Brasil

Vítima de Robinho fala pela primeira vez sobre caso de estupro na Itália

Documentário de quarto episódios revela os bastidores do julgamento que condenou Robinho a 9 anos de prisão; Vitima fala pela primeira vez

Um documentário produzido pela Globoplay trouxe pela primeira vez a entrevista da mulher que acusa Robinho, ex-atacante do Santos, e outros seis homens, de estupro. O crime ocorreu durante a festa de aniversário de um dos envolvidos, em uma boate, em Milão, na Itália, em 2013, quando brasileiro ainda defendia o Milan.

“O Caso Robinho” reconta em ordem cronológica como aconteceu o processo que acabou sentenciando nas três instâncias na Justiça Italiana o ex-jogador a nove anos de prisão.

A vítima, de origem albanesa que se mudou com a família para Milão, e tinha 23 anos no dia crime, não teve a identidade revelada, foi apresentada com o homônimo de “Mercedes”. Vinda de uma família de classe média, a jovem estudava direito e sonhava em ser promotora.

Se eu tivesse que me descrever diria que me sinto como uma música brasileira: cheia de ritmo, felicidade, luz. Sempre digo que costumava ser cheia de cores, mas que foram se desbotando durante muitos anos, até que eu me recuperei. Não é como antes, mas… Eles, obviamente, roubaram uma parte de mim — disse Mercedes.

O documentário, lançado na manhã desta quarta-feira (30), entrevistou os jornalistas Adriano Wilkson e Janaina Cesar, da UOL, responsáveis pelo podcast jornalístico “Os Grampos de Robinho”. A dupla obteve com exclusividade as mais de 10h horas dos áudios que foram anexados no processo que condenou Robinho por estupro.

Além dos jornalistas, o advogado da vítima, Jacopo Gnocchi, o procurador da Justiça Italiana, Cuno Tarfusser; e o também jornalista Lucas Ferraz foram entrevistados, e conta a relação do jogador com cada um dos seis acusados pelo crime e como aconteceu o processo.

Advogados de Robinho tentaram descredibilizar a vítima

No documentário, os jornalistas explicam a estratégia usada pela defesa do ex-jogador condenado pelo crime de estupro. A base da defesa tentava descredibilizar as palavras da vítima usando contra ela argumentos de que ela estaria bêbada no momento do crime.

O próprio jogador, em conversa com um dos amigos obtida pela justiça italiana, e divulgada pelo podcast do UOL, afirmava não estar tão preocupado já que a vítima “estava extremamente embriagada”

— Por isso que eu tô rindo, não tô nem aí. A mina estava extremamente embriagada e não sabe nem que eu sou –, disse Robinho, em áudio.

Segundo o documentário, os advogados de defesa do ex-jogador usaram como estratégia uma das brechas jurídicas mais conhecidas a Justiça Italiana: o sexismo. A condenação, porém, acabou acontecendo e foi considerada “fora da curva” no judiciário italiano.

A defesa de Robinho ficou cerca de 25 minutos apresentando sua tese, mas a maior parte do tempo foi usada para tentar descredibilizar Mercedes.

Pegaram fotos minhas em que havia um copo em cima da mesa ou alguma coisa e me descreveram como ‘uma mulher fácil’. Ridículo. Eles precisavam fazer o jogo deles, mas foi um jogo sujo, uma atitude muito baixa. Nunca é fácil ir a esses lugares. Acho que outra pessoa, sem minha personalidade, teria desistido — disse.

A estratégia foi usada justamente porque havia muitos casos de decisões judiciais na Itália baseadas no sexismo. Em 2017, inclusive, a Sorte de Estrasburgo (Corte de Diretos Humanos da União Europeia) chegou a condenar o Estado Italiano por sexismo em decisões judiciais, como revela o jornalista Lucas Ferraz.

“O fato da defesa de Robinho ter apresentado isso ao tribunal italiano tem um motivo”, disse o jornalista Lucas Ferraz.

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Tradução dos áudios foi a cartada final da defesa de Robinho

A publicação do primeiro dos oito episódios do podcast “Os Grampos de Robinho” aconteceu no dia 14 de junho de 2023, um ano e meio depois que a Justiça Italiana condenou em última instância o jogador pelo crime de estupro. Nesta época, o judiciário italiano já havia entrado com um pedido junto ao Governo Brasileiro para que a pena de nove anos de jogador fosse cumprida aqui no país.

O processo, que estava sendo analisado pelo Superior Tribunal de Justiça, estava parado há dois meses. A publicação da produção jornalistica, porém, obrigou o STJ retomar o processo, que terminou com a prisão do jogador.

Vale lembrar que a Justiça Brasileira não tinha a pretensão de julgar a inocência ou não do jogador, isto já havia acontecido em três instâncias na justiça italiana. No Brasil, o STJ julgou o pedido do governo do país europeu para que Robinho cumprisse a pena no Brasil, o que acabou acontecendo em março deste ano.

Robinho, ex-Milan. Foto: Imago
Crime do qual Robinho foi condenado aconteceu em 2013, quando ele ainda defendia o Milan. Foto: Imago

Sem sucesso na estratégia a descredibilização da vítima, os advogados do jogador partiram para outro argumento: a tradução dos áudios.

O jornalista Adriano Wilkson revela que as traduções usadas pela justiça para acusar e comendar Robinho passaram por duas fases: do português (áudio original das conversas) para o italiano; depois, da tradução italiana novamente para o português. Esse processo, porém, poderia gerar inconsistências na tradução.

— O argumento da defesa do Robinho que as conversas tinham sido tiradas de contexto e tinham sido mal traduzidas só poderiam ser rebatidas a partir dos áudios originais. As falas foram feitas em português por Robinho e os amigos, os investigadores traduziram em italiano para que a justiça pudesse entender o que estava sendo dito, depois essa conversa foi retraduzida para o português, e tivemos acesso à retradução. A gente percebia que existia alguma inconsistência de tradução. E pensando nessa inconsistência, a defesa do Robinho resolveu defender essa tese do problema de tradução — disse o jornalista.

Os áudios originais, porém, revelaram o verdadeiro teor macabro das conversas, sem a justificativa de contexto alterado.

— A justiça tinha sido feita, mas… [choro] eu não conseguia superar o que tinha acontecido. Acho que não é possível superar. Quando eu soube que ele foi preso no Brasil, nunca é uma vitória. É uma derrota para todo mundo. Principalmente para a família e para os filhos dele. Eu tenho pena. Muitas vezes pensei em perdoá-los, mas ainda não amadureci essa ideia.

Robinho e um dos seis amigos acusados cumprem pena de 9 anos de prisão em Tremembé, cidade a cerca de 150km de distância da capital Paulista, no presídio de Tremembé II. Outros quatro amigos também acusados nunca chegaram a ser julgados nem pela justiça brasileira e nem pela italiana.

Os homens, porém, também foram denunciados, mas aguardam o julgamento da justiça italiana. Cleyton, um dos acusados, porém, garantiu que todas as relações que houveram na noite do crime foram consensuais.

— Espero que meu testemunho seja útil. Não para que eles sejam condenados de novo pela imprensa ou para humilhar alguém, mas que possa servir de aprendizado, porque no final das contas é muito fácil chegar à sentença, chegar à condenação. O certo seria que parecem antes, que essas coisas não aconteçam. É preciso trabalhar isso, com os jovens na escola. Educá-los com as famílias. Cada um de nós é responsável — finalizou “Mercedes”.

Foto de Márcio Júnior

Márcio JúniorRedator de esportes

Baiano formado pela Faculdade Regional da Bahia. Cobriu de carnaval a Copa do Mundo na TVE Bahia, onde venceu o prêmio de reportagem do mês. Passou pela ALBA, Rádio Educadora, Superesportes e Quinto Quarto antes de se tornar repórter na Trivela.

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