Com novos desdobramentos da Penalidade Máxima, quem for culpado por manipulação precisa receber punições exemplares
O zagueiro Eduardo Bauermann foi afastado pelo Santos após mensagens mostrarem que ele teria aceitado R$ 50 mil para levar cartão amarelo - e não cumpriu
A Justiça acatou nesta terça-feira a denúncia do Ministério Público de Goiás que, por meio da Operação Penalidade Máxima, está investigando 13 jogos do futebol brasileiro, entre Série A, Série B e Campeonatos Estaduais, e 16 pessoas que estariam envolvidas em um esquema de manipulação de resultados. Isso aconteceu um dia depois de a revista Veja publicar mensagens que mostram que o zagueiro do Santos, Eduardo Bauermann, teria aceitado R$ 50 mil para levar um cartão amarelo contra o Avaí, pelo Brasileirão do ano passado, e não cumpriu a sua parte.
De acordo com a publicação, o celular de Bauermann foi apreendido em uma operação de busca e apreensão no litoral paulista no último mês de abril. O jogador foi cobrado pela quadrilha após não levar a advertência e prometeu que seria expulso no jogo seguinte, contra o Botafogo. Ele chegou a receber o cartão vermelho, mas apenas depois do apito final, o que não é contabilizado pela casa de apostas. Segundo o UOL, ele foi ameaçado de morte por estragar a aposta, que também contava com cartões para Dadá Belmonte, ex-Goiás, e Igor Caríus, ex-Cuiabá e renderia R$ 800 mil.
Bauermann, ainda segundo as mensagens vistas pelo portal, fechou um acordo para ressarcir a quadrilha com 20 parcelas mensais de R$ 50 mil (um total de R$ 1 milhão) e usou seus direitos econômicos como garantia. Para apaziguar os apostadores, disse que recebeu uma proposta de US$ 2,5 milhões de dólares (aproximadamente R$ 12 milhões) do León, do México, e aguardava uma de US$ 4 milhões (R$ 20 milhões) no fim do ano.
Em nota oficial, o Santos anunciou nesta terça que afastou Bauermann dos treinos com o elenco profissional e que “não tolera desvios de conduta e de ética”. Em contato com o UOL, o empresário Luiz Taveira afirmou que Bauermann não levou cartão vermelho de propósito contra o Botafogo e que ele nunca quis participar do esquema, embora reconheça o acordo para pagar a dívida.
Bauermann, Tota e Caríus estão entre os investigados, ao lado dos jogadores Victor Ramos (ex-Palmeiras e atualmente na Chapecoense), Paulo Miranda (Juventude, ex-Náutico), Fernando Neto (São Bernardo, ex-Operário) e Matheus Gomes, do Sergipe. O zagueiro argentino Kevin Lomónaco também é alvo da operação e foi afastado pelo Red Bull Bragantino em abril. Segundo o Globo Esporte, os jogadores Nikolas, do Novo Hamburgo, e Jarro Pedroso, do Inter de Santa Maria, foram acrescentados na fase atual. Os outros investigados são apostadores, aliciadores e membros da quadrilha.
As partidas em questão são Palmeiras x Juventude (setembro/2022), Juventude x Fortaleza (set/22) Goiás x Juventude (nov/22), Ceará x Cuiabá (out/22), Sport x Operário (out/22), Bragantino x América Mineiro (nov/22), Santos x Avaí (nov/22), Botafogo x Santos (nov/22), Cuiabá x Palmeiras (nov/22), Guarani x Portuguesa (fev/23), Portuguesa x Bragantino (janeiro/23), Esportivo x Novo Hamburgo (fev/23) e Caxias x São Luiz (fev/23). Todos os lances investigados pode ser vistos aqui no Globo Esporte.
Sempre foi claro que a popularização das casas de aposta, impulsionada por uma campanha agressiva de publicidade em camisas de clubes, televisão e em sites como este, seria um desafio para as autoridades. Prato cheio para esquemas de manipulação como o que está sendo investigado pelo Ministério Público de Goiás, em um país que lidou com casos parecidos no passado, ocasionalmente, mas ainda não tem protocolo e mecanismos tão efetivos para coibi-los.
Na Inglaterra, tomando como exemplo o mercado mais consolidado de apostas do futebol mundial, há vários exemplos de punições pesadas por infrações até mais leves do que levar um cartão amarelo de propósito. Kieran Trippier (dez semanas de suspensão) e Daniel Sturridge (seis) foram punidos por passarem informações a amigos sobre suas transferências. Nem os jogadores e nem pessoas próximas a eles podem apostar. No fim da sua carreira, Joey Barton pegou um ano e meio de gancho após aceitar denúncias em 1.260 apostas que realizou entre 2006 e 2013. Ivan Toney, do Brentford, está sendo investigado por 262 violações.
O Brasil está se provando um mercado fértil para a indústria das apostas e, vale debate se isso é positivo ou negativo, mas, além da cobrança de impostos e regras para publicidade, uma regulamentação é importante também para reforçar o combate às manipulações que, no fim das contas, lesam os clubes, as casas e os apostadores casuais. Enquanto isso não acontece, um primeiro passo importante seriam punições exemplares aos investigados que tiveram sua culpa comprovada.



