Copa do Brasil

O Furacão deu aula de organização, segurou a pressão e derrubou o Flamengo rumo à final da Copa do Brasil

Nikão comandou o ótimo primeiro tempo do Athletico, enquanto Santos fechou o gol quando o Flamengo tentou reagir na etapa final

O Athletico Paranaense conquistou uma vitória inapelável no Maracanã e, com méritos evidentes, estará em mais uma final da Copa do Brasil. O empate sofrido no último minuto dentro da Arena da Baixada fez os athleticanos lamentarem, mas isso não atrapalhou o ímpeto da equipe no reencontro com o Flamengo. O primeiro tempo dos visitantes seria praticamente perfeito no Rio de Janeiro, com uma marcação agressiva e um ataque veloz. Os dois gols de vantagem anotados por Nikão simbolizavam a organização muito mais clara de seu time, contra um Fla tropeçando nas próprias pernas. Já no segundo tempo, quando os cariocas cresceram e martelaram, os paranaenses também contaram com a inspiração de Santos, numa atuação impecável sob as traves. Ainda deu tempo para o último gol, de Zé Ivaldo, fechando o placar em 3 a 0 num momento em que os athleticanos tinham dez homens e confirmando a decisão diante do Atlético Mineiro.

O Flamengo tinha mudanças em relação ao empate por 2 a 2 na Baixada. Bruno Henrique entrava no lugar de Michael, com Thiago Maia dando lugar também a Diego Ribas. O problema disso é que o meio-campo não funcionaria, com Andreas Pereira com dificuldades em sua função. Já Alberto Valentim repetia a mesma formação do Athletico, com Nicolás Hernández de novo na zaga e a dupla de volantes composta por Léo Cittadini e Erick, apesar do retorno de Christian. Na frente, os ataques eram puxados por Nikão, Renato Kayzer e David Terans.

Assim como aconteceu na Arena da Baixada, o Athletico Paranaense entrou em campo no Maracanã para morder o Flamengo na marcação. E a pressão do Furacão logo deu resultado, gerando o lance do primeiro gol aos cinco minutos. Depois de uma bola roubada sobre Diego Ribas, atropelado no círculo central, os athleticanos aceleraram no contragolpe, até Filipe Luís acertar Renato Kayzer dentro da área. O jogo seguiu rolando e o Fla emendou um contra-ataque, mas logo o VAR chamou o árbitro Wilton Pereira Sampaio. Depois de uma demora desnecessária, o pênalti foi marcado para os paranaenses. Diego Alves até acertou o canto, mas Nikão cobrou muito bem e abriu o placar com o chute na bochecha da rede.

O jogo no Maracanã era bastante pegado. O Flamengo levou um tempo para recobrar os sentidos, com o Athletico mais à vontade e muito ligado na marcação. Com o passar dos minutos, a presença dos flamenguistas no campo de ataque foi mais contínua. O problema era destrancar a defesa athleticana, que fechava muito bem os espaços e não deva respiro. Quando Bruno Henrique escapou aos 18, Santos se antecipou e fechou bem o ângulo do chute, que bateu em seu peito. Os cariocas rondavam, sem penetração e nem criatividade. O caminho seria insistir na bola aérea. E assim Léo Pereira desperdiçou uma boa chance, em bola que sobrou na área depois que Rodrigo Caio escorou, mas o companheiro de zaga isolou.

Renato Gaúcho esboçou a primeira mudança ainda no meio do primeiro tempo, enquanto Léo Pereira era atendido após uma cotovelada involuntária no rosto. Thiago Maia estava pronto para entrar, mas Diego Ribas pediu para ficar. Na sequência, aos 31, o Flamengo ganhou um pênalti, em lance de Thiago Heleno sobre Bruno Henrique. Todavia, estava claro como a marcação de Wilton Pereira Sampaio tinha sido equivocada e o VAR anulou a penalidade. Diante da arbitragem fraca, o Fla também não se encontrava por si e se resumia a espasmos, mesmo permanecendo no campo de ataque. Bruno Henrique voltou a ameaçar aos 41, num lindo voleio que Santos encaixou sem nem dar rebote.

Por conta das muitas paralisações, o primeiro tempo teve dez minutos de acréscimos. Foi quando o Athletico se reacendeu na partida, forçando as roubadas e contra-atacando. O caminho ficou aberto ao Furacão, com o meio-campo do Flamengo desarrumado e a zaga exposta. Nikão e Terans já tinham puxado avanços perigosos, até que o segundo gol viesse aos 53. Os athleticanos aproveitaram o campo basicamente aberto e a defesa perdida. Numa troca de passes com Kayzer, Nikão recebeu de volta na direita, com extrema liberdade. O chute cruzado desviou em Filipe Luís e contou com a falha de Diego Alves, que caiu mal e viu a bola passar por baixo. E se ainda dava para o Fla diminuir o prejuízo antes do intervalo, Andreas Pereira desperdiçou uma rara brecha na área adversária, isolando quando estava de frente para o gol.

O Flamengo voltou para o segundo tempo com Michael no lugar de Diego Ribas. Os cariocas também mudaram sua atitude, muito mais rápidos para circular a bola e arriscando bem mais finalizações, com o ponta incendiando o time. Uma blitz seria imposta pelo Fla, que gerou a primeira oportunidade com segundos, quando Bruno Henrique explorou o espaço pela esquerda, mas viu Santos fechar o ângulo de novo. A postura dos flamenguistas era agressiva, mas Santos exibia uma segurança imensa sob as traves. Quando Andreas arriscou de longe, o arqueiro agarrou sem nem soltar a bola. E seu milagre se tornaria maior pouco depois: Michael fez fila e passou por quatro, mas, de frente para o gol, chutou forte e esbarrou na mão salvadora do goleiro.

O jogo do Flamengo era participativo, com mais gente se movimentado. A defesa do Athletico não conseguia ser tão sólida. E os lances de perigo se encadeavam. Léo Pereira assustou numa cabeçada após cobrança de escanteio, que pegou do lado de fora da rede. Pouco depois, Gabigol aproveitou uma sobra de Michael e mandou para fora. Santos também reapareceu quando Everton Ribeiro girou e arrematou. E numa tabela com Isla, Gabigol ainda acertou um tiro de primeira que passou muito perto. Era impressionante como a insistência do Fla não gerava logo o tento.

O Flamengo voltaria a mudar aos 22, com Ramon no lugar de Filipe Luís. Já o Athletico precisava renovar as energias, com Christian e Pedro Rocha, nas vagas de Kayzer e Terans. Neste momento, o jogo deixou de ser tão jogado no campo de ataque do Fla, com mais escapadas do Furacão. A pressão dos cariocas se arrefeceu, com novas mudanças: Matheuzinho, Vitinho e Kenedy vieram, saindo Willian Arão, Everton Ribeiro e Isla. Já os paranaenses ganharam Khellven e Zé Ivaldo na defesa, suplantando Marcinho e Pedro Henrique. E num lance do lado direito, aos 36, Khellven logo foi expulso. O garoto acertou uma solada em Ramon e, depois da revisão, Wilton Pereira Sampaio resolveu mudar o amarelo para o vermelho.

Com um a mais, o Flamengo ia para o tudo ou nada, sem muita organização. A pressa era inimiga da precisão e os muitos cruzamentos não davam resultado. Além disso, a equipe se mostrava irritadiça, com alguns entreveros em campo. Santos só voltou a trabalhar aos 43, segurando sem dificuldades um chute prensado de Bruno Henrique. E a pá de cal veio aos 44, num contra-ataque cirúrgico contra uma recomposição inexistente, para o terceiro gol do Athletico. Zé Ivaldo fez uma jogadaça, ao roubar a bola, limpar a marcação e ainda lançar Pedro Rocha de trivela. Depois do giro do atacante, o zagueiro estava na área para receber o passe e finalizar sua obra com um tapa. Nos acréscimos, deu tempo para Santos aumentar sua coleção de defesas, ainda parando Andreas e Kenedy. Foi, sem dúvidas, um dos protagonistas da noite inesquecível aos athleticanos.

Depois da empolgação em relação a Renato Gaúcho, o Flamengo vê as críticas feitas mesmo nas vitórias se tornarem pesadelos. O treinador foi xingado nos minutos finais do Maracanã, enquanto a torcida ainda gritou “Mister”. Os problemas dos flamenguistas, de qualquer forma, foram bem evidentes nesta quarta. O meio-campo não existiu em vários momentos, a posse de bola foi um problema no primeiro tempo e a zaga permanece frágil. A pressão poderia ter gerado uma reação na segunda etapa, mas a equipe também esbarrou num grande goleiro. E vários dos protagonistas atuaram abaixo.

O Athletico Paranaense, sem ter nada a ver com isso, conquista uma classificação merecida. O Furacão já tinha sido melhor em seu plano de jogo na Baixada e mostrou como o gol de empate no fim não atrapalhou a equipe no Maracanã. As virtudes rubro-negras se repetiram, com uma marcação muito viva, um contragolpe feroz e uma defesa que soube se fechar. Vale destacar ainda Santos e Nikão, símbolos desse período histórico dos athleticanos. Enquanto o ponta marcou os dois gols que valeram a classificação, o goleiro se manteve instransponível. Assim como na semifinal da Copa do Brasil, acabaram como heróis. E dão a chance dos paranaenses recobrarem suas duas grandes glórias recentes, repetindo as finais da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil em poucas semanas. É um feito gigante.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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