Copa do Brasil

O inferno do Flamengo, a imposição do Atlético-GO, o sufoco do Fortaleza, a tranquilidade do Corinthians: um resumão da quarta-feira inesquecível de Copa do Brasil

O Flamengo conseguiu uma reviravolta memorável, enquanto o Atlético Goianiense também viveu um clássico para a história; no Ceará, o lamento por poucos centímetros

As oitavas de final da Copa do Brasil entregam aquilo que prometeram. Se o sorteio reuniu uma porção de grandes embates, os resultados não deixam de ser memoráveis. O Flamengo certamente se lembrará por muito tempo da classificação em cima do Atlético Mineiro, por todos os atritos e pela resposta no Maracanã. Resposta da torcida, que proporcionou uma festa das mais bonitas possíveis, mesmo com toda a sua história de espetáculos. Resposta do time, que jogou muito melhor que na ida e se classificou com os 2 a 0 comandados por Arrascaeta. Igualmente o Atlético Goianiense não se esquecerá do que viveu na Serrinha. Amassou o Goiás, num 3 a 0 marcante para o clássico. O Fortaleza passou, mas no sufoco. O Ceará venceu por 1 a 0, mas precisava de mais um gol, e lamentou a bola no travessão de Vina durante o último lance. Por fim, o Corinthians é que não fez nada muito digno de nota, depois de ter arrebentado o Santos por dominantes 4 a 0 na ida. O 1 a 0 do Peixe na Vila fica só para registro, quando a história já tinha sido escrita pelos corintianos. Abaixo, um resumão.

O inferno do Flamengo

O clima no Rio de Janeiro era de decisão – pelo lado bom, mas também pelo ruim. Brigas entre torcedores foram relatadas ao redor do Maracanã, enquanto houve invasão na entrada do estádio. O ônibus do Atlético Mineiro teve uma janela quebrada por pedras e, felizmente, ninguém se machucou. O caos correspondia à rivalidade incitada nos seguidos confrontos com o Atlético Mineiro e também pelos problemas que ocorreram em Belo Horizonte pelo Brasileirão. Ao menos, dentro do estádio, prevalecia a festa. E se os rubro-negros prometiam um inferno, a recepção da torcida ao time foi de arrepiar, com mosaico e sinalizadores. Uma das mais impressionantes, mesmo ao próprio Fla. A fumaça até acabaria retardando o apito inicial.

Quando o jogo começou, se viu um duelo completamente diferente do que aconteceu em Belo Horizonte. O Flamengo de novo tinha a iniciativa, mas com propósito. O Atlético Mineiro recuava e não tinha escape nos contragolpes. Os rubro-negros exploravam as pontas e arrematavam bastante. Everson precisava trabalhar e fez uma defesa difícil no chute venenoso de Arrascaeta, antes de frustrar João Gomes. Quando o Galo chegava, via suas tentativas rifadas pela zaga flamenguista. A pressão dos cariocas era enorme e os atleticanos mal conseguiam sair para o ataque. Hulk estava anulado.

Arrascaeta e Pedro queriam jogo, comandando as finalizações. Do outro lado, o Atlético só arriscou numa cabeçada aos 40, com Jair. Porém, a partida era do Flamengo e o gol maduro finalmente saiu nos acréscimos. Pedro fez o serviço completo no meio: protegeu, arrancou e serviu. Arrascaeta escapou na velocidade e concluiu de carrinho, na saída de Everson. Houve reclamação de uma falta, que a arbitragem considerou normal. O duelo se abria mais com o tento. Antes do intervalo, todavia, quase Ademir surpreendeu Santos em chute para fora.

O segundo tempo começou mais aberto. O Atlético Mineiro conseguiu avançar, mas não encaixava o passe final. Da mesma forma, o Flamengo não podia deixar de buscar o gol da classificação e Gabigol deu uma resposta contundente, em cabeçada que forçou a defesa de Everson. A partida era mais tensa e caía um pouco de ritmo. Porém, as chances mais concretas eram rubro-negras. Pedro deu o aviso com desvio para fora. Aos 19, saiu o segundo gol numa falta pela direita. Thiago Maia triscou e Arrascaeta mergulhou de peixinho. Everson tentou salvar em cima da linha, mas a bola entrou e permitiu o grito da torcida. Agora a urgência era do Galo, precisando de um gol para forçar os pênaltis.

O Flamengo recuou, mas manteve a consistência na defesa. Thiago Maia e João Gomes faziam ótimo trabalho na proteção, enquanto Rodinei ratificava a boa fase na lateral. O Atlético preparou três mudanças de uma só vez aos 25, incluindo Keno e Eduardo Vargas no ataque. Nada que melhorasse a situação. Enquanto isso, o Fla seguia mais incisivo nos contra-ataques. Pedro serviu também Gabigol, que parou em Everson. Em ótima atuação, Pedro seria substituído logo depois por lesão, assim como David Luiz saíra minutos antes. Só que as perdas não provocaram problemas, especialmente porque Junior Alonso foi expulso com o segundo amarelo aos 33. O Galo sentia e os flamenguistas ficavam mais no ataque, com Marinho e Everton Ribeiro em busca do terceiro. Durante os minutos finais, os mineiros tiveram uma desordenada tentativa de blitz. Hulk só apareceu então, num tiro fraco. Nos acréscimos, as bolas até sumiram em escanteios, em meio à catimba e à confusão. Passou mesmo o Flamengo e cantou mais alto a torcida, num carnaval sem hora para terminar.

O sufoco do Fortaleza

O Castelão também recebeu uma enorme festa. O Fortaleza venceu a ida por 2 a 0, mas o Ceará tinha o mando de campo desta vez e contou com o apoio incondicional de sua torcida. Conseguiu uma resposta e a vitória por 1 a 0, mas não a classificação. O Clássico Rei teve contornos dramáticos, já que o Vozão não desistiu em nenhum momento. No último lance, a batida de Vina que beliscou a trave marcou o lamento dos cearenses. Depois, rolou uma bonita festa dos torcedores alvinegros, sem deixar de cantar mesmo com a desclassificação. Também aplaudiram Vina, às lágrimas, levado até a multidão num abraço dado pelo próprio mascote do clube. Ficou um consolo ao redor da paixão

O Fortaleza  parecia pronto a aumentar a contagem no início da partida. O Ceará teve mais posse de bola durante o primeiro tempo, mas o Leão do Pici se protegia e era mais perigoso. O goleiro João Ricardo precisou agir, com boas defesas diante de Romarinho e Yago Pikachu, além de alguns tiros tricolores que seguiram para fora. O Vozão respondeu no fim da primeira etapa, sem tanta precisão, até crescer no segundo tempo e abrir o placar aos 15. Richard Coelho cruzou e Vina definiu de cabeça.

Os alvinegros cresceram na partida e buscavam o segundo gol. Iury Castilho teve grande oportunidade de cabeça, mas errou o alvo aos 27. O abafa se seguia numa reta final dramática e os oito minutos de acréscimos ampliaram o drama. De um lado, Pikachu parou em João Ricardo. Já do outro, no último lance, a bola sobrou para a batida de Vina da entrada da área. Não entrou por centímetros, com o tiro desviando no travessão. Ficava o reconhecimento do Ceará pela luta e o alívio do Fortaleza, de novo em grande campanha na Copa do Brasil, deixando os rivais pelo caminho.

A imposição do Atlético Goianiense

Já o Atlético Goianiense ratificou o momento empolgante ao eliminar o Goiás de forma categórica. A partida de ida tinha rendido um equilibrado 0 a 0. A volta não. O Dragão bateu os esmeraldinos por 3 a 0 dentro da Serrinha, diante da torcida rival. Marlon Freitas e Wellington Rato comandaram a imposição dos rubro-negros, em partida que até terminou com confusão entre os jogadores na saída para os vestiários. Depois das quartas de final da Sul-Americana, os atleticanos também se colocam entre os oito melhores da Copa do Brasil.

O primeiro tempo já seria amplamente dominado pelo Atlético. A equipe encaixou sua marcação adiantada, enquanto ia criando chances. O time fluía principalmente em jogadas pelo lado direito, e por ali nasceu o primeiro gol, aos 40 minutos. Wellington Rato cruzou e Jorginho passou nas costas da zaga para definir de cabeça, sem chances de defesa. Na volta para o segundo tempo, o Goiás demorou a se acertar com as alterações feitas por Jair Ventura e pagou o preço.

O segundo sol saiu aos oito minutos. Num contra-ataque de dois jogadores contra um, Luiz Fernando serviu e Wellington Rato definiu com toda a calma. Os esmeraldinos tentaram responder, mas Aírton sofreu um pênalti de Tadeu aos 18, que Marlon Freitas converteu. A classificação estava encaminhada. No fim, bastou ao Dragão administrar o resultado e evitar qualquer esboço de reação do outro lado. Os rivais sequer descontaram, com Ronaldo operando milagre em chute desviado de Luan Dias. Tudo saiu à perfeição para os rubro-negros.

A tranquilidade do Corinthians

Por fim, o Santos chegou a fazer um gol na Vila Belmiro, mas tarde demais e nunca tirou o Corinthians do eixo. Com vantagem de 4 a 0 pelo jogo de ida, foi uma questão administrativa para o time de Vítor Pereira, que praticamente repetiu o 11 inicial que venceu o Flamengo no fim de semana. O Santos, também com escalação parecida à da vitória sobre o Atlético Goianiense pelo Brasileirão, tentou assumir a iniciativa e tentou assustar os visitantes na Vila Belmiro. Mas nunca esteve próximo do milagre, com o 1 a 0 se tornando insuficiente.

A melhor chance no primeiro tempo foi uma cabeçada de Marcos Leonardo, em cobrança de escanteio, que gerou ótima defesa de Cássio. Ângelo ainda ficou com o rebote e jogou para o meio da área, antes da defesa corintiana cortar. Maduro, o Corinthians soube tirar o ritmo e correr poucos riscos. A recompensa foi o começo da etapa final, quando teve duas grandes chances de marcar. Gil mandou uma bola lançada à área para fora, e Giovane percorreu todo o campo de ataque, sozinho, antes de mandar para fora, cara a cara com João Paulo.

O gol do Santos saiu de um pênalti cometido por Cássio em cima de Marcos Leonardo, escapando pela ponta esquerda. Vacilo de Cássio porque o jovem santista se dirigia à linha de fundo, bem longe do gol. Leonardo converteu, mas o jogo não pegou fogo. Talvez pegasse se um segundo pênalti, de Gil em cima de Leonardo, tivesse sido marcado, mas o árbitro Jean Pierre, após checar o assistente de vídeo, mandou o jogo seguir.

No fim, a se lamentar a invasão ocorrida. Rojões foram atirados no campo, antes de santistas entrarem no gramado ao apito final. Em meio à confusão, Cássio foi agredido, atingido por um chute na perna desferido por um invasor. Incidente lamentável que deve ser respondido com ações contundentes, pela violência cada vez mais presente no futebol brasileiro.

O Santos pelo menos venceu o jogo. Ajuda no moral depois da goleada da partida de ida, da eliminação na Copa Sul-Americana e da sequência ainda preocupante no Brasileirão, mesmo vencendo a última rodada. Mas quem avança às quartas de final da Copa do Brasil é o Corinthians, que levou uma vantagem grande demais à Vila.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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