Copa do Brasil

O caminho do bem (é racional)

Consagrada como “o caminho mais curto para a Libertadores”, a Copa do Brasil viveu uma certa crise existencial depois que os clubes classificados para a principal competição sul-americana começaram a desfalcá-la. Para os times de pequeno porte, seguia sendo a chance de aparecer para o país inteiro e receber a visita de adversários respeitados e tradicionais. Os médios, na verdade potências regionais com limitações financeiras para concorrer com equipes de mercado mais aquecido, também lucravam com isso, mas viram aumentar a expectativa de aprontar para cima dos grandões e alcançar uma conquista em termos nacionais. Já para os grandes, a oportunidade passou a carregar a sombra do embaraço.

Estar fora da Libertadores enquanto o seu grande rival a disputa já é algo de difícil assimilação. Quando passou a haver uma distinção entre os clubes que disputam as duas competições, jogar pela Copa do Brasil servia para passar na cara: você está por baixo. O que, por consequência, gerou aquela obrigação chata de conquistá-la, já não bastasse o compromisso antigo de não sucumbir a nenhuma zebra nas primeiras fases do torneio. E quando o título vinha, por mais que se comemorasse, não havia aquele olhar respeitoso do adversário. Por mais estranho que pareça, a abstrata vaga em outra competição reluzia mais do que o concreto troféu que se juntava à coleção. Era, por assim dizer, a mesma sensação de ganhar um Pré-olímpico.

Óbvio que havia festa e que se sentia orgulho. Mas a comemoração do torcedor e do dirigente era sempre com o olhar no futuro (lembram do “Projeto Tóquio?”), o festejo era por ter sido convidado para outra festança, mais rica e badalada. Ironicamente, para o grupo de jogadores, o dever parecia cumprido e a equipe passava a brincar no Brasileirão (PORTALUPPI, Renato. 2008), sem nem pensar em aproveitar o momento para tentar a dobradinha. Uma bela exceção foi o Vasco, personagem também de outro expediente recente do torneio: devolver a um clube a sua grandeza. Foi parecido com o Corinthians, que também havia passado há pouco pela Série B. Ambos viviam um momento de restruturação. Para eles, a vitória na Copa do Brasil era uma parada, não o destino final, o que provaram com bons desempenhos nos grandes torneios que se seguiram.

Há também o caso do Santos, que não andava por baixo, mas teve no torneio a afirmação de uma geração talentosa, que já preparava terreno para conquistar a América no ano seguinte. E o Palmeiras? Até foi rebaixado, mas o trauma não é nada recente, a equipe já se assentou na Série A sem maiores problemas. Mas não tem uma restruturação em andamento, nem jovens craques prestes a desabrochar. Não é uma equipe preparada para brigar pelo Brasileirão, muito menos pela Libertadores. Para o Palmeiras, a Copa do Brasil era pura e tão somente a chance de voltar a ser vencedor. Talvez por isso, a comemoração tenha sido tão mais sincera na hora que o título veio.

Todos vivem de títulos (até o Corinthians, senhores marqueteiros). O palmeirense precisava voltar a sentir o sabor de ser campeão. Não da boca para fora, como o torcedor do time que vive ótima fase e quer sempre mais, mas do estômago embrulhado para dentro. Teve de lidar com as trapalhadas de uma diretoria que transformou os bastidores do clube na mais escrachada sitcom do futebol brasileiro (posto recentemente perdido para o Flamengo da tresloucada Patrícia Amorim, já que o humor involuntário de Juvenal Juvêncio ainda é um tanto chapliniano). Teve de ver os rivais ganhando tudo. Teve de lidar até com uma humilhante simpatia por parte de alguns adversários. Da próxima vez em que levantarem uma taça, não querem receber os parabéns simpáticos de seus amigos tricolores ou alvinegros. Querem que eles virem a cara e evitem o assunto no dia seguinte. Querem voltar a despertar raiva, por que não?

Isso tornou o triunfo mais doce. Mas passada a celebração e varrido o confete do chão, as obrigações são maiores do que as dos últimos campeões do torneio. Tirando Marcos Assunção, Barcos, Henrique e mais um ou outro (quem quiser que se engane com o Valdívia, mas eu não recomendo), a equipe ainda não está à altura do Palmeiras. Felipão mostrou que ainda é muito copeiro e tem boas sacadas, como a de transformar o bom zagueiro em excelente volante, mas já não consegue mais montar um grande time baseado apenas em seu carisma, experiência e entrega. O alviverde recebe uma bolada de direitos televisivos e patrocinadores, precisa gastá-lo melhor e se reforçar direito.

Porque mesmo a vaga na Libertadores sendo só um detalhe quando comparada ao desabafo e à desforra de voltar a ser campeão, agora surge a grande oportunidade de montar um grande time e fugir de nova má fase. A Arena Palestra sairá do papel e o centenário do clube se avizinha, conspirando para uma maior geração de riquezas. Só que para tal, o clube deve ser bem administrado, o que não acontece desde que a turma dos laticínios recolheu suas vaquinhas. É ótimo que o caminho mais curto para a Libertadores tenha coincidido com o trecho final de um longo trajeto à procura da felicidade perdida. Mas se quiser acreditar em atalhos, o Palmeiras corre o risco de ir parar em outra estradinha de terra perdida no meio do nada. Melhor não. Com um largo sorriso no rosto, o palmeirense voltou a pegar gosto por essa coisa que é andar em círculos, desde que numa volta olímpica.

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Equipe Trivela

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