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Clubes do EI fizeram até cláusula de proteção, mas represália da Globo não preocupa mais

Presidente dos clubes do Esporte Interativo assistem ao evento de comemoração do acerto (Foto: Divulgação)

Os clubes que assinaram contrato com o Esporte Interativo pelos direitos de transmissão de TV fechada a partir de 2019 ficaram preocupados: ao mesmo tempo em que surgiu um concorrente poderoso no cabo, a TV aberta segue dominada pela Rede Globo. Será que a emissora carioca responderia à rejeição com valores menores nesses contratos ou até mesmo nem fazendo uma proposta? Isso não é mais uma preocupação.

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Inegavelmente, era. Segundo o presidente do Esporte Interativo e vice-presidente da Turner para a América Latina, Edgar Diniz, existe uma cláusula protegendo os 14 clubes que foram anunciados, em evento na última terça-feira, “caso eles tenham qualquer dificuldade”. Mas, atualmente, trata-se apenas de uma precaução. “Isso é uma coisa ultrapassada porque a própria Globo já declarou que tratará de maneira idêntica os clubes que fecharam com a gente na TV aberta”, afirma Diniz. “O Cade já declarou que ela não tem outra opção. Mas, de fato, na origem, quando fechamos o acordo, tinha uma cláusula que protegia os clubes nesse aspecto”.

Em 1º de fevereiro, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão do Ministério da Justiça, enviou um questionário à Globo questionando se a emissora trataria de maneira diferente quem aceitasse apenas a proposta de TV aberta, em comparação com quem aceitasse as duas, aberta e fechada. As respostas a essa pergunta não foram encontradas no site da entidade pública.

5. Há alguma cláusula que preveja vantagem, preferência ou qualquer tipo de diferenciação para o clube que celebre contrato com o Grupo Globo para transmissão em TVs aberta e fechada? Ou seja, caso um clube, eventualmente, celebre contrato de transmissão em apenas um dos formatos (apenas TV aberta ou apenas TV fechada), seu contrato possuiria alguma diferenciação em relação ao clube que celebrou contrato de transmissão para TV aberta e para TV fechada com o Grupo Globo? Explique.

6. Caso algum clube celebre contrato de transmissão de seus jogos em TV fechada com emissora concorrente do Grupo Globo, como tal fato interferiria nas negociações em relação aos direitos para a TV aberta? Explique.

Em entrevista ao blog do Rodrigo Mattos, no UOL, porém, o diretor da Globo Esportes, Pedro Garcia, negou retaliações e disse que apresentaria propostas de TV aberta aos clubes que fechassem contrato com o Esporte Interativo. O próprio Cade enviou ofício aos clubes perguntando se houve ameaças de retaliações:

4. Houve algum tipo de ameaça ou retaliação, por parte da Rede Globo, na TV aberta, caso os clubes contratassem com concorrentes (por exemplo, Grupo EI) seus direitos de transmissão em TV fechada/PPV? Em caso de resposta afirmativa, junte documentos comprobatórios (e-mails, propostas, contratos, etc.).

Quase todos os clubes que responderam (Santa Cruz, Botafogo, Atlético Paranaense, Internacional, Coritiba, Atlético Mineiro, Palmeiras, entre outros) negaram categoricamente que tenha havido ameaças de represálias por parte da Globo, com exceção do Bahia, que apenas vinculou mensagens de Whatsapp trocadas com o diretor da Globosat, Fernando Manuel, em que o executivo alerta para as vantagens de firmar contratos integrados. Mas parece mais uma tática de negociação do que uma ameaça.

“O Bahia pertence ao grupo de clubes que recebe participação no Premiere e, como clube popular que é, quantia é significativa e paga estando o Bahia na Série A ou B. Isso ocorre este ano. Trata-se de diferencial (no NE, apenas Vitória e Sport também possuem e já asseguraram isso para futuro pois clubes já assinaram com Globo) “.

“Tenho buscado sinalizar efeitos da opção de um acordo conosco ou não. Ontem conversei com o Náutico e constatei, da mesma forma verificada com o Santa Cruz, os efeitos diferentes que um modelo integrado de contratos principalmente do PPV acabou gerando nos mercados. Lá, apenas o Sport tem essa situação. Temo que um distanciamento de posições contratuais gere o mesmo cenário para Bahia e Vitória, com quem já temos contratado”

No final de março, o Esporte Interativo publicou uma nota em seu Facebook sugerindo um boicote ao Bahia, por parte da Globo, que não “transmitiu o jogo do Bahia (contra o Fluminense de Feira) no Premiere, não mostrou seus gols no Fantástico e não mostrou os gols de Bahia x Fortaleza no Jornal da Globo, embora tenha mostrado outros jogos da Copa do Nordeste”. A Globo, ao site Na Telinha, respondeu que havia exibido, até aquele momento, sete jogos do Bahia na TV aberta e que houve problemas técnicos sobre a partida específica da qual houve reclamação. Acusou o EI de “inflamar a torcida e criar instabilidade no cenário de negociações do futebol”.

Antes, o Bahia havia entrado em outra confusão, desta vez com a CBF e a Federação Baiana porque marcou um amistoso com o americano Orlando City para 27 de fevereiro, dia em que enfrentaria o Galícia pelo Campeonato Baiano. Essa partida foi adiada para 9 de março. No entanto, nessa data, já estava previsto o duelo do Bahia contra o Juazeirense, pela Copa do Nordeste.

O Bahia afirmou ter condições de jogar duas vezes no mesmo dia, mas achou melhor evitar essa bizarrice. Pediu que a CBF passasse o confronto pelo Nordestão para 16 de março, quando aconteceriam as primeiras rodadas da Copa do Brasil. A entidade administrativa do futebol brasileiro respondeu que, “após conversas com emissoras detentoras dos direitos de transmissão das competições envolvidas”, estava impossibilitada de efetuar a alteração de data, por um eventual conflito contratual citado pelos canais e para não criar “precedente indesejável”.

Na TV fechada, o Nordestão é do Esporte Interativo, que autorizou a mudança. Na aberta, assim como o Campeonato Baiano, o torneio passa na afiliada da Globo na Bahia. “Isso foi um caso pontual”, afirma o diretor de futebol do Bahia à Trivela. “Hoje, todo mundo sabe de tudo. Se você fizer alguma coisa muito escandalosa e prejudicar uma equipe, todo mundo vai saber. E não é só uma equipe. Já são 15 (o Figueirense ainda não foi oficializado)”.

Além de já terem expressado isso nas respostas ao Cade, os dirigentes que conversaram com Trivela não manifestaram nenhum tipo de preocupação sobre um possível boicote da Globo. “Eu não temo nada. Eu sou presidente do Internacional”, afirma Vitório Piffero que, sim, é mesmo presidente do Internacional. “É o clube com maior torcida do Rio Grande. Ninguém vai contra a maior torcida do Rio Grande. Não acredito em qualquer tipo de represália”. Seu correspondente no Santos, Modesto Roma, concorda: “A Globo é muito profissional e muito séria. Não caminhará nesse rumo”.

O presidente do Conselho Administrativo do Atlético Paranaense, e ex-presidente do clube, Mario Celso Petraglia, cita vários fatores que inibiriam um revanchismo da Globo. “Temos leis, temos o Cade, temos o bom senso da Globo, a consciência da família que dirige essa instituição. Não é política da Globo e nunca foi”, explica. “Sempre se levanta esse caos, mas eu não acredito porque, assim como todos nós, a Globo também quer o melhor para o futebol brasileiro”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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