Brasil

Como o preço do estádio mais caro da Copa cresceu 20% depois de ser entregue?

Estar ao lado de Wembley em uma lista costuma ser algo positivo. Afinal, trata-se de uma das arenas mais modernas do mundo e, mesmo em sua versão atual, ainda carrega algum charme especial. Mas o Mané Garrincha, de Brasília, faz companhia ao estádio londrino em um raro tema negativo. As obras do maior palco do fuebol inglês foram rodeadas de críticas e escândalos de custos acima do esperado. E a arena brasiliense não fez diferente para aparencer em terceiro lugar entre as arenas de futebol mais caras do mundo, em estudo da Pluri Consultoria publicado em junho deste ano. O estádio Nacional foi o mais caro da Copa de 2014, com a façanha de ter ampliado essa vantagem mesmo depois de a obra ser entregue.

TEMA DA SEMANA: O ciclo das novas arenas está terminando, e cinco perguntas que ainda estão no ar

Os números do Mané Garrincha começaram a assustar desde a inauguração. Brasília e Brasiliense disputaram a partida de abertura, em 18 de maio, na entrega do estádio ao preço de R$ 1,4 bilhão, o dobro do estimado na primeira licitação do estádio, em 2010. O governo não gosta muito dessa conta porque diz que esse contrato inicial não previa itens como cobertura, gramado, placares eletrônicos e assentos que entrariam em um processo separado. De qualquer jeito, o Tribunal de Contas do Distrito Federal encontrou irregularidades e indícios de superfaturamento.

Eles poderiam ser maiores, não fosse a auditoria do TC-DF, que economizou R$ 179,7 milhões, mas ainda assim o órgão apontou gastos excessivos de R$ 431,4 milhões. A quebra foi causada por vários erros ao longo da obra, como a compra indevida de material, cálculos equivocados e o perdão, por parte do governo, de multas por atrasos da obra. Um exemplo específico foi o transporte de peças pré-moldadas. A fábrica ficava a 1,5 km do estádio, mas a distância foi calculada em 240 km, entre Goiânia e Brasília.

O governo do Distrito Federal respondeu que o relatório publicado em março deste ano foi apenas preliminar, com itens pontuais que necessitam de esclarecimento, e que estava cooperando totalmente com a auditoria do TC-DF. Essas informações foram expostas ao público no final de 2013, depois da primeira liberação de verba pública posterior à abertura do estádio. O preço total estava em R$ 1,573 bilhão. Depois disso, houve mais dois repasses, todos registrados no Diário Oficial do DF.

EM SÃO PAULO: Por que o Corinthians está com dificuldades para fechar a conta do estádio?

Dezembro – 2013: No mesmo ano em que foi inaugurado, coisa de oito meses depois da abertura, o Mané Garrincha precisou de R$ 140 milhões do governo do Distrito Federal para “obras de reforma e ampliação do Estádio Nacional de Brasília”.

Outubro – 2014: O governo do Distrito Federal desembolsou R$ 54 milhões para quitar “restos a pagar da obra”.

Novembro – 2014: Outro aditivo, agora de R$ 14,5 milhões “serviços já realizados”, como sistemas especiais de tecnologia, transmissão de TV, obras para recuperar a estrutura, entre outras operações.

Quem tem uma calculadora na cabeça percebeu que o preço chegou a R$ 1,641 bilhão. O valor pode aumentar um pouco mais porque o próprio governo admite que ainda está a 1% ou 2% de liquidar a fatura. Isso representa R$ 16 milhões ou R$ 32 milhões. Imaginando o pior cenário, teríamos R$ 1,673 bilhão, quase 20% a mais que o preço de quando ele foi entregue.

O último repasse causou algumas críticas porque as contas do Distrito Federal estão na lama. O governador Agnelo Queiroz (PT) está com problemas para pagar serviços essenciais de saúde e transporte. Esse novo aditivo, o 26º ao longo da construção do estádio, também será investigado pelo Tribunal de Contas porque demonstra uma clara falta de planejamento. “O tribunal vai fiscalizar e vai querer saber o porquê desses R$ 14 milhões serem liberados agora e se isso não está deixando outras questões essenciais sem atendimento”, disse o conselheiro do TC-DF, Renato Rainha, à rádio CBN, na última sexta-feira.

O Mané Garrincha foi completamente financiado com dinheiro público, por meio da empresa imobiliária Terracap. Sua capacidade foi ampliada para 72 mil pessoas em uma cidade sem clubes nas primeiras divisões nacionais e com um estadual que reúne pouco público. A solução para manter o estádio rentável depois da Copa do Mundo está sendo utilizá-lo para tudo que for possível, mas desde 3 de outubro, quando Fluminense e Bahia jogaram para 9 mil testemunhas, não há uma partida de futebol no Mané Garrincha.

EM PORTO ALEGRE: Por que o Grêmio nunca consegue lotar a sua Arena?

A agenda para o fim do ano prevê apenas um show do músico Paul McCartney, em novembro, e um torneio amistoso de futebol feminino, no mês seguinte. Em resposta ao UOL, o governo do Distrito Federal garantiu que o que não vai faltar para o estádio é evento até 2019, com partidas do torneio olímpico de futebol em 2016, o Fórum Mundial das Águas de 2018 e a Universíade, o “segundo maior evento esportivo universitário do planeta”, em 2019.

Pelo menos, estão se mexendo para não permitir que o custo da manutenção deixe o ônus para o contribuinte cada vez mais alto. A cartada final pode ser a privatização, um assunto comentado depois da Copa do Mundo, mas colocado em modo de espera por causa das eleições. O governador eleito Rodrigo Rollemberg (PSB) tem esse pepino nas mãos para tentar recuperar o que já foi gasto com o estádio. Até agora.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo