Clássicos nas últimas rodadas fazem mais mal que bem
Não teremos mais clássicos concentrados nas duas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro, como nos dois últimos anos. A decisão foi dos clubes, na última terça-feira, em uma votação apertada – 11 votos a oito, com uma abstenção. Uma das grandes reações que essa decisão gerou foi o temor do chamado “entrega-entrega”, com times facilitando para os adversários para não verem os rivais comemorando título ou conseguindo vaga na Libertadores, algo que gerou muita polêmica em 2009 e 2010. Apesar disso, a medida é boa para o campeonato. A justificativa oficial, a dificuldade de fazer clássicos no mesmo dia e horário em São Paulo e no Rio, já é um ponto para se pensar. Mas há bem mais motivos para os clubes não quererem jogar clássicos nas últimas rodadas.
A começar pelo fato que ao concentrar os clássicos regionais nas duas últimas rodadas, eles são menos vistos. Não é difícil entender. Se o jogo entre Atlético Mineiro x Cruzeiro é disputado no mesmo dia que Corinthians x Palmeiras e Flamengo x Vasco, certamente terá menos visibilidade e espaço na mídia do que se fosse jogado em uma rodada onde esse é o único clássico. Passa a ser o jogo mais interessante, o mais chamativo e pode ser transmitido nacionalmente. É importante para os times, mesmo entre os maiores e mais ricos, ter o máximo de exposição possível e um jogo nacional na TV a cabo, por exemplo, já é algo que pode fazer diferença.
Isso aumenta ainda mais quando o Campeonato Brasileiro passa a ser transmitido no exterior, como na Itália, onde o futebol brasileiro passou a ser mostrado semanalmente. O RAI Sport 1, canal esportivo na TV por assinatura italiana, mostrará três jogos por semana da Série A brasileira. Sendo assim, é mais interessante para os clubes e para as TVs, daqui e de fora, que os clássicos fiquem espalhados ao longo do campeonato. Assim, é possível mostrar todos, ou quase todos, na Itália e onde mais o Brasileiro vier a ser vendido. Afinal, são esses jogos que mais chamam a atenção, assim como Milan x Internazionale, Juventus x Roma e outros jogos assim que mais se destacam quando transmitidos aqui no Brasil.
Há ainda o aspecto esportivo do próprio campeonato. Os clássicos são jogos especiais, que podem mudar a história de um time naquela competição. Ao colocar todos eles concentrados nas duas últimas rodadas, uma parte disso é perdido. Afinal, é impossível que todos os times estejam brigando por título, Libertadores ou rebaixamento nessas duas últimas rodadas, o que significa que muitos deles serão clássicos esvaziados. Quando esses clássicos estão no meio da tabela, podem barrar o crescimento de um dos times, pode recuperar um dos times que estava mal, pode ser um grande jogo que muda os rumos a partir dali. São jogos que esquentam o campeonato. É bom que assim seja.
A questão da segurança levantada por dirigentes que votaram pelo fim dos clássicos na última rodada também faz sentido. Apesar de o ideal ser que todos os torcedores possam conviver harmoniosamente, não é o que acontece. Colocar para jogar no mesmo dia Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, em uma mesma cidade, é pedir para dar problema. O mesmo vale para o Rio, com Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense. É um risco desnecessário.
Além disso, a polícia normalmente recomenda que um dos jogos seja disputado fora da cidade. Foi por isso que, em 2011, o São Paulo mandou o seu clássico contra o Santos em Mogi Mirim (ou Mojimirim, como passou a ser chamada a cidade). Mesmo que em termos de classificação o jogo valesse pouco, é um clássico que os sócios-torcedores do time tiveram mais dificuldade de acompanhar. Não puderam ver no estádio do clube, como inicialmente previsto. Com os clubes cada vez mais dando importância aos sócios-torcedores (o que é ótimo), esse tipo de coisa se torna um problema. Imagine o Corinthians, que tem um dos programas desse tipo mais fortes do país, tendo que jogar fora de São Paulo um clássico, sendo que sempre consegue levar um bom público e ter uma boa renda. Parece insano. Porque é mesmo. Não dá para deixar que isso aconteça mais vezes.
Com tudo isso, ainda há a questão de pensar se os times irão ou não irão entregar os jogos para prejudicar os adversários. É verdade que a medida deu certo e fez a sensação de que todo ano havia entrega acabar e, portanto, deu certo. Mas se cobramos tanto profissionalismo dos dirigentes, técnicos e jogadores no futebol, é preciso que eles se portem de forma profissional. Ter que montar uma tabela que evite isso é a falência da moral. Ainda mais considerando os prejuízos que os times têm, esportivos e comerciais. Os próprios times precisam agir de maneira mais profissional e cobrar de seus jogadores que isso não aconteça.
Mas não são só os profissionais do futebol que precisam mudar. As torcidas se comportam de maneira absolutamente ridícula ao pedirem que seus times entreguem seus jogos para prejudicar os adversários. A rivalidade é sempre saudável e precisa existir. Sem ela, o futebol perde a graça. Mas quando os torcedores preferem que seu time perca para prejudicar o rival, é a falência da própria torcida. Ninguém tem que desejar a própria derrota. Fica difícil cobrar que os times não façam isso quando o comportamento da própria torcida é esse.
Precisamos mudar muita coisa. A começar por cada um de nós não ficar caçando qualquer pequeno detalhe como uma “prova irrefutável” que um time entregou para o outro. O problema do “entrega-entrega” não é da tabela. É moral. Então, o remédio não é mexer na tabela, é mudar a forma de pensar. A começar nos clubes, mas passando por torcedores e órgãos de imprensa também. É possível. Mais do que isso, é necessário.