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Como a Lava Jato afeta Arena Corinthians e Maracanã

O futebol é um daqueles lugares em que a gente não sabe onde começa o Brasil e onde termina o campo. Ele não é apenas um esporte. É uma parte fundamental da identidade do país – para o bem e para o mal. Na semana passada, mais um capítulo dessa relação começou a ser escrito. E parece um daqueles capítulos de novela. Envolve os dois times mais populares do Brasil e os estádios onde mandam seus jogos. E não tem data para acabar.

Na semana passada, a Operação Lava Jato prendeu os presidentes da Andrade Gutierrez e da Odebrecht. As duas construtoras são suspeitas de integrar um esquema de desvio de dinheiro público que funcionava dentro e a partir da Petrobras. O juiz Sérgio Moro, que decretou as prisões preventivas da última sexta-feira, acha que a relação é grave demais. Ele, inclusive, sugeriu que a Odebrecht fosse impedida de firmar novos contratos com o poder público e que os em vigência fossem suspensos. Isso seria um golpe forte nos negócios da empresa, e isso deve chegar ao mundo da bola, mais cedo ou mais tarde.

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As duas empresas – ambas entre as maiores do País – têm negócios em diversas áreas de construção e infraestrutura. Nos últimos tempos, seus braços se estenderam um pouco mais para abraçar também a Copa do Mundo. Fazia sentido, pois elas têm experiência em lidar com contratos com o poder público, obras gigantescas e ter concessões de infraestrutura. Erguer e/ou gerenciar arenas como as do Mundial não soava estranho. Assim, Maracanã, Beira-Rio, Arena Corinthians, Arena Pernambuco, Fonte Nova, Arena da Amazônia e Mané Garrincha tiveram participação desses grupos gigantes.

Em contato com a Trivela, a Odebrecht afirmou que “as suas atividades empresariais continuam dentro da mais absoluta normalidade”. Ela também é responsável pelas obras que ainda restam no Itaquerão, que “prosseguem conforme o cronograma, dentro da mais absoluta normalidade, com entrega prevista para julho deste ano”.

Mas as pendências da empresa com o futebol não estão apenas na finalização da Arena Corinthians. A Odebrecht negocia a revisão de contrato com o governo do Rio de Janeiro pela concessão do Maracanã. O acordo duraria pelos próximos 27 anos, mas, segundo o blog de Rodrigo Mattos, no UOL, esse documento ainda não foi, embora a expectativa é que isso aconteça em breve.

O jornalista também informa que a empresa elaborou uma estratégia para isolar o Maracanã e outros dos seus principais ativos dos efeitos da Lava Jato. Não dá para saber o quanto esse contrato seria prejudicado caso a Odebrecht fosse impedida de firmar contratos com o governo.

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O caso do estádio corintiano é ainda mais complexo. As ligações entre Odebrecht, governo e futebol são intensas na arena que abriu a Copa de 2014. A Arena Corinthians só saiu do papel por causa do então presidente Lula, amigo de Andrés Sánchez e fanático pelo clube do Parque São Jorge.

Andrés chegou a dizer, em uma entrevista à revista Época em 2011, que a operação financeira foi tocada exclusivamente por Lula, Emílio Odebrecht (filho de Norberto, fundador da construtora, e pai de Marcelo, presidente do grupo preso na última semana) e ele próprio. Quando a reportagem perguntou o que aconteceria se essa história viesse a público, respondeu que “não ficaria feio para ninguém. Ficaria, talvez, não imoral, mas difícil para o Lula”. Na sequência, Andrés explica que ficaria difícil para Lula porque, no final das contas, o agora ex-presidente teria de explicar por que a Odebrecht entrou no negócio do estádio e qual a relação da empresa com o governo federal.

Em seu livro “O Mais Louco do Bando”, Andrés conta como ficou sabendo da intenção da Odebrecht de ajudar no estádio do Corinthians. Foi em uma reunião com o diretor de relações institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar. Ele também foi preso na última sexta-feira e é definido no livro como um “amigão do peito, quase parente”. Nesse encontro, Alencar relatou o pedido de Lula a Emílio. O ex-presidente teria pedido à Odebrecht para “dar uma mão para esse garoto, presidente do Corinthians”. Foi dado o pontapé inicial do projeto – que não ficou barato.

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A Odebrecht tomou empréstimos superiores a R$ 1,1 bilhão para construir o Itaquerão. O Corinthians ainda lhe deve aproximadamente R$ 800 milhões, e a primeira parcela vence em julho. O clube tenta arranjar dinheiro para pagar seus boletos com a venda de naming rights e bilheteria, mas também com os CIDs, documentos de isenção fiscal da prefeitura de São Paulo, que estão empacados por causa de uma ação do Ministério Público que contesta sua legalidade. Os primeiros papéis foram adquiridos pela própria Odebrecht, de acordo com Andrés por R$ 50 milhões.

Se a Odebrecht for impedida de fazer negócios com o poder público, o estádio do Corinthians poderá enfrentar novos problemas. Uma das linhas de financiamento do estádio veio de um banco público, o BNDES. O garantidor do negócio é outro banco ligado ao governo, a Caixa.

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Apesar de todo esse imbróglio, a empresa confia o seu tamanho para navegar durante essa tempestade. Marcelo Odebrecht, preso na última sexta, é presidente da companhia desde 2008, quando sucedeu seu pai, Emílio, e participa de várias decisões estratégias da companhia. Embora as suspeitas contra o empresário ainda não estejam publicamente claras, a Justiça só concede o pedido de prisão com algumas evidências. Cabe à Odebrecht mostrar que essas evidências são frágeis. E à Polícia Federal, mostrar que elas são fortes.

Ainda assim, a Odebrecht é um grupo gigantesco. Fundada em 1944 por Norberto Odebrecht, a construtora explodiu durante o Milagre Econômico, período de crescimento forte entre 1968 e 1973. Era ditadura militar e um período de muitas obras de infraestrutura, como estradas e hidrelétricas, país afora.

No final dos anos setenta, a empresa passou a ter negócios no exterior, principalmente na América Latina, mas também nos Estados Unidos (aeroportos de Orlando e Miami) e na África, como em Angola. Hoje, tem negócios em 23 países, é tida como o maior grupo industrial do Brasil e atua em setores como energia, biocombustível, concessões públicas e defesa.

Cada área está compartimentada dentro do grupo, com subsidiárias que têm vida própria. Só para lidar com os estádios são duas: a Odebrecht Properties, que administra a Arena Pernambuco, a Fonte Nova e o Maracanã, e a Odebrecht Infraestrutura, responsável por construir a Arena Corinthians e compor o fundo de investimento criado para administrar a arena até o clube pagar todas as contas. A prisão do presidente do grupo pode ser absorvida com menos turbulência, aposta a Odebrecht.

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Nem toda construtora, porém, tem essa margem de manobra. A OAS, por exemplo, sentiu imediatamente os efeitos da prisão de vários de seus executivos. A empresa atrasou parcelas do financiamento que contraiu para a construção da Arena do Grêmio e se expôs ao risco de ver o estádio executado pelos credores. Isso não aconteceu porque os bancos (Santander, Banrisul e Banco do Brasil) decidiram não seguir esse caminho e aceitaram as propostas de renegociação da construtora. Sem envolver a Arena, que está sendo negociada com o tricolor gaúcho, o grupo pediu recuperação judicial. Também colocou à venda 100% da sua participação na Arena das Dunas, em Natal, e 50% da Fonte Nova, em Salvador.

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O Internacional teve mais sorte, devido ao modelo de parceria adotado. A Andrade Gutierrez reformou o Beira-Rio, mas a administração do estádio é quase toda do clube. A BRio, uma subsidiária da construtora, é responsável apenas por 5 mil lugares VIPs, os camarotes e estacionamentos. Segundo uma reportagem da Zero Hora, no final do ano passado, a Andrade Gutierrez está com dificuldades para vender os seus produtos, mesmo com promoções. Caso não consiga rentabilizar em cima deles, teria de pagar o empréstimo que contraiu com o BNDES para financiar as obras com os seus próprios recursos.

Marcelo Flores, executivo da BRio, afirma que essas parcelas estão em dia. Mas, mesmo que surjam problemas no futuro, as garantias oferecidas pela Andrade Gutierrez ao banco estatal de desenvolvimento que não envolvem o clube ou o estádio. Ou seja, se por acaso a Andrade Gutierrez quebrar por causa do envolvimento do seu presidente Otávio Azevedo com a Lava Jato, o Inter não será atingido. “Temos total tranquilidade de que nem o Inter, nem o Beira-Rio serão afetados por qualquer problema que venha a atingir a AD”, disse o ex-presidente Giovanni Luigi, cujo mandato coincidiu com as reformulações do estádio.

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O negócio do futebol é mínimo em comparação com as grandezas que fazem parte do dia a dia das empresas de infraestrutura. Estádios têm custos de construção muito menores que rodovias, hidrelétricas, linhas de metrô, aeroportos ou portos, mas isso não significa que fiquem imunes a crises em suas operadoras. Por mais que algumas grandes obras no exterior possam segurar a empresa no momento de turbulência no Brasil, elas não podem salvar a construtora de uma eventual perda de credibilidade.

Como os grupos de infraestrutura trabalham com contratos bilionários para realizar serviços de longo prazo (alguns podem durar cerca de uma década), ter crédito é fundamental para sobreviver. Com diretores presos e suspeita da opinião pública, elas podem ter mais dificuldades para conseguir financiamento: as instituições podem aprovar apenas valores mais modestos, ou com taxas de juros mais altas devido ao risco que essas empresas passariam a representar.

Por isso, as operações da Odebrecht e da Andrade Gutierrez ligadas a estádios de futebol estão seguras. Mas nem elas se salvariam se a empresa entrasse em uma crise de crédito. Aí, o torcedor ficaria dependente do quão seguro e independente é a operação do estádio de seu clube.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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