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Do rompimento nasceu o Brasileirão: como o Robertão pode servir de exemplo à Primeira Liga

Déficit para os clubes, falta de interesse do público, potencial comercial pouco explorado. O discurso contra os estaduais pode parecer atual, mas se repete há décadas. Pelo menos, desde os anos 1960. Na época, o Brasil não contava com uma competição nacional que preenchesse o calendário dos clubes e as principais equipes além do Rio de Janeiro e de São Paulo brigavam por uma integração maior. Assim, nasceu a Taça Roberto Gomes Pedrosa em 1967, que pouco tempo depois deu origem ao Brasileirão.

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Volte para 2016. As críticas persistem, e os clubes de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais, com a adesão da dupla Fla-Flu, resolvem formar o seu próprio campeonato alternativo ao cenário. A Primeira Liga, a princípio, não surge para competir com o Campeonato Brasileiro, mas sim para fortalecer a geração de recursos dos clubes no primeiro semestre. Entretanto, o rompimento em relação à CBF e às federações não deixa de ser um contraponto. Assim como a Copa do Nordeste, uma liga de apelo e organização própria, que promete bons jogos e rentabilidade maior que os estaduais.

A Primeira Liga terá apenas cinco datas no calendário em 2015, e é difícil de prever qual será o seu impacto. No entanto, é possível traçar paralelos com o que está acontecendo e com o que aconteceu há quatro décadas, durante a criação do Robertão. Com a união de equipes e das federações paulista e carioca, o antigo torneio se organizou sem o auxílio da CBD. E se desenvolveu em algo maior, ainda que a confederação tenha tomado as rédeas logo. Um passado que serve de exemplo, caso a pretensão dos clubes e das ligas resolva romper com a situação atual, longe de agradar a todos.

A criação do Robertão

palmeiras

Como tantas vezes já aconteceu no futebol brasileiro, o desempenho da Seleção em uma Copa do Mundo acabou sendo determinante para a reavaliação da estrutura interna do esporte. E o fracasso no Mundial de 1966 ficou marcado pelos problemas na desorganização, em um momento no qual estava claro que a qualidade do futebol nacional ia muito além do eixo Rio-São Paulo. A preparação conturbada do time de Vicente Feola contou com 44 jogadores pré-convocados, em uma falta de concentração vista como chave para a eliminação na primeira fase. Contudo, aquela Copa foi apenas a primeira em que jogadores além de clubes paulistas e cariocas entraram em campo em um Mundial. Tostão e Alcindo foram os pioneiros.

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Neste contexto, urgia a necessidade de uma nacionalização crescente do futebol brasileiro. Já havia estrutura suficiente para fazer os torneios irem além dos eixos regionais. A Taça Brasil, embora importante para determinar os classificados à Libertadores, era um torneio irrisório para preencher o calendário e atender os interesses. Boa parte dos clubes além do Rio de Janeiro e de São Paulo se queixavam da falta de projeção a que estavam limitados. Nacionalizar as competições não era apenas a oportunidade de provar a força para o resto do país, como também de aumentar o potencial de lucros e a qualidade dos elencos.

Assim, o embrião da nova competição nacional seria o Torneio Rio-São Paulo. O certame tinha sido criado em 1933, sendo peça fundamental no início do profissionalismo no país. Porém, só a partir da década de 1950 que começou a ser disputado regularmente, reunindo os principais clubes dos dois estados. Já era um torneio estabelecido e de grande aceitação popular. Que acabaria também se beneficiando ao abraçar clubes significativos de outros estados, indo além da rivalidade entre cariocas e paulistas.

Assim, o Rio-SP adotou o seu nome oficial e virou Robertão em 1967. A partir de então, começou a abarcar clubes de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio, Internacional e o Ferroviário de Curitiba foram os escolhidos para disputar a primeira edição. E o torneio passou a ser colocado como solução para o profissionalismo ainda irrisório no Brasil, muito por conta da estrutura limitada aos estaduais. Como tratava a edição da Folha de S. Paulo de 4 de março de 1967: “A ampliação do número de concorrentes deu um colorido diferente ao certame, e há muita expectativa em torno de sua realização. Trata-se de um torneio realmente empolgante e dos mais difíceis, que proporcionará ao torcedor clássicos locais e duelos interestaduais entre as maiores forças do futebol brasileiro”.

A edição inicial do Robertão foi organizada pelas federações carioca e paulista, durando de março a junho. Entretanto, em um momento de centralização do futebol brasileiro dentro do contexto político do regime militar, logo a CBD tomaria a frente do torneio. Em 1968, pela última vez, o futebol brasileiro contou com a Taça Brasil concomitantemente. A partir de então, o Robertão passou a ser visto como verdadeira disputa nacional, preenchendo os últimos três meses do calendário nacional. E englobou mais estados. Bahia e Pernambuco foram absorvidos em 1968, mantendo o número de federações em sete.

O contexto político por trás da disputa

Rio de Janeiro (RJ) 30/08/1970 - Emílio Garrastazu Médici (Presidente) - O Presidente Médici assiste entre João Batista Figueiredo e o Chefe da Casa Civíl, Prof. Leitão de Abreu, a partida entre Vasco da Gama 1 X 0 Flamengo pelo Campeonato Carioca de 1970 no Maracanã - Foto de Arquivo / Agência O Globo - Negativo: 61449

Dentro do panorama geral, o governo ainda se aproveitou do Robertão para lançar a loteria esportiva em 1969. A iniciativa se casava não apenas com a proposta de aumentar a repercussão nacional dos clubes, mas também com a impressão de Milagre Econômico que o regime militar queria promover. A chance de enriquecimento com a loteria ajudava a promover o ideal de prosperidade econômica. Mesmo quem não estava ligado no futebol queria ganhar seu dinheiro. E os meios de comunicação embarcaram na iniciativa, até mesmo para aumentar suas vendas. Enquanto a recém-criada Placar acompanhava a todos os jogos da loteca e ajudava nos palpites, o Fantástico, em um momento no qual as famílias começavam a ter um acesso maior aos televisores, criou o famoso quadro da ‘zebrinha’.

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Já em 1970, outra reviravolta dentro do futebol brasileiro aconteceu com o tricampeonato mundial da Seleção. Desde 1966, a equipe nacional viveu uma crescente militarização, não só em sua gestão, mas nos próprios métodos de trabalho e treinamento. Acabou sendo um dos pilares do time que uniu força e talento para conquistar a Jules Rimet em definitivo. E mesmo o time era um símbolo da nacionalização do futebol nacional, com três titulares de fora de Rio de Janeiro e São Paulo: Piazza, Tostão e Everaldo. O governo Médici se aproveitou bastante do título para usar a Seleção como propaganda. E também embarcou na empolgação para unir o futebol ao seu plano de governo.

Em 16 de julho de 1970, menos de um mês depois da vitória sobre a Itália no Estádio Azteca, o presidente assinava o decreto-lei que dava início ao Plano de Integração Nacional, o PIN. O projeto visava criar uma unidade maior entre as diferentes regiões do Brasil e também fomentar o crescimento de áreas antes isoladas. E, assim como a aplicação de políticas desenvolvimentistas, o futebol também fez parte desse processo.

“O Médici vê no futebol a chance para mostrar na prática o seu discurso de integração. Era um período de expansão da fronteira agrícola, de construção da rodovia Transamazônica. E o Campeonato Brasileiro servia para corroborar esse processo. O governo viabilizou o torneio através do Ministério da Cultura, com ajuda financeira. Na época, as maiores questões eram quanto aos custos das grandes viagens. E o poder público passou a custear esses traslados e as estadias. Antes disso, sem a intervenção do governo, esse diálogo que era próprio da CBD não existia”, analisou Daniel de Araújo dos Santos, historiador especializado em futebol e política, em entrevista concedida à Trivela em 2014.

Por mais que o Robertão fosse uma competição interregional, a abrangência ainda era pequena dentro da realidade do futebol brasileiro e da proposta de integração que vigorava no governo. Assim, o próprio Ministério da Educação e da Cultura, que cuidava da pasta esportiva na época, interveio na questão. O ministro Jarbas Passarinho formulou uma proposta de reforma esportiva, enquanto o apoio financeiro federal, proporcionado pela loteria esportiva, ajudou a bancar viagens em um tempo no qual a logística era bem mais complicada.

O embrião do Brasileirão

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Desta maneira, o Robertão acabaria substituído pela ideia de um Campeonato Brasileiro, realmente abrangendo todos os estados. Em 1970, o Fluminense foi o último a se sagrar campeão no torneio, depois de dois títulos do Palmeiras e um do Santos. A revista Placar foi um dos pivôs em prol da mudança. A publicação pregava não apenas a redução dos estaduais, chamados de “suicidas e deficitários” já na época, mas também da CBD. A intenção era a criação de uma entidade que cuidasse exclusivamente do futebol, e não do desporto em geral. Que pudesse organizar melhor os clubes e os seus interesses. Além disso, João Havelange se aproveitou do cenário para fortalecer seus laços com as federações, às vésperas de se candidatar à Fifa.

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Apesar das reclamações sobre a arbitrariedade na escolha dos clubes para o Robertão, no entanto, a primeira edição do Brasileirão pareceu muito mais com o velho torneio do que com uma competição que realmente integrasse o país. Três clubes foram acrescentados, 20 no total, e o Ceará era o único estado diferente representado. Diante disso, alguns clubes resolveram tornam pública a sua insatisfação com o privilégio que a CBD deu a determinados estados. Também em 1971, o presidente do Goiás, com o apoio do governador, teve a ideia de criar o Torneio de Integração Nacional – um nome com clara referência aos planos de Médici. Seis clubes goianos entraram no certame, acompanhados por representantes de outros dez estados, incluindo quatro que não estavam no Brasileirão.

A exposição causada pelo torneio de protesto, no fim das contas, influenciou um pouco a mudança gradativa que aconteceu no Brasileirão durante as temporadas seguintes. Em 1972, o torneio abraçou mais cinco estados, incluindo os primeiros representantes do Norte – Alagoas, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e Sergipe. Já em 1973, mais sete unidades federativas. E quase todos os estados estavam representados já em 1975, com a exceção do Acre, que ainda não havia aderido ao profissionalismo. Contudo, mais do que uma estratégia de integração nacional, o aumento do Brasileiro se transformou em inchaço. CBD e governo passaram a aplicar a política de “onde a Arena vai mal, mais um time no nacional”, diante da derrota para o MDB nas eleições parlamentares de 1974. Um caminho sem volta.

Os planos de nacionalização se concretizaram com o Brasileirão. Mas os resultados ficaram muito aquém do desejado pelos clubes. A desorganização pesou contra e acabou carregada como custosa herança até hoje. Enquanto isso, os estaduais não deixaram de ser um entrave no calendário, sem agradar ninguém além dos dirigentes de federação. Se os times pequenos temiam a extinção com a criação do nacional, este sentimento ainda não mudou mais de quatro décadas depois, com os estaduais deficitários. E as tentativas de reinventar a estrutura do futebol no país não foram além – como se repetiu em 1980, 1987 ou 2003.

Agora, a Primeira Liga surge como mais um plano modernizador. Embora o histórico do Robertão aponte para um caminho de expansão, a imobilidade política do futebol brasileiro quase sempre é um entrave. Afinal, muitos dos questionamentos de 1970 ainda hoje persistem.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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