos mais eficientes do mundo. O problema era quando o adversário se postava atrás da linha da bola, se defendendo com 10 jogadores de linha na defesa. Foi assim que o Brasil tropeçou nas eliminatórias contra times mais fracos, como foi contra a Bolívia e contra a Colômbia, ambas em casa, quando os jogos acabaram em 0 a 0. Havia críticas também quanto à teimosia do treinador em levar jogadores que não justificavam a convocação naquele momento, só porque tinham rendido bem com ele anos antes – casos de Doni, por exemplo, e Kleberson, que mal jogou e foi à Copa.
Dunga não é mais esse treinador. Passou pelo Internacional, o clube da sua vida. Foi demitido de forma contestável. Voltou à Seleção Brasileira quando ninguém esperava que isso acontecesse e talvez sem nem ter feito nada que justificasse. Mas olhando para o trabalho, ele não tem ido mal. Ao contrário, parece que tem tentado corrigir os próprios erros da primeira passagem, tenta fazer o que se faz no mundo e também mostra que viu o que foi feito antes dele.
Dois dos problemas do Brasil na Copa de 2014, sob o comando de Felipão, foram o meio-campo, facilmente ocupado pelos adversários, e o ataque, com um centroavante que ficava fora do jogo. Em nenhum dos dois casos o problema era individual, mas é fato que os jogadores também não estavam no seu melhor, tecnicamente. No caso, Paulinho perdeu a posição durante o Mundial (e deveria ter recuperado depois) e Fred deveria ter perdido.
Dunga assistiu à Copa. Sabe que o problema, mais do que os nomes, era um sistema. Ao assumir a seleção, Dunga tem tentado melhorar isso. Chega a montar duas linhas de quatro, com meias abertos pelos lados do campo, como Oscar e Willian, que sabem fazer a função. Luiz Gustavo, que muitos viam como um jogador limitado e que fez, até o jogo contra o Chile, nas oitavas de final, uma Copa do Mundo excelente, aparece no ataque. Elias também tem ido bem, ainda que mais discreto que no Corinthians. O treinador arma o time para deixar Neymar livre pelo meio para se movimentar, cair pelos lados, pelo meio, ser atacante, ser até centroavante. Ao lado de Diego Tardelli, titular nos últimos jogos antes de se transferir para a China e se lesionar, e Roberto Firmino, nos últimos jogos, o time teve muita movimentação e inteligência atuando. O futebol é mais eficiente que encantador, sem dúvida, mas não por acaso o time vencer seleções fortes, como a Argentina e a França. Isso não é pouco.
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Falta muito para o Brasil ter um futebol encantador. É uma bobagem quando as pessoas – e por vezes o próprio Dunga – colocam os resultados e o futebol bonito em polos opostos, com aquela pergunta cretina: “Você prefere vencer sem jogar bonito ou jogar bonito e não vencer?”, como se fossem opostos. Não são. Mas o que é preciso dizer é que o Brasil não joga feio. Há ideias, há tática, há observação. Roberto Firmino foi convocado para a Seleção Brasileira mesmo sem ser uma figura absolutamente reconhecida no público brasileiro. Muito falado por alguns – nós entre eles -, mas atuando em um clube pequeno da Alemanha. Há uma desconfiança natural, como havia com os jogadores do Shakhtar (que estão presentes, com Douglas Costa e Luiz Adriano entre os titulares do jogo contra o Chile, por exemplo).
É importante que o Brasil busque alternativas. Dunga usa marcação sob pressão que é muito eficiente e muito usada por times no mundo inteiro. Consegue armar um time compacto, que sofre poucos gols – dois em oito jogos é uma ótima marca – e que tem tentado encontrar um novo caminho com um ataque que se mexe mais, é mais inteligente e mais rápido do que o que se via na Copa do Mundo. Como disse Marcelo Bechler em seu blog, Dunga se espelha em técnicos que fazem trabalhos muito elogiados, como Diego Simeone, Jürgen Klopp e José Mourinho.
Dunga atendeu a pedidos que a torcida fazia na época da Copa. Sim, não encanta. Queremos sempre que o Brasil seja mais Barcelona do que Atlético de Madrid. Queremos um time que se imponha muito mais, que não tenha como principal característica a velocidade do contra-ataque. Que seja um time criativo, capaz de envolver mesmo as defesas mais fortes. Que não dependa tão somente do talento, porque já sabemos que essa é uma fórmula perdida. Mas é possível ter um time com bom futebol e, se Dunga não conseguiu fazer, em oito jogos, o Brasil ter um time envolvente e encantador, conseguiu fazer um time muito forte, que ataca e defende bem e é competitivo. É um caminho. A tendência, com mais tempo de trabalho é melhorar. No momento, é uma aposta justa a se fazer. Não quer dizer que até a Copa de 2018 o Brasil jogará um futebol brilhante. Mas quer dizer que é um caminho que tem ido bem até aqui e é preciso reconhecer isso. No que isso vai resultar na Copa América em junho, ainda é cedo para saber. Mas vale ficar de olho.



