Copa do Brasil

Herói na Copa do Brasil, goleiro do Porto Velho conta como superou depressão após perdas na família

Após desabafo na saída de campo da vitória sobre o Remo, Digão relembra momentos difíceis na carreira e ajuda psicológica que mudou sua perspectiva sobre o futebol

O goleiro Digão foi herói na classificação do Porto Velho, clube de Rondônia, pela primeira fase da Copa do Brasil, na última terça-feira (20). Em jogo único contra o Remo, a equipe da capital rondoniense venceu por 1 a 0, em casa, graças à atuação do arqueiro. Na saída de campo, ele fez um desabafo à imprensa, com um choro genuíno. Isso porque a vitória não representou apenas a melhor sensação que o futebol pode oferecer, mas também outro triunfo: superar a depressão após a morte do avô Almir e a perda de um filho.

— A perda do meu avô tem seis ou sete meses mais ou menos. De lá para cá foi muito difícil, porque foi a pessoa que me criou. Eu sempre morei com ele e com a minha avó, então eles fizeram o papel de pai e mãe mesmo. Foi difícil a forma como tudo aconteceu. Num dia, eu voltei de viagem, e ele estava bem em casa. No dia seguinte, ele faleceu. Complicado lidar com isso — revelou o jogador em entrevista à Trivela.

— Alguns meses depois da morte do meu avô, fiquei sabendo que iria ser pai. Como eu nunca tive um pai presente, sempre foi um sonho… Eu queria dar para o meu filho aquilo que eu não tive. Fiquei muito feliz com a notícia. Infelizmente, no decorrer da gravidez, perdemos o bebê. O coraçãozinho só parou. Ali, eu pensei em parar (de jogar). Me questionei: “Será que vale a pena passar por tudo isso e ainda ficar longe da minha família?”.

Digão e o avô, Almir Soares Antunes, à esquerda; familiares do goleiro à direita (Foto: Arquivo Pessoal)

Fé e auxílio psicológico salvaram a vida do goleiro

O pensamento de desistência de Digão foi proporcional ao sofrimento enfrentado durante a depressão pelo luto prolongado. Sem perspectiva ou vontade de viver, ele buscou ajuda psicológica e se reconectou com sua fé.

Eu cheguei a ter depressão, cheguei ao ponto de quase tentar ceifar a minha vida, mas eu tive ajuda. Eu procurei um psicólogo aqui de Porto Velho, com quem conversei muito, e me apeguei mais a Deus. Entendi que não era o momento de parar ou de desistir. Desde então, tem sido um compromisso meu falar sobre cuidar da saúde, principalmente da saúde mental – contou o goleiro.

A reflexão feita pelo goleiro se tornou algo rotineiro. Depois de superar os problemas psicológicos, ficou fácil para ele entender a necessidade do auxílio profissional, que o “abriu a cabeça” para um assunto muitas vezes tratado como tabu nos vestiários dos clubes.

— Os torcedores, que acompanham e vibram, tem que entender que tem um ser humano ali no campo. A pessoa, quando tem um dia cansativo no trabalho, pode chega em casa, tomar banho e ir pra cama descansar. Nem sempre é assim pra gente. Tem dia de treino exaustivo, que não foi legal, e depois ainda chega em casa com os torcedores atacando, xingando e falando coisas que não agregam em nada nas redes sociais — afirmou.

— As pessoas que estão próximas do atleta também precisam entender que existem muitas questões. Existem questões financeiras e familiares… Realidades e realidades. Tem jogadores que ganham R$ 500 mil por mês, mas tem os que ganham 3 ou 4 mil, com as mesmas responsabilidades de cuidar da família e filhos. E ainda tem clube que atrasa salário, né? A pressão dos atletas que passam por essas situações é bem maior.

“Existe futebol fora do Sudeste”

Digão já tinha jogado pelo Porto Velho na temporada, mas deixou o clube depois de sete jogos. Desde então, de time em time, o arqueiro pingou em vários de menor expressão, em Goiás, Amapá e até Amazonas, porém acabou voltando para Rondônia, local onde realmente se sente à vontade. Por isso, a alegria de ter se mantido impassível após o bombardeio do Remo tem um gostinho ainda mais especial.

Eu ainda estou em choque com tudo. A gente sabia da dificuldade de enfrentar o Remo, por ser muito boa, e também pela questão de ser a nossa estreia. Essa vitória representa muito para o clube, mas também para o estado. É bom pra trazer mais visibilidade pra cá também. O povo usa o termo de que aqui é meio “esquecido”, porque poucos clubes procuram atletas daqui. Mas é importante ter esse destaque pra entenderem que existe futebol fora do Sudeste. O Norte e o Nordeste têm futebol também, com jogadores muito qualificados.

Recomeço e um longo futuro adiante

Para o goleiro nascido no Rio de Janeiro, que iniciou a carreira nas categorias de base de Botafogo e passou por Flamengo e Ponte Preta, ser destaque na Copa do Brasil também soou como um recomeço. Aos 26 anos, Digão finalmente enxerga um horizonte promissor depois de passar boa parte da juventude enfrentando uma série de lesões.

Ainda no sub-17 do Bota, Digão levou uma cotovelada e teve 14 pequenas fraturas no osso da face. A recuperação foi longa e muito delicada. Algum tempo depois, fraturou os dedos da mão e lesionou o punho, passando mais um bom tempo afastado dos gramados. A sequência prejudicou muito a sua permanência em equipes da elite.

— Eu sou abençoado demais. Por tudo o que eu já passei, ainda conseguir jogar bola é impressionante. Futuramente, eu quero ser treinador e pretendo sempre trabalhar com um psicólogo junto. Se a cabeça do jogador não estiver boa, ele não consegue desenvolver dentro de campo. Quantas vezes eu passei por isso… Agora, meu corpo está bem e minha cabeça está boa, então consigo lidar bem com tudo dentro de campo.

Antes de pendurar as chuteiras, ainda há um bom tempo para sonhar. Agora, o objetivo de Digão é ser visto (ou lembrado) por equipes de Rio-São Paulo e concretizar o desejo da paternidade ao lado da namorada.

— Eu tenho muita vontade de voltar ao mercado do Rio. Minha família toda é de lá, e quanto estou jogando em casa é muito bom. Eu também me vejo no mercado de São Paulo. Sempre tive um sonho de jogar no Corinthians, acho que eu tenho um estilo muito vibrador, falante… O Corinthians é muito assim. Eu tô trabalhando muito para isso acontecer um dia.

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