Há 30 anos, num torneio repleto de surpresas, o Flamengo levantava sua primeira Copa do Brasil
Há exatos 30 anos o Flamengo segurava um 0 a 0 diante do Goiás em um Serra Dourada com mais de 45 mil torcedores e levantava a primeira de suas três taças da Copa do Brasil. A conquista do torneio, marcado pela imprevisibilidade tanto dentro quanto fora de campo, salvou a temporada um tanto apática dos rubro-negros e ajudou a cicatrizar a ausência de Zico, que se despedira de maneira oficial do clube no início daquele ano. E também ajudou na afirmação de alguns nomes que seriam importantes na próxima conquista nacional, o Brasileirão de 1992.
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Ao contrário dos dias atuais, quando é visto como empolgante para os torcedores, visado pelos clubes e tachado de “caminho mais curto para a Libertadores”, o torneio tinha pouco prestígio em seus primeiros anos. Tanto que esta edição de 1990 começou na pior das horas, em meio à Copa do Mundo da Itália. Caótica em termos de datas, com os times jogando quando havia alguma brecha no calendário, a competição se estendeu de junho a novembro, atravessando também as fases finais dos estaduais e parte do Campeonato Brasileiro.
Mas quem levou o torneio a sério chegou longe. Numa era em que apenas os campeões estaduais e alguns vices dos principais estados (totalizando 32 equipes) disputavam a Copa do Brasil, três clubes fora dos principais centros e que na época começavam a se destacar em competições nacionais mereceram destaque: Goiás e Criciúma fizeram ótimo papel ao derrubarem gigantes. O Náutico também fez bonito ao chegar à semifinal. Mas o título ficou mesmo com o Flamengo, que conquistou a taça com sobras, de maneira invicta e merecidamente.

A conquista serviu também para trazer alento em um ano complicado para o clube. Depois de se ver fora da fase final de um Estadual pela primeira vez em dez anos e amargar a quarta colocação sem ter vencido nenhum clássico, o Fla teria que lidar com algumas perdas: Zico se aposentara. O meia Edu Marangon, ex-Portuguesa, trazido para vestir a 10, sentiu o peso e fez um Carioca tão pálido quanto o time, deixando a Gávea ao fim do torneio. Logo depois foi a vez de Leandro perder a batalha contra os problemas nos joelhos e também pendurar as chuteiras.
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Júnior havia pensado no mesmo, mas felizmente desistira. Porém, não cumpriu uma temporada tão fulgurante como seriam suas duas seguintes. Ainda não era o “Vovô Garoto”. Dirigido desde maio por Jair Pereira e várias vezes reformulado ao longo da temporada, o elenco se dividia basicamente entre a molecada campeã da Copa São Paulo em janeiro procurando um lugar no time e jogadores trazidos de equipes menores ou veteranos em busca de novos ares, mas os dois últimos quase sempre sem muita identificação com o clube.
O líder do grupo era Renato Gaúcho, maior salário do futebol brasileiro, rebelde, falastrão, temperamental, mas que vivia momento mais solidário: era quem comprava as brigas dos colegas em decisões questionáveis da diretoria, quase como um capitão sem braçadeira. Era uma química estranha – tão estranha quanto a presença de Francisco Horta, ex-presidente do Fluminense, no cargo de gerente de futebol rubro-negro – e que nem sempre funcionava, mas que teve nesse torneio seu momento mais marcante e vitorioso.
A estreia, porém, foi marcada pelo desinteresse por vários motivos. O time vinha em baixa após a eliminação no Estadual e estava desfalcado de Renato e do goleiro Zé Carlos, ambos na Itália com a Seleção de Sebastião Lazaroni. O jogo de ida contra o desconhecido Capelense (campeão alagoano surpreendente ao desbancar o duopólio CSA-CRB) foi marcado para o distante estádio banguense de Moça Bonita, numa noite de quinta-feira, 21 de junho, dia seguinte à vitória magra do Brasil sobre a Escócia pela primeira fase da Copa do Mundo.
Assim, apenas 188 torcedores (menor público da história do clube em jogos oficiais) se prestaram a comparecer para assistir ao duelo. Viram um Fla com novidades. O goleiro reserva Zé Carlos Paulista ocupava o posto na ausência do xará carioca e dois reforços estreavam: o lateral-direito Zanata, ex-Bahia e Palmeiras, e o zagueiro Vítor Hugo, trazido do Guarani numa troca pelo ponta Sérgio Araújo. E era também um Flamengo estranhamente armado com três zagueiros diante do modesto adversário. Mas a goleada rubro-negra veio sem muito esforço.
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O Flamengo foi para o intervalo vencendo por 1 a 0 com gol de cabeça de Gaúcho – consagrado artilheiro do Estadual, mesmo com os rubro-negros de fora das finais. O Capelense até ensaiou uma zebra empatando no início da etapa final num chutaço de Norinho cobrando falta. Mas logo o Fla deslanchou: Gaúcho fez mais dois e os laterais Leonardo e Zanata completaram o placar de 5 a 1. Na época, porém, não havia jogo único no torneio, nem mesmo a possibilidade de eliminar o jogo de volta vencendo por dois gols de diferença na casa do adversário.

Com isso, duas semanas depois, o Fla foi ao interior alagoano para confirmar a vaga com outra vitória tranquila no Estádio Manoel Moreira, em Capela (AL). Zinho abriu o placar no primeiro tempo e ampliou na etapa final, antes de Alcindo e Marcelinho fecharem os 4 a 0. Surpresas mesmo foram as vitórias do Goiás sobre o Cruzeiro (com direito a um 4 a 0 no Serra Dourada) e do Criciúma sobre o Internacional (devolvendo a derrota por 1 a 0 no Beira-Rio com um 2 a 0 em Santa Catarina). Ainda se ouviria falar muito destes dois times na competição.
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Nas oitavas de final, já não haveria mais a concorrência das atenções com o Mundial. A Copa da Itália havia se encerrado há dois dias quando o Flamengo pisou o gramado da Gávea para receber o brasiliense Taguatinga – mais uma surpresa da fase anterior ao eliminar o Vitória, bicampeão baiano, vencendo ambas as partidas por 1 a 0. Mesmo mal na criação, o time de Jair Pereira desperdiçou inúmeras chances (Gaúcho bateu um pênalti para fora) e só conseguiu abrir a contagem no fim do primeiro tempo em chute cruzado de Leonardo.
Na etapa final, Gaúcho se reabilitou e marcou de cabeça, após cobrança de escanteio, fechando o placar em 2 a 0. Insatisfeito com o rendimento do meio-campo, no qual o garoto Djalminha – que brilhara na Copa São Paulo de juniores – não conseguia mostrar dinamismo e objetividade para municiar o ataque, Jair Pereira pedia reforços. A sombra de Zico ainda pairava sobre o setor. Nesse sentido, o clube sondava o meia-armador boliviano Ramiro Castillo, do Argentinos Juniors, e consultava o São Paulo sobre uma eventual negociação com Raí ou Bobô.
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Renato Gaúcho enfim fez sua primeira participação na campanha na partida de volta, em 15 de julho, no Estádio Serejão. Mas, sem ritmo, teve atuação apenas discreta. Zé Carlos, negociando renovação contratual, foi substituído pelo outro reserva, Neneca. Com Djalminha barrado, sobrou para Zinho vestir a pesada camisa 10, e Alcindo formava o trio ofensivo ao lado da dupla de gaúchos. O jogo não foi melhor do ponto de vista técnico. As duas equipes criaram poucas chances no primeiro tempo, que terminou com placar em branco.
Na etapa final, tanto Taguatinga quanto Flamengo arriscaram mais, e os gols saíram. Aos 36 minutos, Leonardo aproveitou lançamento de Zinho para a área e chutou cruzado, marcando aquele que seria seu último gol em sua primeira (e maior) passagem pelo clube. Precisando de quatro gols, os brasilienses ainda chegaram a empatar aos 43 numa cabeçada do zagueiro Chiquinho, mas era tarde para tentar surpreender. Depois, o Fla deixou o tempo correr até o apito final que confirmou a passagem para as quartas de final.
O próximo adversário seria o Bahia, que havia chegado a aquela etapa após eliminar o Botafogo, campeão carioca e prestes a conquistar o bi dali a algumas semanas. E tinha outras credenciais: havia sido campeão brasileiro um ano e meio antes, feito boa campanha na Libertadores de 1989 e agora se reestruturava para fazer outro bom papel no Brasileiro que começaria no mês seguinte (chegaria às semifinais). Por isso, botava banca: “Derrotar o Flamengo é bem mais fácil que o Botafogo”, afirmava seu presidente Paulo Maracajá.
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Curiosamente, foi a um ex-ídolo do Bahia que o Rubro-Negro recorreu para tentar solucionar seu problema na criação de jogadas: o armador Bobô, cérebro do meio-campo do Tricolor campeão brasileiro de 1988, foi apresentado na Gávea na antevéspera do jogo da ida, na Fonte Nova, juntamente com o lateral-esquerdo Nelsinho, ambos vindos do São Paulo, numa troca – operação bem ao feitio de Francisco Horta – por Leonardo e Alcindo até o fim do ano, arquitetada enquanto os dois clubes estavam no Chile disputando a Taça da Amizade.
Nenhum dos dois reforços, no entanto, entrou em campo nas partidas contra o Bahia. Para o jogo de Salvador, no dia 25 de julho, as únicas novidades eram a volta de Zé Carlos (o titular) ao gol e de Junior, que depois de renovar contrato ficaria no banco de reservas. A decisão gerou pequena celeuma dentro clube, com críticas a Jair Pereira, mas foi bem aceita pelo jogador, que admitiu estar fora de forma. O garoto Piá ocupava a lateral-esquerda e Djalminha voltava a figurar entre os titulares, num meio-campo que ainda tinha Uidemar, Aílton e Zinho.

Na Fonte Nova, o Flamengo fez sua melhor partida não só naquela Copa do Brasil até então, como também em alguns meses. Com atuação segura e convincente, o time abriu a contagem aos 36 minutos quando Zanata (outro ex-Bahia) arrancou pela direita e fez o cruzamento rasteiro para o complemento de Zinho, de pé direito, na segunda trave. Aos 42 minutos, porém, o time da casa empatou em cabeçada de Luís Fernando Flores, encobrindo um adiantado Zé Carlos. Diante de um adversário forte, o empate em 1 a 1 fora de casa era um bom resultado.
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Mesmo assim, a vitória rubro-negra poderia ter vindo se o árbitro pernambucano Aristóteles Cantalice não tivesse anulado gol legal de Gaúcho dois minutos após o tento de empate baiano, ao apitar falta inexistente do centroavante sobre o zagueiro Wagner Basílio. Para completar, perto do fim do jogo o juiz ainda expulsou Renato Gaúcho, após ver uma suposta agressão do ponteiro ao lateral Cléber. O camisa 7 seria desfalque certo na partida de volta, a ser disputada dali a apenas três dias (um sábado), no Estádio Municipal de Juiz de Fora (MG).
No segundo jogo, se Renato era a ausência, Júnior fazia seu retorno entre os titulares contra o Tricolor baiano – único adversário contra quem o rubro-negro decidiu o mata-mata em casa ao longo de toda a campanha. Com o Maracanã reservado para a final do Estadual entre Botafogo e Vasco, que aconteceria no dia seguinte, a partida foi levada para Juiz de Fora, cidade mineira com presença maciça de torcedores dos clubes cariocas. Mesmo assim, aquele confronto de volta foi mais equilibrado que o de Salvador, dominado pelo Flamengo.

Cada time acertou a trave uma vez – Hélio para o Bahia no primeiro tempo, Vitor Hugo para o Flamengo na etapa final. E cada time teve um jogador expulso: o zagueiro tricolor Careca, após entrada dura no atacante Bujica, e o atacante rubro-negro Fernando Cruz (que estreava no time e havia entrado em campo no lugar do próprio Bujica) por acertar um tapa no meia Luís Fernando Flores. Quem selou definitivamente a classificação rubro-negra – já que o 0 a 0 também garantia a vaga – foi outro jogador saído do banco: o volante Aílton.
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A nove minutos do fim, Zinho recebeu passe de Júnior na esquerda e cruzou. Aílton, sacado da equipe titular naquela partida com o retorno do veterano armador, se antecipou a Wagner Basílio e escorou de cabeça, num lance muito semelhante a outro que aconteceria mais adiante no torneio, no mesmo estádio, no mesmo lado do campo. A bola bateu no pé da trave antes de chegar ao fundo das redes. Jair Pereira, por sua vez, celebrava o fato de a equipe começar a ganhar um padrão de jogo. Sem muito alarde, o Flamengo chegava às semifinais.
Muita água rolou no espaço de quase dois meses entre o jogo de volta contra o Bahia e o primeiro das semifinais diante do Náutico, no Maracanã, em 13 de setembro. Enquanto aguardava as arrastadas definições dos outros confrontos da Copa do Brasil (para se ter uma ideia, o já semifinalista Flamengo esperava o vencedor do confronto entre o alvirrubro pernambucano e o classificado no duelo entre Santa Cruz e Remo ainda pelas oitavas de final), o elenco rubro-negro fez uma rápida volta ao mundo em busca de dólares e taças.
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No Japão, na grama sintética do Tokyo Dome, triturou o bom time da Real Sociedad por 7 a 0 na estreia de Bobô e faturou a Copa Sharp. Em Nova Jersey, levantou a Copa Marlboro após vencer a seleção dos Estados Unidos do goleiro Tony Meola e o Alianza Lima, ambos por 1 a 0. E fez ainda dois amistosos na Itália antes de retornar ao Brasil para a disputa do Campeonato Brasileiro. A campanha no início da competição nacional, entretanto, esteve longe de ser boa: apenas dois pontos ganhos (dois empates e duas derrotas) nos quatro primeiros jogos.
Enquanto isso, o lateral-direito Josimar, em baixa, era reintegrado ao elenco após disputar discretamente o Gauchão pelo modesto Novo Hamburgo. E Renato Gaúcho vivia em constante rota de colisão com Francisco Horta (que se referia ao ponta como “meu Frank Sinatra”). Na Copa do Brasil, Goiás e Criciúma voltariam a aprontar eliminando, respectivamente, Atlético-MG e São Paulo – que, por sua vez, havia despachado o atual campeão Grêmio – e agora se pegariam em uma semifinal. Na outra, o Flamengo encararia o Náutico do artilheiro Bizu.
Precisando levar um bom resultado para a volta no Recife e devendo uma boa atuação que varresse as nuvens carregadas no ambiente interno, o Fla partiu para cima e esmagou o campeão pernambucano no único jogo da equipe no Maracanã em toda a campanha. No primeiro tempo, houve até uma bomba de Renato salva dramaticamente em cima da linha por defensor do Timbu. O placar foi aberto aos 28 minutos do primeiro tempo, quando Zanata cobrou falta lateral para a área, o goleiro Celso saiu mal, Rogério acertou a trave e Bobô apanhou o rebote.
Na volta do intervalo, o time ampliou a vantagem depois que o zagueiro Barros cometeu pênalti ao cortar com a mão um cruzamento feito na medida para o cabeceio de Gaúcho. O próprio centroavante converteu com força e categoria. No fim, o jovem zagueiro Rogério ainda marcou um golaço – seu primeiro como profissional – ao receber a bola ainda no campo rubro-negro, ganhar na corrida da defesa, driblar o goleiro e tocar para o gol vazio. Uma grande exibição do time. Pena que testemunhada por apenas pouco mais de três mil torcedores.
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Nem mesmo o técnico do Náutico, Otacílio Gonçalves, acreditava que seu time pudesse pelo menos devolver o placar do Maracanã na partida de volta nos Aflitos, no dia 16 de outubro, e eliminar o Flamengo. De fato, os alvirrubros chegaram a sonhar com o impossível ao abrirem o marcador com apenas 10 minutos de partida num gol do volante Haroldo, após escanteio. Mas quando Djalminha, agora sim brilhando, recebeu de Renato e fez um carnaval na defesa pernambucana para empatar aos 25, o impossível ficou ainda mais distante.
A esperança alvirrubra murchou de vez aos 45, quando Renato também fez seu próprio golaço, com técnica e força, bem ao seu estilo: aberto pela esquerda, enfiou a bola por entre as pernas de um marcador e, imparável, carregou vários defensores antes de chutar na saída do goleiro. No fim do jogo, o atacante Bizu, vice-artilheiro do Brasileirão de 1989, empatou para salvar a honra da equipe da casa e se colocar como o artilheiro isolado daquela Copa do Brasil, com sete gols (o que se confirmaria ao fim do torneio). Mas a vaga na final era rubro-negra.
O Goiás, que vencera nos pênaltis o duelo dos “matadores de gigantes” contra o Criciúma na outra semifinal, era o adversário na decisão. Como trunfos, tinha o lateral-esquerdo Lira, nome cogitado para a Seleção Brasileira do técnico Paulo Roberto Falcão, o talentoso meia Luvanor – de passagem apagada pela Gávea em 1988 – e o ataque formado pelo rápido ponta Niltinho e os goleadores Túlio (artilheiro do Brasileirão de 1989) e Agnaldo. Era uma equipe promissora, vinda de seguidas boas campanhas em torneios nacionais e dirigida por Sebastião Lapola.
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Na Gávea, a conquista valia a salvação do ano, uma vez que a campanha no Brasileiro patinava – estranhamente, naquele ano o aproveitamento rubro-negro como visitante foi superior ao como mandante. A empolgação propalada na chegada da excursão internacional em meados de agosto há muito já desvanecera. Nelsinho durara pouco na lateral-esquerda: fraturou a perna e perdeu a disputa com o prata-da-casa Piá. Na outra ala, Zanata havia sido desbancado por um Aílton improvisado. E Bobô vivia às voltas com lesões, sem conseguir se firmar como camisa 10.
Para piorar, antigos destaques da equipe também vinham em baixa. Zinho, por exemplo, se mostrava bastante aborrecido com a insistência de Francisco Horta em trazer para seu setor o ponteiro Paulinho Carioca (ex-Fluminense e quase descartado no Palmeiras), contrariando os demais dirigentes. O time ainda perdeu o volante Uidemar, peça importante, lesionado na partida contra o Atlético-MG pelo Brasileiro. Mas esse desfalque acabaria rendendo chances a outros jovens campeões da Copinha, como Fabinho e Marquinhos.

Sem o Maracanã, interditado em meados de outubro para vistoria estrutural (algo que se tornaria frequente nos anos seguintes), o Flamengo se mudou de mala e cuia para Juiz de Fora. Pelo Brasileiro, venceu o Fla-Flu (2 a 1) disputado pelo segundo ano seguido na cidade mineira, depois dos 5 a 0 da despedida de Zico em 1989, mas decepcionou com derrotas para São Paulo e Grêmio, ambas por 1 a 0. Bem no meio destes dois revezes, numa tarde de quinta-feira, 1º de novembro, veio o primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil contra os goianos.
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Foi um jogo lento, travado, ríspido, disputado sob forte calor e com o Goiás muito recuado, jogando pelo empate (ou por derrota reversível). Túlio mal foi visto em campo, exceto por uma cabeçada bem longe do gol logo no início. De resto, o Flamengo se sobressaiu quando conseguiu escapar da retranca esmeraldina. E chegou às redes aos 16 minutos da etapa final: o zagueiro Richard fez falta em Piá pela esquerda do ataque rubro-negro. Djalminha alçou com categoria, colocando na cabeça do zagueiro Fernando, que testou para as redes.
No fim, o mesmo Fernando se viu no meio de uma confusão ao se estranhar com o ponta Cacau. Ambos foram expulsos, e a paralisação foi pretexto para o árbitro Renato Marsiglia esticar o segundo tempo até os 51 minutos. Sem maiores efeitos, porém: a vitória rubro-negra e a vantagem do empate estavam asseguradas para a partida de volta. Os esmeraldinos também saíram satisfeitos: para um time que havia sido amplamente dominado na partida, a derrota por apenas 1 a 0 era considerada um placar possível de ser revertido.
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Para a partida de volta no Serra Dourada, na noite de quarta-feira, 7 de novembro, o Goiás estaria desfalcado do lateral-esquerdo Lira, chamado por Falcão para a Seleção que enfrentaria o Chile no Mangueirão, em Belém, no dia seguinte. O Flamengo não teria o zagueiro Fernando, suspenso (o garoto Rogério seria o substituto), e quase não teve o goleiro Zé Carlos, sofrendo de torcicolo. No dia do jogo, porém, ele se recuperou e foi confirmado na equipe, tendo papel fundamental na conquista com uma atuação absolutamente irrepreensível.
Primeiro, ele salvou com os pés uma finalização à queima-roupa de Agnaldo (em posição irregular não assinalada pela arbitragem). Depois, salvou no reflexo um chute de Túlio do bico da pequena área. E nos minutos finais, cresceu novamente diante do mesmo adversário, agarrando a bola sem dar rebote num lance em que o centroavante esmeraldino tentou driblá-lo. Todos esses lances foram no segundo tempo, já que no primeiro a partida transcorreu muito amarrada, concentrada entre as duas intermediárias e repleta de jogadas mais ríspidas.

O Flamengo também teve suas chances no segundo tempo, como o chute poderoso de Renato Gaúcho da entrada da área, numa saída errada do goleiro Eduardo que o zagueiro Richard salvou em cima da linha num carrinho providencial. E chegou a balançar as redes quando Zinho recebeu um passe de Renato no meio da defesa goiana, arrancou, driblou o arqueiro e tocou para o gol vazio. Mas o árbitro Renato Marsiglia anulou marcando impedimento inexistente. No fim, Renato ainda chegou a levar um soco de Niltinho, numa agressão que passou em branco.
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Mas no fim das contas, o Flamengo superou tudo isso. Jogando com inteligência, controlando o meio-campo e tendo em Júnior um jogador para ditar o ritmo da partida, a equipe rubro-negra garantiu o 0 a 0 que lhe dava o título diante de um Goiás que havia marcado nada menos que 14 gols em seus quatro jogos anteriores em casa pelo torneio – e enfrentando adversários do porte de Cruzeiro e Atlético-MG. Desacreditado ao início da competição, o Fla iniciava um novo capítulo de sua história sem perder o rumo das grandes conquistas.
Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.



