Copa do Brasil

O duelo pela Copa do Brasil resgata uma coleção de semifinais históricas entre Corinthians e Fluminense

O Corinthians se deu melhor nas semifinais do Brasileiro em 1976 e 2002, mas o Flu rumou ao título após eliminar os alvinegros em 1984

Corinthians e Fluminense se encaram numa semifinal de Copa do Brasil bastante simbólica. Os dois times já se cruzaram outras vezes pelo torneio nacional, mas nunca numa fase tão aguda. E o embate de 2022 rememora outras grandes semifinais já disputadas pelas duas equipes. Foram três duelos em semifinais do Campeonato Brasileiro, de 1976 a 2002. Os corintianos se deram melhor duas vezes, incluindo na célebre invasão ao Maracanã em 1976. Em compensação, a única vitória tricolor foi aquela que impulsionou o time ao troféu do Brasileirão, com a conquista de 1984.

O histórico entre Corinthians e Fluminense já era amplo em 1976, da final da Copa Rio de 1952 a inúmeras edições de Rio-São Paulo, depois do Robertão. Ainda assim, aquele embate pelo Brasileirão era bastante especial. O Flu trazia sua célebre Máquina Tricolor, bicampeã estadual, encabeçada por Rivellino, antigo ídolo alvinegro. Já os corintianos atravessavam a ansiedade pelo fim de seu jejum. Por ter a melhor campanha, o Fluminense ganhou o direito de disputar o jogo único da semifinal no Rio de Janeiro. Entretanto, a massa do Corinthians que pegou a Dutra naqueles dias tratou de transformar o Maraca em sua própria casa, com mais de 50 mil presentes.

Era um Fluminense estelar que trazia jogadores de seleção em quase todas as posições. Rivellino, Carlos Alberto Torres, Gil, Dirceu, Doval, Rodrigues Neto e Edinho compunham a constelação tricolor. O técnico Mário Travaglini ainda precisou lidar com o desfalque de Paulo César Caju. Já o Corinthians tentava se reerguer com vários dos heróis que tirariam o clube da fila em 1977. Nomes como Wladimir, Zé Maria, Tobias, Vaguinho, Geraldão, Romeu, Basílio e Givanildo entraram em campo na histórica tarde. Duque era o comandante alvinegro.

A história da partida girou mesmo ao redor da torcida do Corinthians. Em campo, o futebol não agradou muito durante o empate por 1 a 1, com o gramado prejudicado pela forte chuva. O Fluminense saiu em vantagem no primeiro tempo, num cruzamento de Gil para o desvio de Carlos Alberto Pintinho. O Corinthians pressionou pelo empate e conseguiu antes do intervalo, numa acrobacia de Russo após cobrança de escanteio. Um lamaçal se formou no campo a partir da segunda etapa, com o temporal que caía no Rio de Janeiro. A igualdade prevaleceu também na prorrogação, até que a decisão fosse para os pênaltis.

O goleiro Tobias se consagrou como herói naquela disputa, ao defender as cobranças de Rodrigues Neto (duas vezes, inclusive depois que o árbitro mandou voltar) e Carlos Alberto Torres. Coube ao ídolo Zé Maria fechar a contagem para o Corinthians. A vitória por 4 a 1 botou os corintianos na decisão contra o Internacional. Dentro do Beira-Rio, porém, a invasão não se repetiu e os colorados terminaram com o troféu. De qualquer maneira, aquela semifinal contra o Fluminense faz parte da mística alvinegra e serviria de marco também ao fim da seca que se aproximava, com a conquista do Paulistão em 1977.

Foram oito anos até que Corinthians e Fluminense se reencontrassem numa semifinal de Brasileiro, em 1984. E os dois times tinham suas credenciais. Os paulistas vinham de um bicampeonato estadual, enquanto os cariocas selariam também um bicampeonato meses depois. Os tricolores vinham embalados por uma campanha melhor nas fases anteriores, incluindo uma goleada por 5 a 0 sobre o Coritiba nas quartas de final. Já os corintianos foram os responsáveis por encerrar a busca do Flamengo pelo tricampeonato nacional.

Carlos Alberto Parreira dirigia uma equipe fortíssima do Fluminense, que mesclava talentos de diferentes gerações. Jovens como Branco e Ricardo Gomes despontavam na defesa, com Paulo Victor no gol. Já na frente, Washington e Assis formavam a célebre dupla, acompanhados pela maestria de Romerito. O Corinthians trazia uma base também repleta de jogadores de Seleção, além dos membros da Democracia Corintiana. Sócrates, Wladimir, Casagrande, Zenon, Biro-Biro, Carlos e Juninho compunham uma base bastante forte. Jorge Vieira era o comandante.

A primeira partida aconteceu no Morumbi. O Fluminense teria a sua vingança, com a vitória por 2 a 0. O primeiro gol saiu no fim do primeiro tempo, em falta cobrada por Romerito para a área que Assis desviou de cabeça. Já no segundo tempo, o Flu aproveitou o espaço para contra-atacar e acelerou na frente. O segundo tento viria com Tato, aos 36, num rebote após chute de Washington. O resultado dava uma tranquilidade imensa para o reencontro no Maracanã, já que a melhor campanha permitia que os tricolores pudessem perder em casa por dois gols de diferença.

O empate por 0 a 0 bastou para selar a classificação do Fluminense. A equipe dirigida por Parreira administrou o resultado e foi mais eficiente, embora não tenha impressionado como na partida de ida. O Corinthians demorou a engrenar e não levou tanto perigo à meta de Paulo Victor. Carlos seria mais exigido ao longo do duelo, embora o zero se mantivesse no placar. De saída rumo à Fiorentina, Sócrates teve uma melancólica despedida da torcida corintiana. Já os tricolores aguardariam um feito maior, concretizado na decisão contra o Vasco. Pela primeira vez em 14 anos, o Flu voltava a celebrar um título nacional, o primeiro desde o Robertão de 1970.

Por fim, o tira-teima entre Corinthians e Fluminense aconteceu em 2002, na última edição dos mata-matas do Brasileirão. Os corintianos vinham de tempos mais abastados, com um bicampeonato nacional recente e também o título do Mundial de Clubes, embora o investimento tivesse minguado nos meses anteriores. O Flu tratava a competição como um momento de reconstrução, depois dos malfadados rebaixamentos e da passagem pela Série C antes da virada do século.

Campeão da Copa do Brasil naquele ano, o Corinthians fazia uma campanha superior no Campeonato Brasileiro, atropelando o Atlético Mineiro nas quartas de final. Carlos Alberto Parreira agora estava na casamata alvinegra, num time que reunia destaques como Fábio Luciano, Kléber, Vampeta, Gil, Guilherme e Deivid. Já o Fluminense avançou aos mata-matas no limite e depois passou pelo São Caetano, algoz na Copa João Havelange dois anos antes. Romário era a estrela da equipe que ainda contava com Magno Alves, Roni, Beto e Marcão. Renato Gaúcho era o treinador.

Sob um calor escaldante, o Fluminense venceu a partida de ida no Maracanã, por 1 a 0. O Corinthians levava perigo e, numa cobrança de falta de Kléber, acertou a trave. O Flu demorou a engrenar, mas contou com o poder de fogo de Romário no segundo tempo. Depois de um cruzamento da direita, Roni deu um lindo desvio de calcanhar e o Baixinho fuzilou dentro da área. No fim, os corintianos ainda poderiam ter empatado num pênalti. Guilherme encheu o pé e carimbou o travessão. O empate bastaria aos tricolores no reencontro do Morumbi, mas uma vitória simples classificaria os alvinegros pela melhor campanha. Foi o que aconteceu.

O reencontro terminou com uma eletrizante vitória do Corinthians por 3 a 2. E o Fluminense saiu em vantagem, aos 21, quando Roni aproveitou um vacilo da marcação. Entretanto, os tricolores perderam o lesionado Romário e logo viram a reviravolta se iniciar no Morumbi. O empate saiu aos 36, numa cabeçada potente de Gil. Já a virada aconteceu aos 13 do segundo tempo, numa linda tabela entre Gil e Kléber, até que o passe chegasse limpo para a conclusão de Guilherme. Guilherme seria mesmo o herói da noite, ao fazer o terceiro aos 31, oportunista na área para definir o passe rasteiro. O último sinal de vida do Flu aconteceu outra vez com Roni, aos 39, mas nada suficiente para evitar a eliminação.

As lembranças do Corinthians naquele Brasileirão não seriam das melhores, com a derrota para o Santos na decisão. Ao menos, os corintianos mantiveram o retrospecto positivo contra o Fluminense em mata-matas depois disso. Passaram nas quartas de final da Copa do Brasil de 2009 e também nas oitavas de 2016. Outra classificação mais recente ocorreu nas quartas de final da Copa Sul-Americana de 2019. A chance de revanche chega ao Flu mais uma vez, agora numa ocasião mais grandiosa.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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