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Dadá Maravilha, 70 anos: Gols, folclore e uma história de vida transformada pelo futebol

Ele podia não ser um primor com a bola nos pés. Mas, se alguém vinha com a problemática, Dario logo apresentava a sua solucionática: “Não existe gol feio, feio é não fazer gol”. E como sabia fazer gols. Pelas próprias contas, o centroavante passou dos 900 gols na carreira. Camisa 9 talhado na força e na raça. O Peito de Aço que não temia encarar zagueiro botinudo. O homem que, tal qual beija-flor e helicóptero, pairava no ar para ser um cabeceador impiedoso. Assim, Dadá Maravilha se consagrou como um dos maiores artilheiros da história do futebol brasileiro. Ídolo inconteste do Atlético Mineiro e tricampeão do mundo com a Seleção. Goleador por onde rodou – do Paysandu ao Internacional, do Sport ao Goiás. Folclore vivo. E ser humano incrível, que completa 70 anos nesta sexta-feira.

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As histórias de Dario dentro de campo são eternas. Facilmente lembradas, mesmo por quem não viu o centroavante jogar. Em 1969, pelo Atlético Mineiro (vestido de seleção mineira), fez o gol que derrotou o Brasil de João Saldanha e valeu os pedidos do presidente Médici, em entrevista, para que fosse convocado. Foi para o tri no México, mas não pelo general, e sim pelo ótimo momento que vivia. Tanto que, em 1971, deu o Brasileirão ao Galo com gol decisivo na final contra o Botafogo. Empilhou taças nas Minas Gerais, assim como as conquistou no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Pernambuco, em Goiás e no Amazonas – incluindo um novo Brasileiro, com o Inter, em 1976. Chegou a fazer 10 gols no mesmo jogo. Deu motivos para ser adorado em cada um dos quase 20 clubes que defendeu.

Afinal, se não metia gol, Dadá ao menos fazia graça. Um contador de histórias nato, com entrevistas impagáveis e dezenas de frases de efeito. Várias delas, inclusive, se consagraram entre os ditados populares da bola. O falastrão sempre contava vantagem de seus feitos em campo, na mais pura brincadeira: “Com Dadá em campo, não tem placar em branco”. Mas também sabia zoar as próprias limitações: “Chuto tão mal que, no dia em que eu fizer um gol de fora da área, o goleiro tem que ser eliminado do futebol”. Irreverência pura, de quem decidiu ser ‘poeta’ para ganhar mais destaque além dos gols. Depois, ainda começou a inventar coreografias na comemoração de seus tentos.

A alegria inerente de Dario, no entanto, contrasta com sua história de vida antes do futebol. Talvez a maneira que ele encontrou para deixar suas dificuldades para trás e agradecer o carinho de quem o ajudou a chegar tão longe. Nascido em Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, o atacante vinha de uma família humilde, filho de um operário com uma doméstica. Morava também com outros dois irmãos, em um casebre de um cômodo, no qual ainda dividiam espaço com ratos e baratas. O primeiro grande trauma veio aos cinco anos, quando a mãe, que tinha problemas mentais, ateou fogo no próprio corpo e se suicidou. O pai, sem condição de criar os três filhos, os levou para orfanatos diferentes – a antiga Febem, que na época atendia menores tanto carentes quanto infratores.

dadá

Dadá cresceu em Quintino, onde se divertia roubando manga no quintal dos vizinhos. “Dava minha escapulida e saía roubando manga. Um desses vizinhos tinha um cachorrão que várias vezes me perseguiu. Até hoje, quando vejo um zagueiro nos calcanhares, me lembro do cachorro de Quintino e corra ainda mais. Aí, ninguém segura Dadá, que acaba dentro do gol com bola e tudo”, brincou em edição da revista Placar, de janeiro de 1977. Só que, no reformatório, Dario convivia com outros menores sem perspectivas. Muitos deles, acabavam se tornando jovens marginais. Como o artilheiro, que chegou a realizar furtos e assaltos.

“Um dia, saí com um comparsa para roubar uma mercearia. Roubamos e saímos correndo em zigue-zague. O dono da mercearia meteu um tiro e pegou no pescoço do meu parceiro, que caiu e morreu na hora. Eu consegui fugir. Mas, daquele dia em diante, fiquei com medo de roubar. Pensei: ‘Tenho que fazer algo da minha vida’. Mas o que eu ia fazer? Não tinha nem completado a 8ª série…”, recordou, em entrevista à ESPN. “Sofri muito. Ainda hoje, me emociono quando abro um jornal e vejo que um dos meus antigos colegas praticou um assalto ou foi morto pela polícia”. Naquele momento, desistiu do crime e usou o dinheiro para comprar uma bola. Resolveu se empenhar no caminho que lhe restava, o futebol, mesmo que não fosse um primor.

Enquanto tentava ser aprovado em algum clube, serviu o exército. Depois, tentou a vida como operário da Light e funcionário da indústria de bebidas, mas não aguentou o tranco entre fincar postes no chão e carregar engradados. Foi quando insistiu ainda mais no futebol. Zagueiro destrambelhado na adolescência, quando nem ligava muito para a bola, Dario virou centroavante por acaso. “Encontrei a posição perfeita: tinha facilidade em corridas e saltos para cabeceio, até porque me especializei nas fugas espetaculares de policiais e funcionários do reformatório”, afirmou à Placar, em junho de 1999. Em seu sétimo teste no Campo Grande, acabou aprovado. “Quebrei muita pedra e hoje sou Dadá Maravilha. Mas não foi fácil. Sei que sou limitado tecnicamente. Não sei matar a bola no peito ou sequer fazer embaixadas. É por isso que tento me aprimorar cada vez mais”.

O sucesso de Dadá, a partir de então, foi meteórico. Aos 20 anos, ganhou sua primeira chance como profissional no Campo Grande. Chegou ao Atlético Mineiro aos 22 e, depois de meses no banco, estourou a ponto de disputar uma Copa do Mundo aos 24. Quando se aproximava da aposentadoria, aos 36, fez até uma série de cursos à correspondência, se precavendo caso não seguisse no futebol – e se credenciou para trabalhar como detetive particular, enfermeiro, massagista e corretor de imóveis. Nem precisou. Dadá se arriscou como técnico e escritor, mas a simpatia lhe garantiu espaço como comentarista e aprentador. E aquele jovem marginal hoje é exemplo de perseverança, de simpatia, de alegria, de humildade. E, apesar de todos os jargões, a frase de sua autoria que melhor define a própria trajetória é bem menos irreverente. Bem mais singela: “Não existe derrota para quem não se considera vencido”. Rei Dadá.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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