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De anjo, de placa: há 50 anos, Fio marcava o gol que o transformou em Maravilha

Um dos personagens mais folclóricos da história do Flamengo ganhou um capítulo que se eternizou em jogo contra o Benfica, em 1972

Cair na boca da torcida e ter seu nome cantado, seja como aclamação ou apenas para pedir sua presença em campo, representa a realização para um jogador. Indica que, pelo menos naqueles minutos, ele conquistou o afeto da massa. Mas a homenagem em canção popular atravessa o tempo, imortaliza. Foi o que mereceu o atacante Fio ao marcar no Maracanã, em 15 de janeiro de 1972, um gol antológico que deu ao Flamengo a vitória por 1 a 0 sobre o Benfica por um torneio de pré-temporada. A canção “Fio Maravilha” rendeu a seu compositor Jorge Ben (hoje Ben Jor) um dos maiores sucessos da carreira. E ao futebol brasileiro, um dos grandes clássicos de seu cancioneiro.

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O personagem

“Imprevisível” era a palavra mais exata – e mais recorrente – para descrever o futebol de João Batista de Salles, o Fio, mineiro de Conselheiro Pena nascido em 19 de janeiro de 1945. Capaz de, num mesmo jogo, marcar um golaço ou criar de improviso uma jogada genial e no lance seguinte tropeçar na bola ou dominar de canela, era, não obstante, uma figura carismática com seu jeito simples, suas tiradas espirituosas, corpo troncudo, jeito de andar um tanto desengonçado e, sobretudo, sua pronunciada arcada dentária.

E, para quem vivenciou altos e baixos, trocas de posição e entradas e saídas da equipe nos quase oito anos entre sua estreia e sua despedida do time principal do Flamengo, Fio até que construiu números razoavelmente expressivos: foram 84 gols marcados em 294 jogos. Média próxima da de outro jogador com quem se assemelhava em muitos aspectos – inclusive, e especialmente, na relação com a torcida rubro-negra: o baiano Obina, talvez o melhor paralelo recente (ou de todos os tempos) para se entender o fenômeno Fio.

Em abril de 1973, quando o atacante deixou a Gávea para defender por empréstimo o Paysandu, Armando Nogueira dedicou-se a analisá-lo num trecho de sua coluna no Jornal do Brasil: “Fio é um exemplo impressionante de identificação popular: seu futebol não chega a ser uma maravilha. Fio é o que se pode chamar um jogador bissexto e, no entanto, ninguém no Flamengo é mais cortejado pela torcida do que ele. Donde se conclui que a condição de ídolo tem muito pouco a ver com a condição de craque”, escreveu.

E o cronista prosseguia: “Paulo Cézar (Caju, na época também atleta do Flamengo) é mil vezes mais jogador que Fio e, no entanto, a torcida não é tarada por ele. Respeita-lhe o talento, mas não lhe beija as chuteiras. A alma humana tem seus truques, sim: Didi, que foi um dos jogadores mais perfeitos do futebol mundial, jamais conseguiu ser ídolo, nem no Fluminense, nem na Seleção, nem no Botafogo. Havia uma clara distância na relação Didi-povo, embora fosse ele um artista nascido do povo mais humilde”.

Fio no centro do ataque do Flamengo de 1969

Fio era o segundo de três irmãos a atuarem pelo Flamengo, todos eles atacantes. O mais novo, o ponta-de-lança Michila, chegou a ser seu companheiro de elenco no Flamengo, mas teve carreira bem mais curta e discreta na Gávea: fez só cinco partidas oficiais pelo time principal rubro-negro entre 1970 e 1971, formando dupla de frente com Fio em três delas, antes de seguir sua trajetória passando por quase uma dezena de clubes, entre eles Paysandu, Ceará, Avaí, Uberlândia, Rio Branco-ES e Nacional-AM.

Já o irmão mais velho, Germano, havia sido um ponta reconhecidamente talentoso, surgido na base rubro-negra no fim da década de 1950, na mesma safra que revelou os craques Carlinhos “Violino” e Gerson “Canhotinha”. De rápida ascensão, sagrou-se campeão do Torneio Octogonal de Verão e do Rio-São Paulo em 1961 pelos rubro-negros e figurou entre os pré-convocado pela seleção brasileira para a Copa de 1962, tendo vestido a camisa canarinho em alguns amistosos da fase de preparação do escrete.

Vendido pelo Flamengo ao Milan por soma recorde logo após completar 20 anos de idade (e, de quebra, tornando-se ainda o primeiro jogador negro a defender os rossoneri), Germano colocou a carreira em segundo plano ao viver um turbulento e proibido romance com a jovem condessa italiana Giovanna Agusta, de família riquíssima, ganhando capas das revistas na Itália, no resto da Europa e no Brasil. Após passar também por Genoa, Palmeiras e Standard Liège, ele encerraria a carreira um tanto desiludido em 1970.

Fio, que viveria justamente em 1970 seu melhor ano na Gávea, havia estreado no time de cima do Flamengo em 1965, fazendo seu primeiro jogo como titular na vitória por 2 a 1 diante do Palmeiras no Pacaembu pelo Torneio Rio-São Paulo, em 25 de abril. Mas aquela temporada seria cumprida quase inteiramente na categoria de aspirantes, sem chegar a atuar uma vez sequer pelos profissionais na campanha que conduziria a equipe rubro-negra dirigida pelo argentino Armando Renganeschi ao título carioca.

Em 1966 e 1967, Fio passou a atuar com mais frequência, mas longe de poder ser considerado peça fundamental do elenco, embora marcasse um ou outro gol significativo, como o da vitória de 1 a 0 sobre o Barcelona num torneio em Badajoz, na Espanha. Mas a partir de 1968, ano em que foi treinado pelo baiano Válter Miraglia, ex-jogador do clube e seu conhecido como treinador da base rubro-negra, o atacante ganharia cada vez mais espaço. No ano seguinte, sob o comando do experiente Tim, Fio se tornaria titular.

Fixado na ponta-de-lança depois de ter passado grande parte da carreira até ali na ponta direita, Fio formou naquele Flamengo um bom ataque com o recém-chegado Doval e os também pratas-da-casa Dionísio e Arílson. O time arrancou na metade do Carioca de 1969, mas, justamente por ter engrenado tarde, acabou sem o título. No fim de setembro, porém, com a contratação de Nei Oliveira, ex-Corinthians e Vasco, Fio retornou à reserva, permanecendo nessa condição e jogando poucas vezes até o fim da temporada.

Com a chegada do técnico Yustrich , no início de 1970, Fio iniciaria sua melhor fase no clube. No Torneio Internacional de Verão que abriu a temporada, ele fez o primeiro na goleada de 6 a 1 do Fla sobre o Independiente. Na Taça Guanabara (então um certame à parte do Carioca e que naquele ano se estendeu por todo o período pré-Copa do Mundo), ele foi decisivo na reta final, marcando duas vezes contra o Vasco, uma contra o Bangu e, na última rodada, o gol no Fla-Flu (1 a 1) que valeu o título aos rubro-negros.

No segundo semestre, o Fla experimentou um declínio durante o Carioca, mas se recuperou no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, fazendo campanha muito boa e tendo em Fio seu artilheiro. Já na estreia – 2 a 0 sobre o São Paulo no Morumbi – Fio fez a assistência para o gol de Nei Oliveira e guardou o seu. E voltou a marcar nos 3 a 1 sobre o Vasco na rodada seguinte. Contra o America, fez o do empate, iniciando a vitória de virada por 2 a 1. E mais adiante, anotou os dois na vitória de 2 a 0 sobre o Santos com Pelé no Maracanã.

Na reta final, Fio decidiria ainda dois confrontos diretos na briga por uma vaga no quadrangular final: no Maracanã, marcou de falta na vitória de 1 a 0 sobre o Internacional e, quatro dias depois, balançou as redes aos 35 minutos do segundo tempo em outro 1 a 0 dramático diante do Atlético Mineiro. Mesmo assim, o Flamengo ficaria fora da etapa decisiva pelos critérios de desempate, numa disputa muito acirrada em seu grupo. Fio, por sua vez, foi o terceiro entre os pontas-de-lança na Bola de Prata da revista Placar.

A intransigência de Yustrich, que se indispôs com vários atletas (inclusive alguns de seus antigos protegidos), fez com que o desempenho geral do time desabasse em 1971. O técnico deu lugar ao já veterano Fleitas Solich no meio do ano, mas Fio também voltou a entrar e sair do time, ainda que marcasse alguns gols simbólicos, como o da vitória por 2 a 1 sobre o Vasco, no último minuto, na tarde de estreia do garoto Zico, pela Taça Guanabara. Era seu sexto em seis jogos contra o rival entre maio de 1970 e julho de 1971.

O time

Titular em apenas quatro jogos do Brasileirão de 1971, Fio iniciou a temporada seguinte com um pé fora do Flamengo. Os rubro-negros costuravam com o Grêmio uma troca pelo centroavante Alcindo, com o aval do técnico tricolor Oto Glória. Zagallo, o novo treinador do Fla, também não contava com o atacante, incluído em uma lista de dispensas. O Velho Lobo, que retornava à Gávea a qual deixara ainda como jogador logo depois de disputar a Copa do Mundo em 1958, via no elenco muitas outras boas opções.

Para tentar apagar as lembranças da temporada medíocre de 1971 e sobretudo reconquistar o título carioca o qual não levantava desde 1965, o Fla abriu os cofres. Já no fim do ano anterior, desembolsara o valor recorde de transferências nacionais – cerca de 2 milhões de cruzeiros – para tirar do Botafogo Paulo Cézar Caju, que já havia defendido o rubro-negro na base. Também naquele fim de ano, trouxe o dinâmico volante Zé Mário, revelação do Bonsucesso. Havia ainda nomes importantes que voltavam de empréstimos.

O principal deles era o atacante argentino Doval, que brigara com Yustrich no começo de 1971 e retornara a seu país emprestado ao Huracán. Outro que voltava era o veterano lateral-esquerdo Paulo Henrique, que passara o ano anterior cedido ao rival Botafogo. O atacante Caio, que havia disputado o Brasileirão pelo America, também retornava. E havia ainda a expectativa pela volta do talentoso meia-armador Zanata, que fraturara a perna num choque com Tostão num amistoso entre as seleções carioca e mineira em junho.

O ciclo de contratações ainda se estenderia até abril, quando chegaria enfim o goleiro Renato, campeão brasileiro com o Atlético Mineiro no ano anterior e que também retornava ao clube o qual defendera na base. Além dele, mais dois jogadores vindos do Botafogo aportaram na Gávea: o lateral-direito Moreira e o zagueiro Chiquinho. Eram novas e boas opções acrescidas ao elenco dirigido por Zagallo, que desde a sua estreia no comando de um time profissional, em 1967, vinha levantando títulos todos os anos.

Com a faixa de campeão carioca de 1972, Fio é o penúltimo no chão, ao lado de Zico

Promovido a treinador do time principal do Botafogo naquele ano, Zagallo teve início de carreira fulminante. Conquistou o bi da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca em 1967 e 1968. Em outubro de 1969, venceu a protelada decisão da Taça Brasil de 1968. No ano seguinte, ao chegar de última hora ao comando da seleção brasileira, levantou a Copa do Mundo no México. E em 1971, após trocar General Severiano por Laranjeiras, levou outro Carioca, agora pelo Fluminense, além da Copa Roca com o Brasil.

Em 3 de janeiro de 1972, Zagallo assinava com o Flamengo tendo no horizonte mais próximo as disputas do Torneio Internacional de Verão, do Torneio do Povo (que reunia os clubes de maior torcida dos cinco principais estados do país) e da Taça Guanabara – naquele ano, pela primeira vez, valendo pelo primeiro turno do Campeonato Carioca. Todos no primeiro semestre, antes de o treinador novamente se juntar à Seleção para disputa da Taça Independência, ou Minicopa, no meio daquela temporada.

E além dos nomes que chegavam ou voltavam, o técnico teria à disposição um punhado de nomes de bom nível que já integravam o elenco: caso do goleiro Ubirajara Alcântara (famoso pelo gol que marcou chutando da própria área contra o Madureira em 1970); do incansável volante Liminha; do valente e versátil Rodrigues Neto, capaz de atuar em diversas posições; do experiente ponta-direita Rogério, ex-Botafogo, do centroavante Dionísio, exímio cabeceador; e do habilidoso e inteligente ponta-esquerda Arílson.

Outro jogador que despontara no time de cima no segundo semestre da temporada anterior sob o comando de Fleitas Solich era o garoto Zico – o qual Zagallo, no entanto, preferiu devolver aos juvenis para que completasse seu desenvolvimento: “Zico é novo e tem muito futuro pela frente. Ele precisa ganhar mais experiência, mais tarimba. Vamos esperar mais um pouco”, afirmava o treinador ao Jornal dos Sports. A forte concorrência no centro do setor ofensivo também era o que tirava espaço do quase dispensado Fio.

Mas como Doval ainda precisava recuperar a forma física, o atacante mineiro acabou relacionado para os primeiros amistosos do ano. Entrou no lugar de Arílson (passando Paulo Cézar da ponta-de-lança para a ponta-esquerda) no empate em 1 a 1 com o Botafogo no dia 8. E ficou no banco o tempo todo na vitória de 1 a 0 sobre o Santos, no dia 11. Contra o Benfica, na noite de sábado, 15 de janeiro, mais uma vez começaria o jogo na reserva, com Rogério, Caio, Paulo Cézar e Arílson formando a escalação inicial do ataque.

Nos demais setores, os titulares também seriam os mesmos dos dois jogos anteriores. Ubirajara Alcântara se mantinha no gol. O jovem Aloísio, revelação de 1971, era o lateral-direito. No centro da defesa jogaria a dupla formada por Fred (zagueiro técnico, irmão de criação de Paulo Cézar) e o paraguaio Reyes. E Paulo Henrique seguia na esquerda. No meio-campo, Liminha e Rodrigues Neto formavam uma dupla de muita raça e disposição, com o primeiro mais plantado à frente da zaga e o segundo liberado para o apoio.

O adversário

Treinado pelo inglês Jimmy Hagan, o Benfica pretendia voltar a ser potência no futebol europeu após o ocaso de sua grande geração que alcançara cinco finais da Copa dos Campeões entre 1961 e 1968 levantando dois títulos. No começo da temporada 1971/72, o novo esquadrão das Águias vencera o Troféu Ramón de Carranza superando Atlético de Madrid e Peñarol. Nas duas primeiras fases da Copa dos Campeões, eliminara Wacker Innsbruck e CSKA Sofia. E às vésperas de cruzar o Atlântico, liderava a liga lusa com folga.

O elenco ainda incluía alguns remanescentes da última grande campanha continental, quando o clube decidiu a Copa dos Campeões em Wembley contra o Manchester United, perdendo só na prorrogação: o goleiro José Henrique, o lateral Adolfo, o meia Jaime Graça e os atacantes Eusébio e António Simões. Mas já via despontar a nova safra, com os jovens pratas-da-casa como Nenê, Jordão e Diamantino aliados a nomes como Vitor Baptista, Artur Correia e Artur Jorge, pescados em outros clubes portugueses.

O Benfica que enfrentou o Flamengo no Maracanã

O Benfica desembarcou em São Paulo, sua primeira parada no Brasil, no dia 7. Chegava com a credencial de líder do Campeonato Português somando 13 vitórias e dois empates nas 15 partidas disputadas até ali, tendo anotado 45 gols e sofrido apenas oito. No dia 2, havia derrotado de maneira categórica o rival Sporting por 3 a 0 dentro do estádio José Alvalade. Sua temporada brasileira de quatro jogos começaria no domingo seguinte, dia 9, diante da Portuguesa na inauguração do novo estádio do Canindé.

Mesmo sem Eusébio, lesionado, e com a partida interrompida a 15 minutos do fim em virtude de um temporal, o Benfica não teve dificuldade para vencer a Lusa do técnico Rubens Minelli por 3 a 1. Vitor Baptista e Jordão marcaram no primeiro tempo. O zagueiro Marinho Peres, de pênalti, descontou no começo da etapa final. Mas Simões, em outra penalidade, deu números finais ao jogo. A próxima parada da excursão seria a capital paranaense, onde os Águias enfrentariam o Coritiba na quinta-feira, dia 13.

Poupando vários de seus titulares para a partida contra o Flamengo – que no sábado seguinte abriria o Torneio Internacional de Verão do Rio de Janeiro – o Benfica sofreu sua primeira derrota da excursão no estádio Belfort Duarte (atual Couto Pereira). O Coritiba, que estreava o técnico Aymoré Moreira, venceu por 2 a 0 com gols de Paquito e Cláudio, um em cada tempo. Mas ainda assim os encarnados haviam mostrado um bom jogo, ótimo preparo físico, além de acertarem a trave em um chute de Diamantino.

Eusébio chegou a ter escalação anunciada para o jogo contra o Flamengo, mas acabou vetado de última hora em razão do persistente estiramento na virilha direita. Outro desfalque era o atacante Vitor Baptista, que retornou a Portugal com um corte no pé após pisar nos cacos de uma garrafa quebrada. Por outro lado, o time voltaria a contar com o goleiro José Henrique e o ofensivo lateral Artur Correia, além de ter a experiência do capitão Simões e a impetuosidade do atacante Jordão, 19 anos, tido como sucessor de Eusébio.

Dessa forma, a equipe titular que adentraria o gramado do Maracanã teria José Henrique no gol, o veterano Malta da Silva e Artur Correia nas laterais, Rui Rodrigues e Messias formando a dupla de zaga, os dinâmicos Toni e Vitor Martins no meio-campo contando ainda com a companhia de Simões recuando da ponta-esquerda, e um jovem e rápido trio de frente formado por Nenê pela direita, Jordão pelo centro e Diamantino pela esquerda. Mesmo sem seu maior astro, os Águias reuniam uma equipe de respeito.

O compositor

Um dos 44.340 pagantes que assistiam ao jogo naquele sábado à noite era um ex-jogador do time infanto-juvenil do Flamengo que deixara a carreira de boleiro para se dedicar a outra paixão, a música: um certo Jorge Duílio Lima Menezes, então conhecido como Jorge Ben. Carioca nascido em Madureira e criado no Rio Comprido, frequentador assíduo do estádio, Ben (nome artístico adaptado do sobrenome da mãe, de origem etíope) despontara na cena musical em 1963, com seu disco de estreia, Samba Esquema Novo.

Sua relação com o futebol, no entanto, só começou a ficar mais explícita para o público em seu álbum homônimo de 1969, que incluía o sucesso avassalador “País Tropical”, no qual Ben citava seu time de coração. Para não deixar dúvidas, o escudo do Flamengo aparecia em destaque na arte da capa, desenhado no corpo do violão, enquanto mais ao fundo também aparecia uma bandeira rubro-negra com a inscrição “CRF” – dez anos depois, o distintivo voltou a figurar, agora no encarte do LP Salve Simpatia.

Capa do disco de 1969 de Jorge Ben

Daí em diante, o futebol seria tema recorrente em sua discografia: além das autoexplicativas “Zagueiro” (de 1975) e “Goleiro” (de 1993), várias outras histórias de bola e de boleiros foram contadas em canções de Jorge Ben. África Brasil, seu álbum de 1976, abria com “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, que se tornaria uma de seus maiores sucessos internacionalmente, e mais adiante trazia ainda outro clássico, “Camisa 10 da Gávea”, sobre Zico, aos 23 anos um talento em plena ascensão no Flamengo.

Em seu disco seguinte, A Banda do Zé Pretinho (1978), ele cantava as trocas de jogadores entre os grandes clubes do Rio promovidas pelo presidente do Fluminense, Francisco Horta, em “Troca Troca”; lamentava a penalidade (do zagueiro Geraldo no ponteiro Osni) não marcada a favor do Flamengo no jogo que deu o título carioca do ano anterior ao Vasco em “Cadê O Penalty”; e, de quebra, ainda circundava o tema ao contar a história de três amigos que apostavam na Loteria Esportiva em “Era Uma Vez 13 Pontos”.

E houve ainda espaço para uma crônica afiada da derrota da seleção brasileira de Telê Santana para a Itália na Copa do Mundo de 1982 em “A Loba Comeu o Canário”, incluída no disco Dádiva (1983). E mais recentemente, em 2004, para uma ode a Pelé em “O Nome do Rei é Pelé”, lançada em seu último álbum de estúdio, Reactivus Amor Est. E, evidentemente, também houve aquele grande sucesso surgido de um estalo após uma jogada “celestial” assistida por Jorge das cadeiras do Maracanã naquele Flamengo x Benfica.

O jogo

Logo ao apito inicial de Aírton Vieira de Moraes, o Sansão, o Benfica mostrou que pretendia se impor, demonstrando maior preparo físico e entrosamento – o que não chegava a ser surpresa, já que vinha de uma temporada em pleno andamento na Europa. Os desfalques fizeram Jimmy Hagan apostar em um forte bloqueio no meio-campo e em contra-ataques rápidos pelas pontas, especialmente pelo lado de Paulo Henrique, já sem a velocidade de outros tempos. Numa etapa inicial truncada, os encarnados foram melhores.

O Flamengo, por sua vez, não conseguia dar sequência à maioria de suas ações ofensivas, exceto nas tentativas de Rogério pela ponta. Sem conseguir se desbaratar do jogo truncado proposto pelos lusos, os rubro-negros ainda viram o adversário chegar muito perto de abrir o placar aos 21 minutos, numa finalização de Jordão na pequena área, à queima-roupa, na qual Ubirajara fez grande defesa. Do outro lado, Arílson sentia dores no joelho direito após um choque com Malta da Silva e não voltaria para o segundo tempo.

Naquele momento a torcida pressentia que, num jogo tão amarrado, faltava o imprevisível para que o Fla despertasse de seu primeiro tempo um tanto letárgico. Em outras palavras: faltava Fio. De tanto gritar o nome do jogador, o público foi capaz de persuadir Zagallo – que estava longe de ser fã de seu futebol – a repetir a troca feita contra o Botafogo, fazendo entrar o ponta-de-lança no lugar do lesionado Arílson, com Paulo Cézar de novo sendo deslocado para o lado esquerdo do ataque. E o time voltou melhor.

Matéria do jogo do Jornal dos Sports

Quem ainda destoava, porém, era Caio. O irmão mais novo do palmeirense César (e mais velho do futuro ídolo do America, Luisinho) viveria mais adiante na temporada seu momento definitivo da carreira ao marcar três gols no Fluminense na decisão da Taça Guanabara e comemorar com acrobacias que lhe valeriam o apelido “Cambalhota”. Mas ali, naquele sábado à noite, ele parecia fora de sintonia, inoperante, embolando pelo meio do setor. Até ser substituído por Samarone, com Fio passando a jogar mais adiantado.

Aí, com o Flamengo em nova formação e o Benfica já sentindo o cansaço de seu jogo de pressão e se limitando a arriscar chutes de longa distância (com Ubirajara pegando tudo), veio o momento em que Fio, como relata a letra, “chegou com inspiração, com muito amor, com emoção, com explosão em gol, sacudindo a torcida aos 33 minutos do segundo tempo”. A jogada nasceu de um contra-ataque: Reyes desarmou Jordão na entrada da área, passou a Samarone, que entregou a Rogério na ponta. E este passou a Fio.

O atacante que viera do banco então “tabelou, driblou dois zagueiros”, primeiro trocando passes com Rogério e depois arrancando pela intermediária do Benfica, que tinha naquele momento a defesa exposta. Assim, na corrida, Fio superou Artur Correia e se livrou de Rui Rodrigues, já no interior da área, ficando então apenas com José Henrique pela frente. Foi quando “deu um toque, driblou o goleiro” com uma meia-lua, jogando a bola de um lado e apanhando pelo outro, antes de tocar para as redes. Um golaço.

“Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol”, completava a estrofe de Jorge Ben. A justificativa de Fio até que seguia essa linha: na crônica do jogo em sua coluna no Jornal dos Sports, o jornalista Fernando Horácio (um dos mais populares do futebol carioca da época) trazia a resposta do atacante: “A bola sozinha entra mais fácil”, alegou Fio. “O que faz valer o gol é a bola dentro da rede, não eu”, arrematou com seu jeito simples e espirituoso, que dele fizera um ídolo da geral e da arquibancada.

Na mesma coluna, Fernando Horácio opinava sobre a situação do atacante dentro do elenco: “(Fio) muitas vezes decide o jogo, como fez ontem. O Flamengo, no momento em que pensa em reforços, engana-se ao cogitar a saída de Fio. Muita gente acredita e afirma que ‘Fio só pode mesmo jogar no Flamengo’. Mas não seria exagero dizer que o Flamengo também precisa muito de Fio. A torcida que o diga: quando as coisas apertam, apela em coro” pela entrada do atacante, “que não a tem deixado em falta”.

Fio dribla José Henrique para marcar o gol do jogo

Na saída de campo, enquanto o goleiro José Henrique lamentava (“Ainda tentei fazer pênalti, mas não sei como [Fio] passou por mim. Provou no drible que é mais esperto que eu”), o autor do gol era todo alívio: “A gente precisa ter cuca para aguentar a força da torcida do Mengão. Quase chorei depois de marcar o gol, porque estava precisando muito dele”. E, de jogador negociável, ele agora já falava em renovação de contrato, a ser conversada com o vice-presidente de futebol Hélio Maurício no dia seguinte.

O desfecho do torneio foi favorável aos rubro-negros. Com Eusébio, o Benfica bateu o Vasco no segundo jogo do triangular por 2 a 0. Mas o Fla levaria a taça ao derrotar os rivais cruzmaltinos por 1 a 0, gol de Paulo Cézar Caju. Na sequência, o time ainda conquistaria o Torneio do Povo em fevereiro e a Taça Guanabara em abril, antes da pausa para a realização da Taça Independência. Na volta, em setembro, viria enfim a conquista do Carioca diante do Fluminense, encerrando o jejum de sete anos sem o caneco.

O golaço histórico, porém, não garantiu a titularidade imediata a Fio, que começou no banco a partida contra o Vasco e entrou no intervalo. E apesar de jogar de saída e marcar no empate em 2 a 2 com a seleção da Hungria ainda naquele mês de janeiro em amistoso no Maracanã, ele nem chegaria a atuar na campanha do Torneio do Povo e participaria de apenas cinco dos 27 jogos da caminhada até o título carioca. Só no Brasileiro, quando a maratona de jogos esfacelou o elenco, ele voltou a ser mais utilizado.

Mesmo assim, quase deixou o clube antes do início daquela competição, mas seu empréstimo ao Avaí – então treinado pelo mesmo Válter Miraglia que comandara Fio na base e no time de cima do Fla – foi vetado por Zagallo. Na Gávea, o atacante ganhou nova chance do meio para o fim do torneio, balançando as redes de Portuguesa, Sergipe (dois gols), Cruzeiro, Náutico e CRB, contra quem marcou, na goleada de 5 a 2 em Maceió, aquele que viria a ser seu último tento vestindo a camisa rubro-negra.

A canção

Foram meses rascunhando a letra, compondo a melodia, achando a melhor forma de encaixar a descrição do lance em canção. Até que, em 11 de agosto de 1972, na coluna de Zózimo Barroso do Amaral no Jornal do Brasil, viesse o sinal de fumaça: a nova canção de Jorge Ben, denominada “Fio Maravilha”, seria apresentada no próximo Festival Internacional da Canção, interpretada por Maria Alcina, cantora da boate Number One, de Ipanema, que faria sua estreia num evento desse porte. O palco? O Maracanãzinho.

Acabou que a cantora de voz grave, jeito irreverente e visual inusitado – além de mineira como Fio (nascida em Cataguazes) – sacudiu o ginásio tanto na fase de classificação do festival quanto nas duas interpretações da finalíssima, em 30 de setembro e 1º de outubro de 1972, levando o público nas arquibancadas a entoar o refrão como se estivesse numa partida de futebol. A canção venceu a fase nacional do festival e levou ainda, ao fim do concurso, o prêmio de menção honrosa do júri internacional.

A gravação do autor foi lançada ainda antes do fim daquele ano (quando Fio vivia seu último – e curto – momento como titular), primeiro em compacto simples e logo depois incluída em seu álbum Ben, também de 1972. Ao longo de sua carreira, Jorge Ben – que alteraria o sobrenome artístico para Benjor e posteriormente Ben Jor a partir do fim da década de 1980 – também a regravaria várias vezes, tanto em estúdio quanto ao vivo. Mas um imprevisto desentendimento ainda viria a marcar a história da canção.

A discórdia

A música fez sucesso tanto com Maria Alcina quanto com Jorge Ben no Brasil e até no exterior. Em abril de 1973, uma nota na coluna “Informe JB”, do Jornal do Brasil, colocava “Fio Maravilha” entre as mais tocadas nas discotecas de Paris. Mas em agosto surgiu a notícia de que o advogado de Fio entrara com processo em nome do atacante (que então se preparava para defender a Desportiva no Campeonato Brasileiro) requisitando ao compositor uma parte da arrecadação com os direitos autorais da música.

A informação era surpreendente, já que Fio sempre fora considerado uma pessoa até ingênua, sem malícia. O compositor ganhou a ação e, magoado, decidiu mudar a letra e o nome da canção, retirando a homenagem. Por décadas, passou a cantar (e grafar) “Filho Maravilha”. Na época, Fio chegou a ficar malvisto, tido como ingrato. O ex-atacante conta que chegou a entreouvir duas mulheres cochicharem sobre ele: “Esse aí é aquele mau caráter que processou o Jorge Ben”. Só recentemente as partes se reconciliaram, ainda que até o momento o aguardado reencontro não tenha acontecido.

Em depoimento de 2009 ao jornalista Roger Garcia para o livro “Grandes Jogos do Flamengo”, Fio relembrou como o caso transcorreu: “O problema com o Jorge Ben Jor é que houve um desencontro de informações. Havia um amigo, já falecido, o Joaquim Reis, que era advogado de alguns jogadores, como o Jairzinho, o Rodrigues Neto e meu também. Um dia me perguntou: ‘O autor da música te botou como parceiro? Posso entrar em contato com ele para você ganhar alguma coisa?’. Disse que podia”, prosseguiu.

“Pouco depois, fui jogar em Vitória. Quando cheguei ao Rio já estava um burburinho tremendo. Não tinha a intenção de processar. Mas não culpo o advogado. Se alguém cometeu um engano, fui eu, não ele, que era uma pessoa maravilhosa. Não tiro também a razão do Ben Jor. Seria um prazer um dia reencontrá-lo”, comenta Fio. Além de passar por Paysandu e Desportiva, o atacante defendeu o São Cristóvão e o CEUB, de Brasília, antes de embarcar para os Estados Unidos no fim da década, tentando a sorte no futebol local.

O recomeço

Fio atuou pelo New York Eagles, clube da American Soccer League, por quatro meses. Em seguida, cruzou o país de uma costa a outra para jogar na Califórnia, primeiro pelo semiprofissional Monte Belo Panthers, de Los Angeles, e mais tarde pelo San Francisco Mercury. Nesta cidade pendurou as chuteiras e, após treinar equipes de base, passou a ganhar a vida trabalhando como entregador de pizzas e motorista particular em casa de família, até se aposentar em 2013, aos 68 anos de idade – mais de 35 deles residindo no país.

O vínculo com o Brasil, no entanto, ainda permanece nas lembranças dos tempos de ídolo do povo rubro-negro, como afirmou na mesma entrevista de 2009: “Mesmo morando nos Estados Unidos, acompanho os jogos do Flamengo, que defendi com muito carinho. Contra o Benfica foi especial, porque disseram que o Fio fez gol de Pelé. Adorei, porque eu era comparado com um monte de perna-de-pau. Depois do meu pai, Pelé foi o meu maior ídolo”.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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