Copa do Brasil

São Paulo não jogou bem, mas por mérito do Grêmio e de Renato Portaluppi

Depois do primeiro jogo contra o Copa do Brasil, na partida de ida da semifinal, Renato Portaluppi disse que tinha estudado o time de Fernando Diniz e, por isso, conseguiu a vitória. Naquela partida, o time paulista teve duas grandes chances, mas a defesa da equipe gaúcha foi, de fato, muito bem na partida. O que vimos no segundo jogo, no Morumbi, foi uma melhoria ainda maior do time do Grêmio nesse aspecto: em vez de dar duas chances ao adversário, desta vez o tricolor gaúcho não deu nenhuma. O São Paulo não criou quase nada, em mais de 90 minutos, em um jogo que acabou 0 a 0. Nunca esteve perto da classificação. E isso é totalmente mérito do Grêmio e de Renato, que anulou o adversário.

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Por vezes vemos o time que perde o mata-mata ser criticado por seus erros, o que é justo. O São Paulo de fato teve problemas, não conseguiu desenvolver o seu jogo. O que o time de Diniz gosta, de trocar passes para criar os espaços, não foi possível. E não foi possível porque tinha um adversário do outro lado. Renato não teve nenhum pudor em mudar o estilo do seu time para se defender. Não o fez de qualquer forma: estudou o adversário para impedir que o seu jogo fluísse.

Uma das características do time do São Paulo é começar a jogada com seus meio-campistas. Daniel Alves, especialmente, e eventualmente Luan. Algumas vezes, até Igor Gomes vem buscar o jogo com os zagueiros na saída de bola. Isso é parte crucial do jogo do São Paulo, porque é assim que o time vai vencendo a marcação adversária, que sobe para marcar. O que o Grêmio fez foi escolher quem do São Paulo receberia a bola. Daniel Alves, que jogou muita bola em Porto Alegre, não teve um segundo de sossego na saída. Tanto que quase entregou o ouro no primeiro tempo, em um lance que resultou na bicicleta de Diego Souza, que ficou perto do golaço.

Com Daniel Alves constantemente marcado, quem recebia sem ser apertado eram os zagueiros. Arboleda e Bruno Alves podiam receber a bola sem problemas. Quando o São Paulo trocava passes, o Grêmio trancava o meio-campo. Colocou um cadeado, jogou a chave fora, e deixou o São Paulo ficar tentando abrir com um clipe. O time do Morumbi tentava o passe, jogava de um lado para o outro, sem achar espaço, sempre apertado. Até que a bola ia para os zagueiros, os únicos que o Grêmio não apertava. Não por acaso. Renato sabia que eles não poderiam criar nada. E o tempo foi passando, passando, passando, e o São Paulo não soube sair dessa armadilha criada.

O Grêmio gastou o tempo, claro, como era esperado. O árbitro também poderia ter dado mais acréscimos. Mas convenhamos, isso é muito pouco para explicar o jogo. O que explica o jogo e o resultado é o mérito que o Grêmio teve em entender o jogo do São Paulo e conseguir bloquear o jogo do time de forma extremamente competente. São duas etapas e não é nada fácil fazer as duas coisas bem. Entender o jogo do adversário e como ele consegue fazer o que faz é uma etapa; impedir que o adversário faça isso é outra. O Grêmio já tinha conseguido isso em boa parte do jogo de ida, ainda que tenha dado algumas chances. Só que no segundo jogo, o Grêmio foi enorme, defensivamente perfeito e estrategicamente impecável.

Sem o seu jogo, o São Paulo viu Brenner se tornar uma ilha. Não só por não ter Luciano ao seu lado, um companheiro que busca o jogo, se movimenta, cria e ainda finaliza de longe. Com Tchê Tchê, o que aconteceu foi que o camisa 8 só entrou na rotação da bola, circulando sem conseguir entrar. As muralhas gremistas estavam bem posicionadas e, principalmente, bem pensadas. Walter Kanemann foi o melhor em campo nos dois jogos, porque jogou muito bem e liderou o sistema defensivo.

Defender bem é um grande mérito e não pode ser subestimado. Renato conseguiu fazer isso em um time que está acostumado a jogar de forma muito diferente, normalmente tendo a posse de bola, jogando e envolvendo o adversário. Só que o técnico percebeu que isso era fazer o jogo que o São Paulo queria. O jogo com o Atlético Mineiro talvez tenha sido o exemplo mais claro disso e Renato certamente viu o jogo e soube que se repetisse a ideia de jogar e tentar sufocar o São Paulo, poderia acabar sofrendo.

Embora o Grêmio tenha se defendido quase todo o jogo no Morumbi, não sofreu. Não foi pressionado o tempo todo, vendo a bola passar perto do gol várias vezes. O São Paulo não passou perto de marcar o gol. As melhores chances do jogo foram do Grêmio, ainda no primeiro tempo. Uma delas a bola na trave de Victor Ferraz, ainda no começo do jogo.

O Grêmio se defendeu muito, é verdade, mas foi o melhor na soma dos dois confrontos de forma bastante clara. O São Paulo teve momentos para mudar como o jogo seria, especialmente no primeiro jogo, mas no jogo de volta não esteve perto de ganhar em nenhum momento. Não foi claramente superior no jogo como aconteceu em trechos do primeiro jogo.

Neste segundo, realmente o São Paulo não jogou nada. E o responsável por isso é o Grêmio, que fechou todas as portas, não deixou qualquer brecha e fez o time de Diniz fazer tudo que o seu técnico não queria, mostrando os defeitos que já mostrou em tantos outros jogos decisivos no ano. Renato disse que tinha estudado o adversário e deixou isso muito claro em campo. O São Paulo ficou desconfortável demais, o tempo todo, mesmo jogando em casa. O Grêmio fez com que o São Paulo jogasse como os gaúchos queriam, não como os paulistas gostam. Isso fez toda diferença.

Por tudo isso, Renato Portaluppi foi o grande vencedor do jogo no Morumbi. Porque ele convenceu jogadores do mais alto nível técnico brasileiro, como Pepê, um dos melhores do país, a dedicar corpo, alma, coração e pulmão para correr, defender e fechar todos os espaços. Jogadores como Diego Souza brigou muito em campo, teve qualidade, levou perigo e esteve mais perto de marcar no Morumbi que o artilheiro do outro lado, Brenner, que praticamente não teve chances claras em nenhum momento, pouco conseguiu receber a bola em posições avançadas e quase que só conseguiu assistir ao seu time trocar passes sem encontrar espaços para acioná-lo dentro da área.

Defender é legítimo e exige qualidade. Saber se adaptar ao que pede o momento é uma qualidade importante de grandes times. O Grêmio tem sido um time capaz de disputar todos os títulos possíveis desde 2016, com Renato trazendo bastante repertório em todos esses quatro anos.

O que o Grêmio fez foi saber se adaptar para jogar e vencer. O time sabe jogar, mas não é obrigado a fazer o jogo que seu adversário quer, muito pelo contrário. Se o São Paulo sofre com uma marcação como a que o Grêmio fez, travando o meio-campo, o time do Morumbi que tinha obrigação de ter soluções para abrir o cadeado.

Ao São Paulo, resta lamber as feridas e seguir em frente no Campeonato Brasileiro. O time é líder com uma distância relativamente confortável (sete pontos, potencialmente reduzidos a quatro se o Flamengo vencer o seu jogo a menos por fazer) e tem jogado bem, conseguido resultados importantes. Dá para discutir que Fernando Diniz precisa desenvolver soluções para jogos como este, em que o adversário tira o seu principal jogador, Danaiel Alves, do jogo. Precisa saber como sair disso.

De qualquer forma, porém, o time tem muito em disputa ainda. O Campeonato Brasileiro é um título muito importante e está ao alcance do time, como não estava há muitos anos. É preciso que o trabalho siga para seguir com o bom desempenho.

Do lado vencedor, em um ano difícil para Renato Portaluppi, que viveu altos e baixos, os últimos meses foram de uma recuperação que torna o Grêmio novamente um time capaz de vencer qualquer um, em qualquer lugar e, mais do que isso, sabendo jogar de diferentes formas, o que torna o time ainda mais perigoso. O desafio agora será o Palmeiras e tende a ser um duelo bem interessante.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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