Copa do Brasil

Respeita o Nordeste! CRB, ABC e Juazeirense conquistam classificações enormes na Copa do Brasil

Enquanto o ABC reverteu a derrota na ida contra a Chape, CRB e Juazeirense superaram nos pênaltis Palmeiras e Cruzeiro

A semana começou com uma fantástica goleada do Fortaleza, que levou os tricolores à liderança do Campeonato Brasileiro. E a quarta-feira de Copa do Brasil corroborou o momento fantástico do futebol do Nordeste. Três classificações históricas aconteceram ao longo da noite, afinal. O primeiro foi o ABC, que não se intimidou com a derrota na ida para a Chapecoense. Depois de tomar 3 a 1 em Santa Catarina, o clube potiguar buscou a vaga com os 3 a 0 no Frasqueirão. Depois, veio a façanha da Juazeirense. O clube baiano reverteu a derrota por 1 a 0 na ida e aumentou o drama do Cruzeiro, ao eliminar os celestes nos pênaltis dentro da Bahia. Por fim, o CRB se agigantou no Allianz Parque. Ganhou fora de casa por 1 a 0, segurou a pressão do Palmeiras e também avançou nos penais. Três clubes nordestinos de orçamentos e divisões inferiores aos de seus adversários. Três clubes nordestinos classificados às oitavas de final, em campanhas desde já memoráveis.

O ABC já vinha aprontando desde as primeiras fases. Os potiguares tinham sido responsáveis por tirar o Botafogo da etapa anterior nos pênaltis. O duelo contra a Chapecoense aumentava as distâncias entre uma equipe recém-promovida à elite e um adversário que segue no calvário da quarta divisão. Pois os alvinegros conseguiram uma reviravolta excepcional. A derrota por 3 a 1 na Arena Condá tornava a vida bastante difícil – num jogo em que o gol dos visitantes só veio graças a um pênalti bizarro anotado pela arbitragem, em que a bola bateu na cabeça do zagueiro e o juiz viu mão. No fim das contas, o lance daria uma sobrevida aos abecedistas e faria a diferença com os 3 a 0 no Frasqueirão.

O ABC começou a cumprir sua missão com 19 minutos. Uma falta cobrada por Marcos Antônio desviou na barreira e acabou nas redes. Quando a Chape tentou responder, Helitão salvou em cima da linha. E o placar agregado já ficaria empatado aos 39, com o veterano Wallyson chutando firme uma bola espirrada para estufar as redes. Antes do intervalo, porém, o Verdão poderia ter descontado. Os catarinenses tiveram um pênalti a seu favor e, na tentativa de bater de cavadinha, Anselmo Ramon acabou carimbando o travessão.

Durante o segundo tempo, o goleiro Wellington se consagrou como herói do ABC. Diante da pressão da Chapecoense, o arqueiro começou a operar milagres. Wellington chegou a realizar três ótimas intervenções em poucos minutos. Além disso, também viu a trave ajudá-lo, numa batida de escanteio de Ravanelli que estalou o poste. E o esforço do goleiro seria recompensado do outro lado, com o terceiro gol do ABC numa cobrança de falta ensaiada. Aos 26, Alan Pedro cruzou e Ederson mandou para dentro. No fim, por mais que a Chape tenha tentado, sequer conseguiu forçar os pênaltis.

Esta é a terceira vez que o ABC alcança as oitavas de final da Copa do Brasil. Em 2000, os potiguares eliminaram Vitória e Goiás, até a queda diante do Palmeiras com dois empates. Já em 2014, os abecedistas foram até as quartas. O grande feito aconteceu contra o Vasco, que antecedeu a eliminação diante do Cruzeiro também pelos gols fora. Curiosamente, o técnico atual é o mesmo do feito de sete anos atrás, Moacir Júnior.

Mais tarde, a Juazeirense eliminou o Cruzeiro. E os baianos também vinham embalados na Copa do Brasil. Na primeira fase, superaram o Sport por 3 a 2 – num jogo de desdobramentos caóticos dentro e fora de campo, com interferências que geraram reclamações dos pernambucanos. Depois, seria a vez de superar o Volta Redonda com uma incrível reação. Depois de três gols tomados nos primeiros 18 minutos, o Cancão de Fogo forçou os 3 a 3 aos 52 do segundo tempo e passou nos pênaltis. Não seria o multicampeão Cruzeiro, maior vencedor da Copa do Brasil, que intimidaria as zebras.

A Juazeirense vendeu caro a derrota por 1 a 0 no Mineirão, numa partida em que equilibrou as ações contra o Cruzeiro e só tomou o gol na segunda etapa. Assim, dava para buscar a façanha no Estádio Adauto Moraes. O primeiro tempo seria mais travado, com os anfitriões mantendo a bola, mas limitados a chutes de longe. Já na segunda etapa, a Raposa melhorou e perdeu ótimas oportunidades. Assim, o Cancão de Fogo não perdoou os vacilos e arrancou a vitória aos 41. A defesa celeste bobeou e Thauan mandou para dentro, se redimindo de uma chance desperdiçada pouco antes. No último minuto, ainda ocorreu um lance inacreditável: Ramón chutou e Waguinho salvou com um carrinho espetacular em cima da linha, antes de Ramon carimbar o travessão também no rebote. A jogada gerou muita reclamação dos cruzeirenses de que a bola entrou, mas, sem o VAR para confirmar, a arbitragem não validou o tento.

Nos pênaltis, a Juazeirense sobrou. E o goleiro Rodrigo Calaça seria essencial ao sucesso. O veterano pegou a primeira cobrança do Cruzeiro, de Rômulo. Depois, Kanu converteu. A Raposa também perdeu o segundo, quando Felipe Augusto bateu para fora. Com todos convertendo na sequência, os cruzeirenses só ganharam uma sobrevida no quarto tiro dos baianos, com Fábio rebatendo o arremate de Guilherme Lucena. Mas, logo depois, Calaça voou no alto para espalmar a finalização de Matheus Barbosa e dar a classificação para o Cancão de Fogo, com o triunfo por 3 a 2. Atualmente na Série D, a Juazeirense registra sua melhor campanha na Copa do Brasil. E os R$2,7 milhões de premiação valem demais a um clube de suas proporções.

Enquanto o Cruzeiro sofria, ao mesmo tempo o Palmeiras sucumbia ao CRB. E a vitória por 1 a 0 no Allianz Parque é o grande feito desta campanha dos alagoanos. O Galo da Praia começou despachando o Goianésia e avançou na segunda fase ao vencer o Paysandu em Belém. De qualquer maneira, o buraco nos 16-avos de final era mais fundo, contra um Palmeiras que ostentava a faixa de campeão da Copa do Brasil passada. O favoritismo alviverde pareceu prevalecer na ida, com o triunfo por 1 a 0 no Trapichão. Não foi uma grande apresentação dos palmeirenses, mas a superioridade tinha ficado clara.

O CRB, no entanto, vinha motivado. No final de semana, venceu o Cruzeiro num épico por 4 a 3. E o peito inflado permitiu que o Galo se permitisse sonhar no Allianz Parque. Depois de uma grande defesa de Diogo Silva para evitar o gol de Wesley, o placar foi aberto pelos alvirrubros logo aos seis minutos. Diego Torres fez grande jogada e tocou para Ewandro definir diante de Weverton. Depois disso, o que se viu foi um ataque contra defesa. Os alviverdes partiram para cima e insistiam bastante, mas não conseguiam o empate. Gum chegou a parar uma bola incrível sobre a linha, enquanto Diogo Silva se manteve intransponível. O segundo tempo, então, viu o abafa palestrino se intensificar. Diogo Silva era o herói dos alagoanos, com um milagre diante de Luiz Adriano, mas a defesa também fazia um bom trabalho para rifar os chuveirinhos. Quando necessário, Weverton até evitou o segundo do outro lado, de Diego Torres. Mas a iniciativa era mesmo dos paulistas, que ainda tiveram um gol anulado de Breno Lopes nos acréscimos.

Nos pênaltis, o péssimo rendimento do Palmeiras na marca da cal voltou a pesar. E nem dá para reclamar da falta de sorte, já que por três vezes os alviverdes estiveram em vantagem na série normal – na qual apenas quatro jogadores converteram. Weverton era fundamental às esperanças palmeirenses, pegando dois tiros dos adversários. Diogo Silva, contudo, seria ainda melhor. Pegou também as batidas de Lucas Lima e Breno Lopes, além de ver Luiz Adriano estalar o travessão. Por fim, no sétimo arremate do CRB, o goleiro alvirrubro chutou com extrema categoria para vencer Weverton e definiu a vitória de seu time por 4 a 3 na sequência, ao espalmar a finalização de Marcos Rocha.

O CRB registra sua melhor campanha na história da Copa do Brasil. Em 2020, o Galo eliminou o Cruzeiro e alcançou a quarta fase, quando caiu diante do Juventude. A diferença está no formato da competição, já que aquela etapa antecedia as oitavas de final. Agora, os alagoanos estão entre os 16 melhores do torneio nacional e parecem fortes o suficiente para fazer uma campanha digna na Série B do Brasileirão.

O feito dos nordestinos é ainda mais saboroso numa semana em que os clubes da região foram atacados por um comentário asqueroso na rádio paulista, por uma dessas pessoas vazias que ganham espaço nos microfones. Felizmente, a bola deu sua resposta. Nesta quarta, o Bahia também passou às oitavas, mas na condição de favorito no confronto com o Vila Nova. Depois do triunfo por 1 a 0 em Goiânia, o Tricolor repetiu o placar no Pituaçu com um gol de Gilberto, aproveitando uma falha do goleiro.

Além dos quatro times classificados nesta quarta-feira simbólica, o Nordeste botará ao menos uma quinta equipe nas oitavas, com a definição do clássico entre Ceará e Fortaleza. A ida no Castelão foi 1 a 1. Além disso, o Vitória tentará reverter no Beira-Rio a derrota por 1 a 0 sofrida diante do Internacional em Salvador. O único nordestino eliminado nesta fase da Copa do Brasil até o momento é o 4 de Julho. E, apesar da derrota por 9 a 1 para o São Paulo, ainda dá para considerar o desempenho dos piauienses heroico – pela vitória na ida e pela maneira como dificultaram no Morumbi até que a goleada desandasse no segundo tempo. É mais um representante do Nordeste a fechar sua participação de cabeça erguida, independentemente do placar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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