Copa do Brasil

O 4 de Julho inflige a zebra contra o São Paulo e conquista uma das vitórias mais significativas do Piauí na história da Copa do Brasil

Num jogo em que os erros da defesa tricolor e da arbitragem ajudaram, o 4 de Julho vai para o Morumbi com a vantagem do empate

O 4 de Julho já fazia uma campanha notável na Copa do Brasil, dentro dos parâmetros do futebol piauiense. Ao eliminar o Cuiabá, o clube de Piripiri se tornou o primeiro representante de seu estado na terceira fase da competição em 20 anos. E mesmo que o São Paulo tenha pintado no caminho dos colorados, o modesto time não perderia a oportunidade: nesta terça, registrou aquela que pode ser considerada uma das maiores vitórias do Piauí na história do torneio. Em Teresina, o 4 de Julho não se intimidou com os reservas tricolores e venceu por 3 a 2. Triunfo cheio de emoção no Estádio Albertão, já que os são-paulinos viraram o placar e os colorados buscaram o prejuízo para arrancar o resultado. A arbitragem ruim, porém, também teve sua influência clara no marcador. Ainda tem a volta no Morumbi durante a próxima semana, mas esse é um resultado marcante ao interior piauiense.

Dentre os sobreviventes na Copa do Brasil, o 4 de Julho é exatamente o time de pior ranking. Ocupa o modestíssimo 194° lugar no Ranking da CBF, 87 posições abaixo do Cianorte, o segundo pior. Parecia o adversário predileto à maioria dos adversários no Pote 1 do sorteio dos 16-avos de final. Quem viu as fases anteriores da competição, porém, sabia como os colorados podiam complicar. A equipe iniciou sua jornada desbancando o Confiança, um adversário de Série B. Depois, eliminou nos pênaltis o Cuiabá, recém-promovido à Série A. Estava claro como a viagem ao Piauí poderia guardar seus perigos. Foi o que o São Paulo experimentou.

A Copa do Brasil representa uma imensa oportunidade ao 4 de Julho. Depois do título estadual em 2020, o primeiro em nove anos, o clube disputou a fase de grupos da Copa do Nordeste e garantiu seu lugar na Série D de 2021. Mas, apesar do calendário cheio, as duas competições não pagam as fortunas presentes na Copa do Brasil. Não seria a terceira colocação no último Campeonato Piauiense que impediria os colorados de lutarem diante do São Paulo. Afinal, apenas as premiações nas duas primeiras fases representavam R$1,7 milhão a mais na conta, suficientes para bancar um ano da folha de pagamentos num clube cujos gastos mensais não passam dos R$140 mil. O milagre diante do Tricolor poderia trazer mais.

Os primeiros minutos no Estádio Albertão pareciam tensos ao 4 de Julho, que não se encontrou em campo. Mas a sorte sorriria aos dez, com um gol contra que permitiu aos colorados saírem em vantagem. Após o escanteio cobrado, Rômulo cabeceou e Lucas Perri espalmou, mas a bola bateu em Orejuela e acabou entrando. O time até ganhou confiança, arriscando chutes de longe. Mas a reação dos reservas do São Paulo não demorou. Aos 22, Eder aproveitou o passe de Shaylon para finalizar por cima do goleiro Jaílson. A virada não tardaria, com o próprio Eder anotando o segundo aos 30. Depois do cruzamento de Welington, o veterano aplicou um drible desconcertante sobre Jaílson para guardar. Até parecia o fim do sonhos aos piauienses.

O São Paulo mandaria uma bola no travessão, com Hernanes, mas o 4 de Julho renasceu no fim do primeiro tempo. Dudu Beberibe já tinha dado calor, até que o gol de empate viesse nos acréscimos. Depois de mais um erro de Orejuela, Gilmar Bahia apareceu livre para aproveitar a sobra e marcar – numa jogada em que, entretanto, estava impedido. Sem VAR nesta etapa da Copa do Brasil, a arbitragem errou. Naquele momento, até pela maneira como os gols tinham vindo, o empate parecia suficiente aos colorados. Tanto é que o próprio perfil do clube no Twitter brincou pedindo para que o jogo acabasse ali mesmo. Mal sabiam eles que o melhor estava por vir em Teresina.

O segundo tempo voltou amarrado, com muitas paralisações e atendimentos médicos. O 4 de Julho parecia satisfeito em segurar o empate e contou com o goleiro Jaílson. Herói contra o Cuiabá, ele realizou ótima defesa no mano a mano com Eder aos 16. E a virada colorada sairia aos 21. Em mais um lance de bola parada, a defesa são-paulina estava desatenta e permitiu que Rômulo completasse de cabeça, encobrindo Lucas Perri. A partir de então, a pressa era tricolor.

O São Paulo teve suas chances e não acertou o pé. Pior, dependeu de Lucas Perri para evitar o quarto gol do 4 de Julho, num arremate forte de Kaká – em outro impedimento que a arbitragem não deu. Hernán Crespo também economizou nas alterações e a pressão do fim não resultou em tantos lances de perigo aos tricolores. Quando Galeano achou que tinha garantindo o empate nos acréscimos, todavia, o assistente marcou impedimento. Mais uma vez errou e custou o resultado aos paulistas, que precisarão buscar o prejuízo no Morumbi.

O São Paulo está no direito de se queixar da arbitragem, mas, numa fase da competição sem auxílio do vídeo, o futebol fica ainda mais suscetível aos erros. E o Tricolor também precisa de sua dose de autocrítica, numa atuação insuficiente de seus reservas e de erros em excesso na zaga. Não é isso, de qualquer forma, que tira os méritos do 4 de Julho. Dentro de suas limitações, o clube de Piripiri fez muito. Conseguiu aproveitar as brechas e contou com um tanto de sorte, ainda que tenha trabalhado para construir o resultado. Responsável por conquistar o acesso do Altos na Série D passada, Fernando Tonet armou uma boa estratégia ao seu time, que deu resultado principalmente pela força nas bolas paradas.

Considerando as diferenças entre os times, o natural é o São Paulo conquistar a classificação no Morumbi. Porém, o 4 de Julho já demonstrou ter coragem o suficiente para surpreender. Vai ser difícil repetir o feito do Flamengo do Piauí em 2001, único clube do estado a alcançar as oitavas de final da Copa do Brasil. Mas esse 3 a 2 sobre o São Paulo compete com o Cori-Sabbá 1×0 Botafogo de 1996, com o Flamengo 2×0 Sport de 2000 e com o River 2×1 Botafogo de 2008 como maior triunfo do futebol piauiense na história da competição nacional.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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