Como o Coritiba consolidou ‘DNA formador’ para lançar talentos no futebol
'Piás do Couto' brilham na Europa e evidenciam método eficaz do Coxa na formação de joias
Os atacantes Igor Paixão e Matheus Cunha e o lateral-direito Yan Couto são alguns brasileiros em evidência no futebol europeu nos últimos anos. Mais do que o país, os três têm em comum terem sido projetados no esporte pelo mesmo time de juniores: o do Coritiba.
O Coxa tem no DNA ser um clube formador, explica Gustavo Sader, gerente das categorias de base, à Trivela. O executivo se orgulha da busca dos profissionais pela evolução contínua e da mescla entre juventude e experiência. Esse é, inclusive, um dos diferenciais do sucesso do projeto na opinião dele.
— Temos vários ídolos que já passaram pelo Coritiba que sabem o peso da camisa, a história, que já representaram o clube em campo. Claudio Marques, Ademir, Jetson, Pepo, Mozart, então, o clube tem essa identificação. Conseguimos juntar isso tudo, as melhores práticas, as melhores experiências de cada um — afirma.
Trio consolida força do Coritiba nas categorias de base
Os futuros “Piás do Couto”, como são chamados os jogadores da base do Coritiba, podem ser descobertos de variadas formas. O departamento de captação tem olheiros em competições, escolinhas e parceiros, e também usa indicadores para monitorar progressos de atletas.
Igor Paixão é do Amapá, e despertou o interesse da equipe paranaense quando estava no futebol local aos 14 anos.
— Igor Paixão é um case importante. Tinha passado por duas avaliações fora da categoria e depois mais uma dentro da categoria. Ele foi aprovado nas três avaliações e se transferiu do Amapá para cá com a família em busca do sonho dele — relembra o técnico Mozart à Trivela.
Mozart trabalhou diretamente com o atacante do Feyenoord no sub-20 do Coxa e viu de perto o progresso daquele que viria a ser o principal jogador do time em 2022.
Paixão se envolveu em 34 gols ao longo dos 90 jogos que fez na equipe e foi a maior venda da história do clube em agosto daquele ano, quando migrou ao futebol holandês por 8 milhões de euros (R$ 51,6 milhões). O time ainda mantém 20% dos direitos econômicos do atleta.
Àquela altura, o Coritiba já estava consolidado como um time com potencial para lançar jovens promissores no futebol.
Isso porque, duas temporadas antes, vendeu Yan Couto ao Manchester City por 6 milhões de euros (R$ 38,7 milhões). O lateral defendia as cores do clube desde os 10 anos e se despediu com apenas dois jogos disputados no profissional, mas se sobressaiu na campanha do título da seleção brasileira sub-17 em 2019.

Yan Couto foi emprestado pela equipe inglesa ao Braga e ao Girona. No futebol espanhol, voltou a se destacar e chamou a atenção do Borussia Dortmund, onde está desde agosto de 2024.
Além de embolsar o valor da primeira transação, o Coxa lucrou na transferência do lateral ao futebol alemão por meio do mecanismo de solidariedade da Fifa. O clube tem 2,1% do total da venda do atleta, que ficou em 30 milhões de euros (R$ 195,6 milhões), segundo a imprensa europeia.
Assim, 600 mil euros (R$ 3,9 milhões) são direcionados aos cofres da equipe brasileira.
Matheus Cunha, ao contrário dos colegas, sequer estreou no time principal. Ele esteve nas categorias de base entre 2013 e 2017 e foi vendido ao suíço Sion em negociação de cerca de 1,9 milhão de euros (R$ 7,7 milhões). Depois, passou por RB Leipzig e Hertha Berlim na Alemanha e Atlético de Madrid na Espanha antes de se transferir ao Wolverhampton.
Nos Wolves de 2023 a 2025, conquistou ainda mais projeção e atraiu interesse de outros clubes. O jogador vai iniciar novo capítulo na carreira, desta vez com o Manchester United, nesta temporada, e vestir a camisa 10 dos Red Devils.
A mudança também significa lucro ao Coritiba, que tem direito a 2% do valor total da negociação. Ao levar em consideração a multa rescisória de aproximadamente 62,5 milhões de libras (R$ 470,6 milhões), pouco mais de 1,2 milhões de libras (R$ 9,4 milhões) são do Coxa.
Antes, ao trocar Sion pelo Leipzig, o meia-atacante rendeu ao Coritiba cerca de 300 mil euros (R$ 1,9 milhões). A transação do Leipzig ao Hertha Berlim aumentou o lucro do time paranaense para 360 mil euros (R$ 2,3 milhões), e do Herta ao Atlético de Madrid foram 700 mil euros (R$ 4,5 milhões) destinados ao Coxa.
A penúltima negociação, do Atleti aos Wolves, chegou a 1 milhão de euros (R$ 6,5 milhões) para o clube do Couto Pereira. Todos os valores em reais estão na cotação vigente em julho de 2025.

“São atletas de alto nível, que surgiram muito cedo no Coritiba e hoje estão performando nas maiores ligas do mundo. Têm muita qualidade. Sempre identificamos esse potencial e projeção, então, para nós, não é surpresa”, diz Sader.
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Métodos usados pelo clube para desenvolver promessas
O gerente reforça a importância das metodologias de detecção de talentos do Coxa na trajetória profissional do trio e enfatiza outros aspectos pertinentes ao processo que ajudam o clube a ser forte nas categorias de base.
Além da parte técnica e tática, há investimento no que o executivo chama de desenvolvimento humano, de modo a fazer a vida pessoal e profissional do atleta caminharem juntas. Neste caso, os departamentos de psicologia, pedagogia e assistência social são incluídos.
O objetivo é preparar a joia em aspectos educacionais, escolares e sociais — por meio do convívio com outros jovens — ao mesmo tempo em que há treinos direcionados à evolução no futebol.
— É fundamental no próprio clube ou até em uma futura transferência ele saber o que acontece na sociedade, saber se posicionar como cidadão e ter esse lado pessoal bem desenvolvido — salienta.

Sem a sinergia entre as áreas, a carreira de Igor Paixão poderia ter sido diferente. Mozart explica que Sérgio Meggetto, então diretor das categorias de base, foi fundamental na trajetória do atacante.
Esse caso em específico proporcionou ensinamentos valiosos ao técnico.
— Talvez poucas pessoas conheçam essa história. O caso do Igor Paixão é muito claro para mim que, na transição do sub-17 para o sub-20, a decisão final foi do Sérgio. A opinião dele pesou muito na transição. Ele conhecia o atleta, conhecia a história dele dentro do clube.
“Paixão, no primeiro ano, não teve muitas oportunidades, porque a concorrência era grande com outros jogadores, mas no segundo ano teve papel bem importante no título estadual, nas campanhas do Brasileiro sub-20 e sub-23. Foi decisivo, protagonista em vários jogos. Um aprendizado que levo daquele momento é escutar a opinião dos profissionais que trabalham ou trabalharam com o atleta“, afirma o treinador.
Também é importante usar o período na academia como teste de posições. Mozart menciona como exemplo Guilherme Biro, que está no Austin, dos Estados Unidos. O jogador atuou como quarto zagueiro, primeiro volante, meia-esquerda, ponta-esquerda e centroavante no juniores antes de se firmar na lateral-esquerda.
Além da “sensibilidade” de entender as particularidades de cada atleta e fazer com que explorem outras opções no campo, o Coritiba utiliza a participação em competições importantes na formação e, assim, cria espaço para lidar com sentimentos de frustração e euforia. Tudo começa nas categorias de base.
Como os Piás do Couto são lançados no futebol profissional

A metodologia passa por aprimoramento contínuo e visa facilitar ainda o ingresso da promessa no time principal. Neste caso, as atenções se voltam ainda mais à vida extracampo do jogador, que precisa suportar pressões, exposições e cobranças diferentes.
O clube destina esforços à parte mental e convida a família do jovem e a comissão do sub-20 a participar da transição. Também há mais envolvimento da equipe de comunicação para suporte em redes sociais e entrevistas.
— Ele pode chegar (no profissional) e ir muito bem, mas também está no pacote ele oscilar um pouco. Temos que ter muito critério, muito cuidado, e saber que mesmo que vá muito bem no primeiro, segundo jogo, ele ainda pode oscilar. Estar 100% preparado não existe. O atleta que tem 20, 30 anos de carreira consolidada está propício a fazer um jogo um pouco melhor e outro não tão bom, mas tem um pouco mais de casca, e talvez consiga absorver isso melhor. Com atleta da base, temos que ter mais cuidado — comenta Gustavo Sader.
O lateral-direito Natanael encarou a mudança da base para o profissional em 2020, aos 18 anos. Agora com 23, ele defende o Atlético-MG e exalta o caminho percorrido. À Trivela, o defensor contou que tem planos de atuar no futebol europeu no futuro.
A fama positiva do time paranaense na base é sustentada mais recentemente por joias como o goleiro Pedro Morisco (21 anos), o zagueiro Guilherme Aquino (21), o atacante Lucas Ronier (20) e o lateral-esquerdo João Almeida (19). Todos foram incorporados à equipe profissional e têm se destacado.
— O Coritiba está muito bem servido de profissionais e jogadores e com certeza vai continuar formando excelentes atletas tanto para o clube quanto para o futebol brasileiro e internacional — projeta Mozart.



