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Comitê de Ética da CBF minimiza assédio moral e sexual, e tudo indica que Caboclo voltará à presidência

Comitê de Ética indicou 15 meses de suspensão a Caboclo, o que o possibilita voltar antes do fim do seu mandato; ele pode ser absolvido na próxima semana na Assembleia Geral

Rogério Caboclo pode voltar a ser presidente da CBF em breve. O Comitê de Ética da entidade decidiu que o assédio sexual e moral do qual o dirigente é acusado foi apenas um “comportamento inadequado” e recomendou a suspensão por 15 meses. Como ele já cumpriu três, voltaria em um ano, ainda dentro do seu mandato, que vai até abril de 2023. Isso não é tudo: com medo de represálias, a Assembleia Geral, que decidirá por acatar a sugestão ou não, pode absolver Caboclo e permitir que ele retorne imediatamente à presidência. A reunião acontece na próxima semana e a tendência é essa.

A punição de 15 meses sugerida pelo Comitê de Ética permitirá que Caboclo ainda volte dentro do seu mandato. Com isso, terá poder de retaliação. Segundo descreve a ótima matéria de Gabriela Moreira, Martín Fernandez e Sergio Rangel no ge.globo, a decisão do Comitê de Ética revoltou os presidentes das federações, que são o principal quadro eleitoral da CBF. Por isso, eles avaliam que se for para Caboclo voltar ainda dentro do seu mandato, que volte agora. A decisão de manter ou não a suspensão terá consequências sérias.

Se a Assembleia Geral, que inclui as 27 federações estaduais, acolher a suspensão de 15 meses ao presidente afastado, Caboclo só poderá voltar entre agosto e setembro de 2022. Com isso, dificilmente poderia concorrer à reeleição, já que a partir de 12 meses antes do fim do mandato, ou seja, abril de 2022, já é possível realizar o processo eleitoral. Se quem estiver na presidência decidir por realizar o pleito, Caboclo não pode concorrer. Essa seria a tendência, caso a punição seja mantida. O problema é que Caboclo voltaria à cadeira de presidente por alguns meses. Isso implica em outro cenário.

Os presidentes de federações estaduais podem decidir por absolver Caboclo na Assembleia Geral, de forma que ele voltasse imediatamente à presidência. Isso porque há medo que de represálias do dirigente. Afinal, Caboclo pode até ficar fora da eleição, mas terá a cadeira de presidente por alguns meses e o poder da caneta na mão para articular represália a todos que agiram contra ele. Sendo assim, os dirigentes preferem que Caboclo já volte agora.

O presidente afastado conseguiu outra vitória na terça-feira. Acionou o Centro Brasileiro de Mediação de Arbitragem (CBMA) e teve sucesso no pedido de adiar a Assembleia Geral, que aconteceria inicialmente nesta quarta, para a próxima semana, em data a ser divulgada. Mais tempo para agitar os bastidores políticos da entidade — e até usar o futuro poder para já fazer ameaças.

Agora, tudo indica que Caboclo não só escapará da denúncia de assédio sexual e moral, como ainda pode escapar até do “comportamento inadequado” enquadrado pelo Comitê de Ética. Tem pinta de jogada ensaiada. Impossível não associar uma coisa à outra. Parece uma bem-sucedida estratégia de defesa de Caboclo, que o fará retornar, mesmo coberto de lama, ao cargo mais alto do futebol no Brasil.

Há ainda o processo no Ministério Público, que pode vir à tona e acabar com consequências no mundo real, via Justiça, e não no mundo encantado da CBF, o “Brasil que deu certo” de Carlos Alberto Parreira e que desconsidera a existência de qualquer assédio sexual e moral. Ainda há duas denúncias de assédio contra Caboclo, mas se nem a denúncia mais bem documentada gerou punição, parece difícil que ele seja punido pelas outras duas.

A denúncia contra Caboclo

A denúncia de assédio sexual e moral foi feita por uma funcionária que trabalhava diretamente com Caboclo na CBF. Foi feita dentro da própria instituição, na Comissão de Ética da CBF e à Diretoria de Governança e Conformidade. Chegou ao Ministério Público do Rio de Janeiro, onde o processo ainda está aberto. Os áudios gravados referentes à denúncia foram divulgados pelo Fantástico e são estarrecedores.

Com tudo isso, Caboclo foi afastado da presidência da CBF. Parecia que o dirigente tinha chegado ao fim na entidade que dirigia. A seleção feminina chegou a entrar em campo com uma faixa com os dizeres “Assédio não!”. Em julho, a crise na CBF teve mais um capítulo com a anulação da eleição de Caboclo na Justiça. Foi o episódio que a Justiça nomeou interventores, o presidente da Federação Paulista, Reinaldo Carneiro Bastos, e o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim. Eles não chegaram a assumir: uma liminar impediu.

Um novo presidente interino

Nesta quarta-feira, o Conselho de Administração da CBF decidiu escolher Ednaldo Rodrigues para substituir o homem que “tem capacidade”, Antonio Nunes, conhecido como Coronel Nunes. O ex-presidente da Federação Baiana de futebol vai tocar a CBF enquanto Rogério Caboclo estiver suspenso. Se a suspensão for mantida na Assembleia Geral, na próxima semana, uma nova reunião decidirá quais serão os rumos.

Os oito integrantes do Conselho de Administração, que são os vices da entidade, assim decidiram para colocar Ednaldo Rodrigues por considerarem que ele é uma figura mais neutra. Não é muito ligado a Rogério Caboclo, o presidente afastado, e nem é tão ligado ao ex-presidente Marco Pólo Del Nero, banido pela Fifa em 2018, mas que segue puxando as cordinhas e mandando na CBF.

O poder das sombras

Marco Pólo Del Nero é alguém muito influente nos bastidores da CBF. Segue dando as cartas, apesar de ter sido banido do futebol pela Fifa. Coronel Nunes é seu pupilo e ouve o “presidente” como se ele ainda fosse o ocupante da cadeira presidencial. Aliás, segundo Ancelmo Góis, colunista do jornal O Globo, foi Marco Pólo Del Nero que decidiu que os jogadores não usassem o agasalho do Time Brasil na Olimpíada de Tóquio 2020. Uma atitude que Daniel Alves ainda conseguiu piorar falando um monte de bobagens depois.

Rogério Caboclo também era muito ligado a Del Nero, mas isso mudou com o tempo. Ele foi diretor da CBF na época da presidência de Del Nero — e foi eleito com o apoio do ex-mandatário. Inclusive foi eleito justamente para manter o poder de Del Nero. O desentendimento entre os dois fez os bastidores ferverem. Diante do assédio documentado de Caboclo, Del Nero ganhou força nas sombras para comandar a entidade remotamente (ou nem tão remotamente assim). A história ainda terá mais capítulos e veremos até onde isso vai. Tudo indica que Caboclo retornará e a CBF continuará chafurdando na lama.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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