Brasil

Dudu rompeu mandamento tácito e não tem mais como vestir a camisa do Palmeiras

O atacante traiu a confiança de colegas, diretoria e torcedores ao negociar com o Cruzeiro

Infelizmente, Dudu cruzou um ponto sem retorno no Palmeiras. Não existe relação que se sustente sem confiança. E Dudu rompeu esse vínculo ao acertar com o Cruzeiro em segredo.

Dudu comunicou o clube que queria sair, é verdade. Mas não foi com seu “empregador”, com a empresa Palmeiras, que o jogador rompeu esse vínculo. Foi com o Palmeiras em seu sentido mais amplo.

Antes mesmo de Abel Ferreira vir com o lema “Todos somos um”, tal sentimento já guiava o Palmeiras. Não foi à toa que Felipão, por exemplo, se deu tão bem no clube.

Essa noção de que o Palmeiras é um “nós”, sempre contra um “eles” difuso move o Palmeiras desde 1942, quando o clube correu o risco de perder o Parque Antárctica e teve que mudar de nome.

Dudu se colocou à margem desse “nós”, e não apenas com a torcida. Durante sua recuperação, profissionais de diversas áreas se mobilizaram para que ele tivesse o melhor tratamento. Fisioterapeutas perderam folgas. Porteiros abriram o CT aos domingos para ele trabalhar.

E os colegas? Quantos sabiam que Dudu negociava para deixá-los? Como encaram um jogador que trabalhou por suas costas para se tornar um adversário.

É tudo muito triste. Dudu caminhava para ser um ídolo eterno no clube. Um Evair, um Marcos, um Ademir. Mas, por motivos que até agora não se sabem, já que Dudu não se pronuncia, decidiu dar as costas para tudo isso.

Defesa incondicional

Por nove anos, Dudu foi defendido incondicionalmente pelo palmeirense. Mesmo quando deu chilique e agrediu um juiz em uma final de campeonato e foi expulso após perder um pênalti — Campeonato Paulista de 2015.

Mesmo quando foi acusado de agredir sua ex-esposa, como em 2020, o palmeirense ficou ao seu lado. Como Dudu nunca era convocado, muito palmeirense torceu contra todas as seleções brasileiras que o rejeitaram.

Por dez meses, o palmeirense lamentou a ausência do seu principal jogador. A recuperação de Dudu, da cirurgia à fisioterapia. Das muletas às primeiras corridas no gramado. Da liberação para trabalhar com bola aos primeiros chutes nos jogos-treino foi um Big Brother para o torcedor.

Zé Rafael e Dudu durante jogo-treino, na Academia de Futebol. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

No dia em que Dudu foi relacionado pela primeira vez, ficando no banco de reservas, contra o Vasco, na quinta-feira da semana passada (13), o Allianz Parque gritou seu nome mais alto do que o de qualquer outro jogador em campo. Mais que os dois gols da importante vitória da equipe por 2 a 0.

Na tarde daquele dia, porém, o camisa 7 já conversava havia mais de 15 dias com o Cruzeiro. Naquele mesmo dia, os dois clubes acertaram, seguindo o desejo do jogador, que Dudu iria para o Cruzeiro por US$ 4 milhões.

Sentimento à parte

Ficando apenas na parte prática, Dudu deveria ir para o Cruzeiro, antes de tudo, porque assumiu compromissos. Mas, além disso, deveria ir porque é o melhor para as partes.

Se o Cruzeiro moveu tantos recursos por sua chegada, é porque o coloca em um papel de alto protagonismo. E, visto por esse prisma, é melhor para a Raposa que ele vista sua camisa.

Mas voltando para o lado do atleta, em primeiro lugar, se pediu para sair, Dudu tem seus motivos. E ninguém deve ficar num clube contra sua vontade. Financeiramente, o contrato também é maior. Tem um ano a mais de vínculo incondicional e um valor salarial melhor que também deve incluir luvas contratuais diluídas, como é praxe.

No Palmeiras, já existiam restrições com relação ao comportamento do jogador. Dudu e Abel Ferreira nunca foram próximos, por exemplo.

E a mais recente renovação de contrato dele com o clube, no fim de 2022, gerou muitos desgastes dele com Leila Pereira e o diretor Anderson Barros. Com Barros, aliás, já havia acontecido rusgas quando de sua ida para o Al Duhail, em 2020.

Resolução de problemas

Dudu era um caso complicado no Palmeiras. Com um contrato caro e longo, o atleta poderia voltar rendendo menos que o esperado, o que traria dois problemas para a comissão técnica:

O primeiro é a pressão que a torcida faria por sua escalação, sem saber como ele vinha rendendo nos treinamentos. Dudu no banco seria certeza de pedidos em uníssono da torcida para que ele entrasse em campo.

O segundo seria gerar alguma receita quando ele deixasse o time. Em 2026, quando seu contrato com o Palmeiras se encerra, Dudu terá 35 anos, dificultando uma transferência — sem falar em uma nova renovação, que talvez fosse desinteressante para o clube em tal altura.

Sem dúvida, a saída de Dudu é uma surpresa negativa, pois o planejamento não contava com ela. Mas, ao mesmo tempo, antecipa a solução de um problema e amplia a reformulação do elenco atualmente em curso.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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