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Orçamentos sufocados e medo do futuro: o drama dos clubes menores após a tragédia no RS

As chuvas no Rio Grande do Sul impactaram os times da Divisão de Acesso, e a Trivela expõe a dura realidade

A destruição causada pelas chuvas no Rio Grande do Sul fez a CBF suspender duas rodadas do Campeonato Brasileiro. Tal decisão foi tomada após a pressão de 15 clubes participantes da competição. Grêmio, Internacional e Juventude foram atingidos, em intensidades diferentes, pelas enchentes.

Mas o trio da Série A não está sozinho. Outros clubes de todo o Estado foram impactados pelo desastre climático. Equipes do Campeonato Gaúcho Série A-2 – popularmente conhecido como Divisão de Acesso -, também sofrem as consequências dos temporais – que voltaram ao estado neste início de inverno, na última semana de junho.

A Trivela fez uma reportagem inicial sobre os impactos em alguns desses times da segunda divisão. No período em que a água baixou, conversamos novamente com três presidentes dessas equipes para entender, detalhadamente, o que deve acontecer a seguir.

No início de maio, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) indicou pela paralisação das atividades no futebol gaúcho até o fim do mês. O presidente Luciano Hocsman ouviu a demanda desses dirigentes para entender como cada um foi afetado pelos alagamentos no Rio Grande do Sul, as condições de suas instalações e o que está acontecendo em cada cidade.

Temporais no Rio Grande do Sul assolam clubes da Divisão de Acesso

Clubes tiveram suas estruturas comprometidas pelas enchentes e, por conta disso, tiveram que parar. Os temporais também impactaram o patrimônio dessas equipes, cujo prejuízo complica o orçamento para a temporada (e também os próximos anos). Essas equipes reforçam que não vão conseguir se reestruturar sem o apoio da FGF e da CBF.

Prejuízo na casa dos 6 dígitos para o Inter de Santa Maria

O Internacional de Santa Maria é um dos clubes mais afetados pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Com as chuvas na região, o Alvirrubro viu seu campo ser tomado pelas águas. Só que os alagamentos não ficaram restritos somente aos gramados, pois toda a estrutura — incluindo secretaria, refeitório, cozinha, alojamento, ginásio, academia, vestiários, etc — também foi atingida.

Jogadores, comissão técnica, funcionários e torcedores ajudaram a retirar a água das dependências do time. Pedro Della Pasqua Neto, presidente do Alvirrubro, explica que, antes das chuvas atingirem o Rio Grande do Sul, a diretoria já estava realizando melhorias na estrutura. Contudo, as despesas causadas pelo desastre climático impactam diretamente as finanças:

– Perdemos, móveis, utensílios, computadores… Perdemos principalmente a parte elétrica. Na parte do alojamento, tínhamos 12 jogadores. Temos que recolocá-los em um hotel na cidade, tudo isso são custos, tudo isso são perdas, então posso dizer que as perdas hoje já ultrapassam os seis dígitos. E também a falta de captação de recursos agora, porque não temos jogos, não temos renda… Então a gente fica com pouco dinheiro em caixa numa situação financeira extremamente difícil para dar sequência -, disse o presidente do Internacional de Santa Maria.

O Estádio Presidente Vargas, do Internacional de Santa Maria, ficou quase uma semana sem luz e água até que os reparos da parte elétrica fossem finalizados. Atualmente, o Alvirrubro está operando em sua normalidade. Entretanto, a retomada do campeonato significa um custo ainda maior com os deslocamentos em estradas auxiliares, já que as principais rodovias do Estado foram alagadas.

Aimoré precisou liberar seus jogadores após o caos

No dia 2 de maio, o Monumental do Cristo Rei, do Aimoré, foi totalmente tomado pelas enchentes, assim como a parte interna. Quando a água baixou, os atletas do Índio Capilé tiveram que deixar suas residências, no centro de São Leopoldo, para se abrigarem no estádio.

O presidente do clube, Paulo Costa, nos conta que liberou os jogadores, tanto do profissional, quanto da base, até porque muitos deles eram de outras cidades e estados.

– Os jogadores desabrigados estavam em condições precárias. Optamos por liberá-los para suas casas pagando essas despesas todas. Acho que o prejuízo financeiro será considerável. Será um longo caminho para a reconstrução, tanto do Clube, quanto da nossa cidade, que 80% foi afetada. É possível reparar o dano, mas será uma recuperação lenta, gradual e trabalhosa -, disse o presidente do Aimoré.

Lajeadense cedeu parte de sua estrutura para o Exército

Lajeado, no Vale do Taquari, é uma das regiões que mais sofreram com as chuvas no Rio Grande do Sul. A estrutura do Lajeadense, por sua vez, não foi atingida diretamente pelas enchentes. Mesmo assim, o futebol ficou em último plano, já que o Alvi-Azul cedeu parte de sua infraestrutura para o Exército Brasileiro, que socorreu as pessoas atingidas pelos alagamentos.

Foto: (Lucas Brunetto/Prefeitura de Lajeado) - Lajeado, a casa do Lajeadense
Foto: (Lucas Brunetto/Prefeitura de Lajeado) – Lajeado, a casa do Lajeadense

Marcos Mallmann, presidente do Lajeadense, relata que mais de 150 soldados ficaram hospedados no estádio. Ainda não dá para cravar o tamanho do prejuízo. Uma parte do muro cedeu. Há a suspeita de que o solo está afundando pelo excesso dos temporais. Entretanto, isso só deve ser confirmado com averiguação de engenheiros assim que o caos passar, até porque as atenções estão todas voltadas para a cidade.

– Um dos maiores impactos da enchente (para o Lajeadense é que) a gente tá com um contrato de 25 atletas mais comissão técnica, são 35 pessoas, muitas delas no dia a dia a gente tem que fornecer café da manhã, almoço e janta, então custo alto. E neste momento não temos receita, né? Feliz ainda porque alguns patrocinadores estão pagando o patrocínio. […] Eu ainda não tenho uma noção exata da dimensão que o estrago vai fazer, mas vai ser grande. -, declarou Marcos Mallmann.

Futebol do Rio Grande do Sul precisa de ajuda para se reerguer

Por mais que cada clube ouvido pela Trivela tenha suas particularidades, foi um consenso de que o futebol do Rio Grande do Sul vai precisar de ajuda para se reerguer. Os três presidentes relatam que o auxílio da Federação Gaúcha de Futebol e/ou da entidade máxima nacional se torna fundamental. A previsão é que haja aos time da Divisão de Acesso um repasse de R$ 65 mil, da CBFA, via FGF, para que os clubes possam cobrir gastos (mediante apresentação de comprovantes).

Enquanto à Divisão de Acesso, o campeonato foi retomado no final do mês passado após 34 dias de paralisação. Os clubes têm contrato com jogadores, comissão técnica e demais funcionários, mas os cofres não estão recebendo dinheiro suficiente devido à tragédia climática no Estado.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.
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