Brasil

O prestígio e o carisma de Dadá Maravilha a serviço da reportagem

– Amigo, mais algum jogador vai passar por aqui?

– O Ricardo Goulart está vindo. Ele quer falar com você.

– Todos querem falar com o rei Dadá.

Entre as dezenas de repórteres cobrindo a entrega do prêmio Bola de Prata, na sede dos canais ESPN, um deles se destacava pelo sorriso. Dadá Maravilha segurava o microfone da TV Alterosa, filiada do SBT em Belo Horizonte, como se fosse qualquer outro jornalista. Mas era o único capaz de marcar quase 500 gols de cabeça e arrancar risadas de qualquer interlocutor com o seu arsenal de frases folclóricas, na linha que separa a arrogância do bom humor, sem nunca ultrapassá-la.

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A espera de mais de duas horas pelos premiados foi amanciada pelo carisma de Dadá Maravilha. “Apenas helicóptero, beija-flor e Dadá flutuam no ar”, é uma das pérolas mais famosas, mas não fica muito distante de “Para cada problemática, eu tenho a solucionática” e “Tem duas coisas que Dadá não sabe fazer: jogar futebol e perder gols”. Quando as câmeras são ligadas, e a missão não é mais fazer rir, nem colocar a bola na rede, mas arrancar declarações, Dadá mantém a estratégia: sorrisos e brincadeiras.

“Quando entrei na televisão, eu me preocupei em não deixar de ser Dadá Maravilha”, afirma. E por que deveria ser diferente? A resposta do assessor à pergunta de Dadá, no diálogo que abre o texto, poderia ser apenas uma brincadeira, mas ficou mais verídica quando Ricardo Goulart, o principal nome do evento, vencedor da Bola de Ouro, dirigiu-se para aquele senhor de 68 anos com os olhos brilhantes de uma criança que acabou de ver uma fonte infinita de chocolate. “Você viu a brincadeira que eu fiz com o Ricardo Goulart. Ele estava nervoso, mas na hora que eu falei que ele humilhou Dadá, ficou à vontade, se soltou, falou que já tinha ouvido falar de Dadá”, conta.

Faz 10 anos que Dadá Maravilha abandonou a aposentadoria para trabalhar na TV Alterosa. Era convidado de um programa esportivo e ficou incomodado com o excesso de brigas. “O povo não gosta disso”, pensou. Assumiu o microfone e começou a fazer piada com todo mundo. No dia seguinte, recebeu uma ligação do produtor dizendo que ele havia “bombado”. Acabou contratado para fazer o Alterosa Esporte. “Nossa audiência é violenta. O povo ama o nosso programa porque a gente fala a língua do povo”, explica.

E não há muitos limites. Depois do Atlético Mineiro conquistar a Libertadores, ano passado, Dadá prometeu que se o clube mineiro não fosse campeão do mundo “andaria de cueca na avenida Afonso Pena”, uma das principais de Belo Horizonte. Ele chegou a pedir um habeas corpus preventivo para não ser preso por atentado ao pudor, a emissora traçou um percurso, mas a aposta ainda não foi paga. Pelo menos, não há registros na internet (e se Dadá Maravilha tirasse a roupa no meio da rua, provavelmente haveria). Quando a situação do Galo era ruim, em 2011, pintou o rosto, desabafou e chorou:

Dadá é espontâneo. Nunca estudou Rádio e TV, jornalismo ou qualquer outra coisa. Quase completando 70 anos de idade, às vezes sente o joelho quando precisa ficar de pé por muito tempo, e em outras se atrapalha. Começou a entrevistar Ricardo Goulart com o microfone desligado, por exemplo. “O mundo me ensinou”, afirma. “Quando vou conversar com o jogador, eu imagino o que ele está pensando. Eu já vi outros fazendo isso comigo, e já estive no lugar dele. O que ele está pensando, eu já pensei, mas o que eu vou falar ele não sabe. É a aí que eu levo vantagem, mas fazer pergunta é difícil. Fazer gol é muito mais fácil. Fazer gol para mim era mais fácil que comer macarrão”.

Nesses 10 anos de profissão, Dadá vive as suas experiências mais marcantes neste momento porque se considera um atleticano doente e acompanhou os títulos da Libertadores e da Copa do Brasil nos últimos dois anos. Quase doente, vai. “Doente, não. Sou 50% Atlético, 50% Inter. Lá em Porto Alegre eu sou ídolo. Se um dia você quiser apanhar, é só chegar em Porto Alegre e dizer que eu sou feio”, brinca.

A popularidade em Porto Alegre estende-se por toda Belo Horizonte. O programa de televisão, segundo Dadá, acabou com a resistência dos torcedores do Cruzeiro, apesar da quantidade de gols que o artilheiro marcou contra o maior rival com a camisa do Atlético. “Hoje eu sou mais famoso que na época que era Dadá goleador, o homem gol, porque até a torcida do Cruzeiro gosta de mim”, relata, orgulhoso. “Por isso que hoje eu sou uanimidade em Minas Gerais. Eu sou o rei, o rei Dadá. Mando prender e mando soltar”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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