Cruzeiro revela motivo pelo qual demitiu Nico Larcamón com discurso à la Linkedin
O diretor de futebol Pedro Martins concedeu entrevista coletiva juntamente com Fernando Seabra, novo treinador do Cruzeiro, o sexto em um período de pouco mais de um ano
Pedro Martins, diretor de futebol do Cruzeiro, esteve ao lado do novo treinador Fernando Seabra — ex-comandante do sub-20 da Raposa e escolhido para assumir a equipe principal celeste na temporada de 2024 —, na coletiva de apresentação do técnico, realizada na noite dessa terça-feira (9), na Toca da Raposa 2, centro de treinamentos do clube celeste.
Seabra comandou o sub-20 celeste até janeiro deste ano, deixando o cargo após a final da Copinha, perdida para o Corinthians, quando decidiu deixar o clube para comandar a equipe sub-23 do Red Bull Bragantino, sob a justificativa de ficar mais próximo de sua família. Mas com o novo convite do Cruzeiro, aceitou voltar para Minas Gerais, onde terá a missão de comandar o clube celeste na Copa Sul-Americana e Campeonato Brasileiro, competições que restaram para a Raposa em 2024.
Durante a coletiva, Fernando Seabra, que foi o primeiro a responder à imprensa, se mostrou feliz e empolgado com o desafio. Prometeu um estilo de jogo atrativo, mas inteligente e organizado, com oportunidades iguais para todos os atletas demonstrarem seu valor. Além disso, declarou ter 100% de tranquilidade em relação ao respaldo da diretoria, que tem média altíssima de demissão de treinadores desde a saída de Paulo Pezzolano, em março do ano passado.
O novo treinador do Cruzeiro ainda revelou que pretende consumir o máximo de informações do staff do clube e que confia no trabalho conjunto com as demais áreas da Raposa. Segundo ele, terá muito prazer em se aconselhar com Paulo Autuori, diretor técnico celeste, considerado uma referência dentro do futebol nacional.
🎙️| RESUMO DAS COLETIVAS DE PEDRO MARTINS E FERNANDO SEABRA
Em breve teremos as coletivas do diretor de futebol do Cruzeiro, Pedro Martins, e do novo treinador, Fernando Seabra. Você acompanha o que será dito por aqui.
📸Gustavo Aleixo/Cruzeiro pic.twitter.com/5fpauslfiw
— Maic Costa (@omaiccosta) April 9, 2024
Pedro Martins explica demissão de Nico Larcamón do Cruzeiro
Segundo a falar com os jornalistas, o diretor de futebol Pedro Martins começou explicando a demissão de Nico Larcamón. Segundo o executivo, a decisão já estava tomada antes mesmo da final do Campeonato Mineiro, onde o Cruzeiro foi derrotado pelo rival Atlético-MG. Martins explicou que, internamente, a condução do trabalho do argentino não vinha agradando e que já não enxergavam perspectivas de melhora.
Pedro Martins afirmou, ainda, que o fato de Larcamón não estar dando muitos minutos para alguns dos reforços que ele próprio pediu, como Álvaro Barreal e José Cifuentes, não interferiu na demissão.
— Antes da final, a gente já estava com a decisão pronta de não dar seguimento, porque não víamos perspectiva. A avaliação de trabalho é justamente essa. ‘E se a gente insistir um pouco mais agora? Será que tem perspectiva de funcionar?’. A gente não via mais perspectiva. É uma decisão dura, difícil, porque identificamos potencial, mas, na prática, não houve conexão entre a maneira do clube trabalhar e a comissão técnica — revelou o diretor de futebol do Cruzeiro.
— Especificamente para o Nico, queríamos um treinador com uma capacidade de liderança, que fosse jovem, ambicioso, que conseguisse se conectar com as melhores práticas do mundo e tudo isso o Nico tinha. E ali foi importante porque a gente queria também um treinador com experiência em competições sul-americanas. E em todo esse processo para a gente ficou claro que ele preenchia os requisitos. O grande desafio foi fazer essa conexão entre os requisitos e tudo que a gente identificou e a prática. O dia a dia. E a gente sabia que ia ser necessário um esforço dos dois lados, um esforço do clube e um esforço da comissão do treinador para que a gente que o Zé conseguisse entender e identificar essa forma de trabalhar. E posso falar que houve um esforço muito grande dos dois lados — explicou Martins.
Pedro Martins foi questionado sobre o “processo seletivo” que o Cruzeiro faz com treinadores, se o fato de tantas demissões revelarem falhas na avaliação. O diretor então defendeu a atitude, explicando que “é mais fácil avaliar, conversar, do que não fazer”. Afirmou que sempre é possível melhorar, mas que não é a análise prévia que causa demissões, mas sim a prática no dia a dia.
— As trocas não aconteceram porque a gente estava descontente com o resultado, aconteceram porque a gente estava descontente com o método, com o dia a dia, com a rotina, e que isso é um processo de busca. O que a gente tem encontrado e está cada vez mais claro, é que de fato não é fácil encontrar um treinador para o Cruzeiro. Não é porque a gente está buscando um projeto que pense, que tenha convicção, que tenha clareza, que troca ideias. A gente quer treinadores que fomentem a construção coletiva. Por isso, a todo momento, estamos buscando. As decisões foram tomadas com convicção, as decisões de entrada, mas as decisões de saída também. Eu acho que isso é mais importante. A gente continua aprendendo e evoluindo, e eu acho que isso faz com que o Cruzeiro se fortaleça — argumentou Pedro.
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Pedro Martins volta a ser criticado por ‘discurso de LinkedIn’
Pedro Martins ficou estigmatizado por parte da torcida e imprensa por um suposto “discurso de LinkedIn”, forma irônica de tratar um discurso altamente corporativo, positivista e cheio de jargões, comum na rede social em questão. Em coletivas recentes, o diretor reduziu essa característica, mas nessa terça (9), talvez pelo momento de pressão vivido, Pedro parece ter abraçado com unhas e dentes essa forma de se comunicar.
Os primeiros momentos da coletiva foram esclarecedores, mas conforme os questionamentos aumentaram — em especial pedidos de autocrítica para a gestão de futebol do Cruzeiro —, a repetição de jargões como método, projeto e outros foi crescendo e a mea-culpa feita de forma que não pareceu tão sincera.
Além disso, o discurso acabou soando como um amontoado de desculpas, visto que o torcedor cruzeirense já passou por esse momento em diversas outras oportunidades, e apesar do que é dito simular uma convicção, a prática não traduz o que é dito e, assim, as palavras passam a parecer vazias. Quem ouve até pode levar em consideração, mas como o aprendizado dito por ele em mais de uma oportunidade não se reflete em menos erros, nasce o descrédito, e isso que se viu nas redes sociais após a coletiva: muito descrédito ao que foi dito por parte dos cruzeirenses.
Um exemplo disso foi a justificativa para a escolha de Fernando Seabra, num momento de crise, poucos meses após a diretoria entender que ele não estava preparado para comandar o time em 2024.
— Conversamos longamente com ele ao final do Campeonato Brasileiro de 2023. Falamos: ‘Cara, você é o futuro treinador do clube. Queremos que você fique, porque estamos te formando para ser treinador do Cruzeiro’. É um processo que a gente acreditava que ele estava fazendo parte e, naquele momento, optamos por não trazer para o profissional. Achamos que era necessário mais um ciclo no Sub-20 — começou Martins.
— Tem um ponto aí que foi importante para avaliar, na vinda do Nico, a experiência internacional. Naquele momento, avaliamos que seria importante trazer uma figura com experiência. Quando não funciona, não dá certo, a gente acelerou o processo do treinador que estávamos formando dentro da casa, mas não estava dentro da casa — continuou.
— Eu liguei para ele e falei: ‘Estou cumprindo uma promessa, você é o próximo treinador do Cruzeiro’. Poderíamos ter mantido ele lá atrás? Até poderíamos. Mas achávamos que era importante mais um ciclo antes de assumir a equipe no futuro — finalizou o diretor de futebol do Cruzeiro.
Discurso levanta questionamentos
A explicação foi dada, mas não deixa de aparentar uma decisão tomada “no desespero”. Além disso, a experiência de Nico Larcamón na Copa Sul-Americana são duas eliminações nas primeiras fases da competição em 2016 e 2017, comandando o Deportivo Anzoátegui, da Venezuela.
Outro ponto exaustivamente repetido por Pedro Martins foi a justificativa de que se as coisas não estavam dando certo nos últimos tempos é pela escolha do clube em buscar treinadores que iriam se adaptar ao que pensa o Cruzeiro, fortalecendo assim o clube, invés de escolher figurões e “dar a chave do clube para eles”.
Bem, isso faz sentido, mas levanta dois questionamentos principais: o primeiro deles é o fato dessa estratégia não estar dando certo. Mesmo assim, a ideia é insistir nisso? Não estou afirmando que é preciso escolher o “outro caminho”, mas não me parece justo creditar os erros ao método escolhido, pois além de tirar a falha humana da questão, dá a sensação de teimosia, já que os erros não são suficientes para alterarem o método, sem necessariamente mudá-lo totalmente.
O segundo questionamento é: só existem duas formas? Não é possível contratar um bom treinador, que entenda o clube e resolva andar junto? Só é possível contratar um nome de peso entregando a ele todas as decisões do clube? Não existe nenhum caso de sucesso onde houve uma reciprocidade na relação clube/treinador?
O discurso, mais uma vez, é de convicção e respaldo ao treinador. E Fernando Seabra não deixa de ser uma incógnita. Pois bem, vejamos como isso se desenrola e se o discurso, dessa vez, será refletido na prática, nos bons e maus momentos.



