História de muitos gols: Corinthians e Fla já fizeram um 4×4 que sequer acabou por causa da neblina
O confronto entre Corinthians e Flamengo possui uma média de três gols por jogo, com um festival de tentos especial em 1945

Corinthians e Flamengo possuem um histórico de muitos gols no confronto. Em 146 partidas entre as duas equipes, 439 gols foram marcados, numa média excelente de mais de três tentos por jogo. Os números dilatados do passado auxiliam bastante nessa conta, com goleadas comuns para os dois lados. E um dos duelos mais malucos sequer chegou ao final. Em 1945, flamenguistas e corintianos fizeram um cotejo de oito gols no Pacaembu. Os alvinegros abriram 4 a 1 no placar, mas os rubro-negros buscaram para 4 a 4 no início do segundo tempo. E a impressão era de que o marcador poderia ter sido ainda maior, não fossem as condições limitadas pela neblina. A cerração tomou conta do gramado pouco depois do quarto gol do Fla e provocou o encerramento precoce daquele amistoso. Tempos de muitas feras em campo, de Zizinho e Jayme entre os cariocas, além de Cláudio e Domingos da Guia entre os paulistas.
Flamengo e Corinthians se enfrentaram pela primeira vez em 1918, no antigo Estádio da Rua Paissandu, onde os rubro-negros mandavam seus jogos na época. Melhor para os paulistas, que venceram por 2 a 1. Houve um reencontro com vitória corintiana por 2 a 1 no Parque Antárctica em 1920, antes de mais dois embates em 1925, com um 3 a 0 dos paulistas no Parque Antárctica e um 1 a 0 dos cariocas na Rua Paissandu. Depois disso, foram 13 anos sem novos duelos, até que o Fla visitasse o Parque São Jorge em 1938 e ganhasse por 3 a 1. Isso até que os jogos se tornassem mais frequentes na década de 1940.
O primeiro embate oficial ocorreu pelo Torneio Rio-São Paulo de 1940, com vitória do Flamengo por 3 a 1 em Laranjeiras, tarde de dois gols de Zizinho. O intercâmbio entre clubes paulistas e cariocas se tornava maior, enquanto a inauguração do Pacaembu também se tornava um atrativo, com a realização de competições amistosas. Foram dois encontros no recém-inaugurado estádio em 1941, com vitória do Flamengo por 1 a 0 em setembro e um maluco 5 a 4 para o Corinthians em dezembro. Em março de 1942, as duas equipes empataram por 1 a 1, antes que o Fla anotasse 4 a 2 em outubro do mesmo ano. Eram tempos relevantes para as duas equipes: enquanto os corintianos vinham de um bicampeonato estadual, os flamenguistas acabavam de iniciar o seu primeiro tri.
Já em 1944, Flamengo e Corinthians acertaram uma série de três partidas. Seriam jogos amistosos no Pacaembu, cuja renda auxiliaria a transferência do maior defensor do futebol brasileiro até então: Domingos da Guia trocava o Rio de Janeiro por São Paulo. Aos 32 anos, o Divino tinha sido um dos pilares no tricampeonato carioca rubro-negro e se colocava como um personagem histórico no clube após sete anos de serviços prestados. Já estava se encaminhando para o fim da carreira, mas se marcaria como ídolo alvinegro, por mais que o time vivesse uma seca no Paulistão. O primeiro duelo seria eletrizante, em fevereiro de 1944, com uma vitória corintiana por 3 a 2 arrancada no último minuto. Duas semanas depois, os corintianos ganharam por 4 a 2.
O terceiro encontro da sequência aconteceu apenas em junho de 1945. Domingos da Guia mais uma vez era atração na zaga do Corinthians, ao lado de Begliomini no setor. No entanto, os alvinegros também estavam bem servidos no setor ofensivo, com ídolos históricos como Cláudio e Servílio. O Flamengo mantinha a base tricampeã estadual, mas já perdendo destaques. Zizinho era a estrela da companhia, municiando um ataque que contava com outras figuras de relevo como Sylvio Pirillo e Jarbas. Jayme de Almeida e Bria davam sustentação mais atrás, enquanto Jurandyr e Newton Canegal eram outros protagonistas na defesa. No papel, os flamenguistas eram até mais fortes que os corintianos.
O Flamengo não tinha começado bem o Campeonato Carioca de 1945, mas vinha em grande forma nas partidas recentes. Gerava expectativas no público paulista, especialmente depois de golear o Fluminense por 7 a 1 pouco antes. Já o Corinthians também acumulava seus tropeços no Campeonato Paulista, mas sustentava uma sequência de goleadas mais recente, incluindo um 7 a 1 sobre o Jabaquara. Também empataria por 2 a 2 o Dérbi contra o Palmeiras. Os alvinegros tentavam perseguir o São Paulo. Por mais que não fosse o momento mais forte de ambos os clubes, ambos se faziam respeitáveis.
A partida não pôde acontecer na data marcada. A forte chuva em São Paulo impediu que a bola rolasse em 20 de junho. Com isso, o embate acabaria transferido para o dia seguinte. Entretanto, não que o Pacaembu estivesse livre dos problemas. O inverno se iniciava e a neblina seria bastante intensa na capital paulista – o que também afetou a presença do público.
Era um início de partida lá e cá, até que o primeiro gol saísse aos 12 minutos, para o Corinthians. Claudio cruzou da direita e Servílio completou de cabeça, contando com a falha do goleiro Jurandyr. Os alvinegros se animaram e ampliaram aos 23. Desta vez quem cruzou foi Ruy, para Cláudio aparecer na área e finalizar de primeira. E os rubro-negros desmoronavam, com o terceiro corintiano no ataque seguinte, agora num tiro cruzado de Ruy no alto da meta. Somente depois disso é que os flamenguistas acordaram.
O Flamengo passou a forçar a defesa do Corinthians, com seguidos escanteios. A pressão aumentou bastante, até que o primeiro gol dos cariocas surgisse aos 31 minutos. Bria soltou a pancada, o goleiro Bino rebateu e Pirillo conferiu no rebote. O abafa dos flamenguistas continuou até o intervalo, mesmo que Pirillo tenha saído, dando lugar a Vaguinho.
A pausa seria bem-vinda para dar um respiro aos corintianos e auxiliar na mudança de cenário para o segundo tempo. Afinal, logo no reinício, os alvinegros partiram para cima novamente. Cláudio anotou o quarto gol dos anfitriões aos cinco minutos, ao se desvencilhar da marcação e arrematar no alto da meta de Jurandyr. A esta altura, a goleada parecia sacramentada.
O Flamengo renasceu ao jogo na base da ousadia do jovem Vaguinho, numa resposta imediata. O atacante se criou para cima de Domingos da Guia para anotar o segundo gol do time. Aplicou dois dribles seguidos, antes de mandar às redes. O tento animou os rubro-negros e o bombardeio à meta de Bino se tornou maior. Já o terceiro surgiu logo aos oito minutos do segundo tempo. Zizinho apresentou suas credenciais. Foi um belo tento do maestro, que aprontou para cima de Begliomini e mandou às redes. Restava grande parte do segundo tempo e os ares de jogaço tomavam conta do Pacaembu.
O empate do Flamengo, por fim, seria decretado aos 16 minutos da etapa final. O Corinthians se via batido e Bino realizava repetidas defesas. Entretanto, o goleiro não teria o que fazer quando Adílson cruzou para Vaguinho e o centroavante, depois de passar de novo por Domingos, mandou no fundo da meta. Faltava apenas um gol para igualar o recorde de tentos da história do confronto. Sobrava meia hora no relógio para que o festival de tentos aumentasse. No entanto, aos poucos, a neblina foi tornando o embate mais e mais difícil. Se a visibilidade já era ruim para quem estava nas arquibancadas, passou a prejudicar quem estava em campo.
O duelo já estava num ritmo mais baixo quando, aos 34 minutos, o árbitro Jorge Miguel interrompeu o amistoso e decretou os números finais. As duas equipes desejavam que a bola parasse de rolar já antes disso, inclusive com os dirigentes entrando em acordo fora do campo, mas o juiz insistiu um pouco mais. A reta final daquele épico nunca seria disputada, já que o Flamengo logo voltaria ao Rio de Janeiro, com os dois times visando seus compromissos pelas competições estaduais. Ficou o registro, mesmo que parcial, de um dos jogos mais intensos da história de Flamengo e Corinthians.
“A forte neblina que caiu sobre esta capital prejudicou grandemente o desenrolar do grande encontro amistoso entre as equipes do Corinthians e do Flamengo, partida cheia de lances emocionantes, arrancando por vezes aplausos da assistência que compareceu ao majestoso estádio do Pacaembu. O primeiro tempo pôde ser ainda jogado sem a impetuosidade da neblina, o que, entretanto, não aconteceu na fase complementar, em que ela foi inclemente, prejudicando de maneira considerável o belo aspecto do jogo”, comentaria o jornal O Globo, no dia seguinte, sob a manchete “Empatou o Flamengo em sensacional reação”.
Já o Jornal dos Sports relataria: “O Flamengo conseguiu hoje um empate frente ao Corinthians que pode ser considerado como uma autêntica vitória, pois o tricampeão carioca, depois de estar perdendo por 4 a 1, foi à frente e, a golpes de audácia e entusiasmo, logrou igualar a contagem, quando tudo parecia perdido e por um score alarmante. A peleja desta noite teve um transcurso interessante, prevalecendo, entretanto, as duas ofensivas que tiveram atuação superior às defesas, como aliás bem justifica o placard. Houve muito ardor nos dois quadros e a luta transcorreu num ambiente cordial, a despeito de sua movimentação”.
Corinthians e Flamengo ficaram quatro anos sem se encarar, até que a década de 1950 voltasse a promover vários jogos por causa do Torneio Rio-São Paulo. Tempos de novos bailes, com os rubro-negros aplicando 6×2, 4×0 e 5×1 até o fim da década, mas também 7×2, 6×0 e 5×1 para os corintianos em menos de dez anos. Números que explicam uma média de gols tão alta no confronto. Mas nunca mais com a emoção e o equilíbrio que o Pacaembu presenciou em 1945.



