Copa do Brasil

Opinião: faixas da torcida do São Paulo provam que homofobia não tem lado

Torcida do São Paulo espalha faixas homofóbicas, enquanto Corinthians tenta de toda maneira conscientizar seus torcedores; novamente, estamos diante de uma falência social

O dia que era para ser só sobre futebol, só sobre um dos mais importantes Majestosos de todos os tempos, teve seu noticiário tomado por discussões sobre homofobia, preconceito e outras coisas que já deviam ser assunto superado — no futebol e na sociedade. Desde o sorteio dos mandos do confronto, no entanto, pouco tem se falado de bola e muito tem sido dito sobre intolerância por parte das torcidas, que usam do antiquíssimo e ultrapassado gesto de transformar homossexualidade em ofensa. Na manhã do jogo, nesta terça (25), infelizmente não foi diferente e várias faixas homofóbicas da torcida do São Paulo foram colocadas pela capital paulista.

A homofobia tem sido, há décadas, a principal arma de ofensas entre rivais paulistanos. Na maior parte das vezes, corintianos e palmeirenses se referem a são-paulinos usando de termos e cantos homofóbicos. No Majestoso do primeiro turno do Brasileirão 2023, na NeoQuímica Arena, a torcida do Corinthians entoou diversas ofensas homofóbicas direcionadas ao São Paulo. O resultado foi, de maneira inédita, uma punição ao clube, que deverá jogar a partida contra o Vasco, pela 18ª rodada, sem torcida em seu estádio. No julgamento do caso, inclusive, destaca-se uma frase do procurador Rafael Bozzano, do STJD:

— O clube não identificou nenhum torcedor num estádio moderno com todas as possibilidades para dizer “olha, vai ficar 720 dias sem entrar na praça desportiva”. De nada adianta fazer publicidade e marketing contra homofobia no telão para 45 mil pessoas se as pessoas não respeitam — afirmou Bozzano antes da sentença ser pronunciada.

Muito marketing e pouca efetividade: a luta contra homofobia no futebol paulista

A fala de Bozzano é emblemática porque resume bem a situação. E mesmo direcionada apenas ao Corinthians, neste caso, faz a carapuça servir em todos os times do futebol paulista — e, por que não, brasileiro. Muito se fala, pouco se faz. A própria punição dada ao Timão será cumprida em tese contra o Vasco porque o clube conseguiu efeito suspensivo e não precisou cumpri-la contra o Red Bull Bragantino. Neste jogo, derrota por 1 a 0, o alvinegro colocou 42 mil torcedores na NeoQuímica Arena que, fosse seguida a punição, estaria vazio.

Com mais medo de uma punição do que realmente uma preocupação que soe genuína, o Corinthians vem tentando ao longo das últimas semanas conscientizar seus torcedores de que gritos e ofensas homofóbicas contra os rivais podem ter efeito pesado para o clube. Mas pelos comentários nas postagens feitas pelo time em suas redes sociais, não parece que a maior parte dos torcedores está inclinada a seguir os mandamentos solicitados.

Não que a punição coletiva e apenas esportiva não seja justa, mas ela claramente não é eficaz. E as faixas que a torcida do São Paulo espalhou pela capital paulista são uma prova de que esse tipo de medida não atinge a principal causa do problema. O Tricolor joga fora de casa, sem torcida uma vez que clássicos em São Paulo têm torcida única, e a pergunta que fica é: como, então, punir os torcedores que já tiveram esse tipo de comportamento antes mesmo da bola rolar? Perder mando, nesse caso, é impossível. E então caímos no problema real: a causa de tudo isso é social.

Não é esse ou aquele: somos uma sociedade homofóbica

Muito além do futebol, a homofobia é um problema que passou a ser visto com mais seriedade no Brasil há pouquíssimo tempo. Apenas em 2019 que homofobia passou a ser crime por aqui. A determinação que gerou essa mudança está atrelada à Lei de Racismo (7716/89), que hoje prevê crimes de discriminação ou preconceito por “raça, cor, etnia, religião e procedência nacional”.

A prática da lei engloba atos de “discriminação por orientação sexual e identidade de gênero”. Por isso, ainda que usado o termo de homofobia para definir essa lei, todas as outras pessoas LGBTQIA+ são contempladas. E mesmo com tudo isso, pense aí com você mesmo: quantas pessoas que já praticaram homofobia você conhece e quantas delas são ou foram tratadas como criminosas? Pois é.

Estatísticas oficiais são raras no Brasil quando o assunto é a população LGBTQIA+, mas segundo a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) são nada menos do que 20 milhões de brasileiros se identificam como pessoas LGBTQIA+, sendo que 92,5% dessas pessoas afirmam já ter sido vítima de algum tipo de violência física ou psicológica.

O que fazer com a homofobia no futebol diante desse cenário?

Em um cenário que as lutas contra a homofobia praticamente ainda engatinham, entender que o futebol não é uma bolha a parte da sociedade onde tudo pode acontecer. Falar sobre é um passo importante e fundamental, mas ainda muito embrionário. E por ser o primeiro passo, precisa de muito mais estrutura social para dar certo num futuro próximo.

Para tratar desse assunto como sociedade, precisamos de políticas públicas. E para termos políticas públicas eficazes, precisamos de pessoas que saibam o que está acontecendo. Aproximar a comunidade LGBTQIA+ é fundamental, criando um ambiente seguro nos quais punições não pareçam apenas marketings. Os clubes, por sua vez, têm de caminhar lado a lado com autoridades não apenas na criação de políticas que ajudem a resolver esses problemas, mas ajudando a punir com eficácia indivíduos e entidades — entre elas os próprios times. Só assim poderemos falar de clássicos, semifinais e grandes jogos focando apenas no futebol.

Foto de Leonardo Sacco

Leonardo Sacco

Formado em Jornalismo pela Cásper Líbero, fez categorias de base na TV Gazeta, Olheiros e Impedimento. Se profissionalizou no Yahoo e desde junho de 2023 é coordenador de conteúdos editoriais da Trivela.
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