Brasil

Paulo Junior: Primeira viagem de Diniz esbarra em jogo técnico decepcionante da seleção

No segundo jogo sob o comando de Fernando Diniz, seleção brasileira não sofreu, mas fez jogo bem pouco inspirado no Peru

A seleção brasileira não sofreu contra o Peru, que praticamente não chegou ao gol de Ederson, e fez um gol só no finalzinho, numa batida de escanteio, mas o que mais chamou a atenção na vitória apertada em Lima, 1 a 0 no toque de cabeça de Marquinhos, foi a jornada tão pouco inspirada tecnicamente, com os jogadores tendo muita dificuldade de avançar em lances simples, posses de bola triviais.

A saída não funcionou. Os laterais Danilo e Lodi não deram criatividade nem dinâmica, entregando um jogo extremamente discreto para um nível de dificuldade acima da estreia, claro, mas bem distante das principais seleções do mundo. Os zagueiros não acharam passes mais interessantes, e Casemiro não conseguiu dar o ritmo e a cadência tipicamente vistos nesse lugar do campo nos times de Diniz ­– faltou ver André, que não saiu do banco, testado por ali.

Bruno Guimarães até poderia amenizar essa dureza vista na primeira bola, e depois do intervalo até voltou para construir mais, mas também se mostra muitas vezes precipitado em acelerar demais o jogo. É verdade que numa dessas bolas ele encontrou a cabeça de Richarlison para o gol levemente impedido, mas tantas outras tentativas não funcionaram. Talvez haja essa diferença entre a verticalidade que ele se ajeitou na Europa com a posse mais curta, de jogadores agrupados, que pretende o técnico da seleção. Foram alguns lances que o Brasil se juntou, procurou a tabela, mas logo esticou uma tentativa de penúltimo passe.

Neymar errou demais, numa noite até surpreendente pelo baixo nível técnico da referência da seleção. Se fisicamente o jogo exigiu um degrau acima, diante de um Peru mais forte no combate e de um ambiente menos favorável que em Belém, com a bola no pé ele foi desperdiçando passes simples e se precipitando em praticamente todas as combinações que tentou. Não teve a mobilidade de ir buscar a posse lá na primeira linha e pode ter sentido o ritmo de dois jogos em sequência após tanto tempo, mas uma partida minimamente razoável no entorno da área poderia dar conta de um melhor volume ofensivo do Brasil. Percebeu o dia ruim e chutou a grama ao sair de bola e tudo.

Rodrygo é quem sai com o melhor saldo dessa dupla de jogos, mostrando que não só tem o refino técnico da elite do futebol como se adapta muito facilmente a qualquer contexto. Entende a hora de abrir na ponta e a variação com cruzar para dentro, se encontra fácil com os colegas e tem a leveza para passar no um contra um. Onde ele toque, sai coisa boa. Deu belo passe para Neymar quando vieram tocar curto do lado direito. Está jogando muito e que bom que, tardiamente, pode virar protagonista desse time ao lado de Vinicius, com quem poderia já ter tido mais tempo de campo no Catar ao invés de substituí-lo no momento decisivo, como Tite optou diante da Croácia.

Raphinha é menos inventivo e fazedor de jogadas que Rodrygo, mas foi dele a única finalização decente no segundo tempo, um chute de fora com a força de sempre na perna esquerda. E Richarlison não vive bom momento, com o mesmo admitindo que vai procurar ajuda psicológica e que os últimos meses foram conturbados fora do campo. A dúvida é se Diniz preserva o camisa 9 para as partidas de outubro ou se o mantém como (mais um) voto de confiança pelos gols que marcou em algum momento com a camisa amarela. A sensação é de vaga claramente em disputa.

Diniz demorou a mexer e, além do já citado André, entramos na madrugada com a sensação de que Martinelli poderia ter aparecido antes. Em jogo de inspiração técnica tão abaixo da média, o talentoso garoto do Arsenal foi a campo só aos 40 do segundo tempo. Impressionante a facilidade com que dá o tapa na frente e resolve bem os lances. Correu e ganhou o escanteio do gol.

Não acho que a dificuldade contra o Peru tenha sido necessariamente um choque de realidade sobre o modelo de jogo do novo treinador, mas sim sobre algumas individualidades e o que elas podem entregar num time que projeta uma saída de pé em pé, atraindo e cuidando bem da posse, se juntando em pequenos passes e com mais atitude sem movimentar para receber o toque. Casemiro nunca foi esse cinco de dar o ritmo no Real Madrid de Modric e Kross; Danilo, mais zagueiro na Juventus, não parece ter a pretensão de ser uma alternativa para valer com a bola ali pela direita; Lodi não conseguiu progredir ao ataque. Peça por peça, um jogo muito pobre.

O Brasil enfrenta a Venezuela em menos de um mês, cinco dias antes de visitar o Uruguai. É uma dobradinha parecida, uma possível festa em Cuiabá contra um adversário acessível seguida de um jogo de maior exigência técnica para superar um rival mais forte fora de casa. Até lá, Fernando Diniz já estará eliminado ou na final da Copa Libertadores, e a Copa do Brasil terá celebrado seu campeão. A ver se o treinador segue numa manutenção dessa base ou se chacoalha um pouco o time no segundo encontro com essa turma, que, de forma geral, respondeu de forma um tanto decepcionante no jogo em Lima.

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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