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Celso Barros: “Em 2010, não tinha R. Caetano e vencemos”

Fim de outubro e começo de novembro. Parte da diretoria do Fluminense trabalhava com uma ideia na cabeça: não renovaria o contrato de Diguinho. Naquela época, o jogador era um dos poucos do time ainda sem vínculo para a próxima temporada. Um dos homens de confiança de Abel Braga, ele dificilmente ficaria para 2013. O time já conversava, inclusive, com dois nomes para o seu lugar. Entre eles, não constava o ex-corintiano Elias, atualmente no Sporting. Mas atletas promissores e com potencial de revenda. Naldinho, do Sport, e Moisés, da Portuguesa, foram alguns dos observados.

O departamento de futebol, no entanto, sabia que não seria fácil liberar Diguinho. Poderiam esbarrar numa manifestação do presidente da Unimed, Celso Barros, sempre grato aos atletas que ajudaram o clube nas conquistas. E foi isso que aconteceu. O representante da patrocinadora entrou em campo e pediu a permanência do volante nas Laranjeiras. Ele nega. “Quem me trouxe a renovação do Diguinho foi o Rodrigo Caetano, que conversou com ele e eu apoei. Não foi por causa do Celso Barros. Quem trouxe foi o próprio Rodrigo, o clube, o prório Abel. Então, não teve nada de diferente disso”, afirma.

O mecenas é um dos personagens do tetracampeonato tricolor. Ele concedeu entrevista ao blogueiro para falar um pouco sobre o título do Fluminense e a relação de sua empresa com a equipe. Abaixo, alguns trechos da conversa. Os demais poderão ser conferidos na edição de dezembro da revista ESPN, que chega às bancas nos próximos dias.

O presidente Peter Siemsen se referiu ao senhor como um dos ídolos do Fluminense. O senhor se vê assim?

Não, eu não concordo que eu seja um dos maiores ídolos da história do clube. Acho que nós fomos importantes como patrocinadores porque começamos o patrocínio quando o clube estava na Série C e ninguém acreditava no Fluminense naquele momento, né? Nós sabíamos que o Fluminense era uma marca forte e que a torcida evidentemente queria muito voltar à elite do futebol brasileiro. E naquele momento ganhamos a Série C, tivemos aquela volta à Série A a partir de 2000 e aí veio a trajetória do patrocínio até hoje.

Um dos argumentos do Peter é que senhor foi um dos poucos, talvez o único, a se manter ao lado do clube durante todo esse tempo.

É verdade. Na realidade, o presidente Peter hoje é campeão, o presidente (Roberto) Horcades foi campeão conosco da Copa do brasil e do Brasileiro. Na Série C eram três presidentes, o Fluminense vivia uma crise política importante, tinha um triunvirato, e nesse tempo todo o que houve de comum foi a manutenção do patrocínio, no caso, a Unimed. Por acaso, eu presido a empresa durante todo esse tempo. Por isso também eles realçam um pouco toda essa história que construimos ao longo desses anos.

Em toda essa história, qual paralelo dá para fazer entre o Fluminense de hoje e o de ontem?

Quando fomos campeões brasileiros em 2010, era o Alcides Antunes e o Muricy Ramalho. Agora fomos campeões com o Abel, Sandro, vice, Rodrigo, diretor executivo. No tempo da Capa do Braisl, era Renato Gaúcho e Branco. Então, acho que você ganhar a Copa do Brasil naquela época foi fundamental para voltar à Libertadores que o Fluminense não participava há muito tempo. Acredito que cada período teve o mérito das pessoas que trabalharam nesse tempo. Evidentemente, como eu disse, a única coisa em comum nesse tempo foi a manutenção do patrocínio. Mas estávamos presentes em 2007 na Copa do Brasil, na Libertadores, quando fomos vice-campeões e etc. Eu não vejo…

É claro que, desde a Série C, com a crise que o clube vivia politicamente, toda questão de organização, era muito mais difícil você obter os resultados. Nesse período, evidentemente o clube evoluiu de alguma forma e nós fomos também aperfeiçoando a questão do patrocínio. Nesse caminho, a gente acertou, errou, mas eu acho que mais acertamos do que erramos. Os resultados de hoje são comemorados e vistos de alguma forma como se fosse uma coisa fantástica, mas acho que houve a manutenção do patrocínio, o cuidado sempre de relacionar as ações do patrocínio com as ações de markeeting, que é importante para a visibilidade da empresa, e questões técnicas para que a gente pudesse buscar os resultados.

Qual a importância da vinda do Rodrigo Caetano em todo esse projeto?

Ah, eu acho que o Rodrigo Caetano foi fundamental. Rodrigo Caetano é um profissional em que eu sempre acreditei, sempre procurei conversar para que ele viesse para o Fluminense. Então, eu acho que ele teve um papel importante, mas torno a dizer: 2010 não tinha Rodrigo Caetano e estava o Alcides (Antunes), o Muricy e a gente foi campeão. Então, eu acho que o Branco foi importante, independente de qualquer questão. Branco em 2007 e 2008 foi muito importante. A história do Fluminense não é a história de 2012, a história do patrocínio não é a história de 2012, 2010, 2007. É uma história que vem desde 1999, né? Acho que é simplista agora chegar e colocar o Rodrigo Caetano veio… Rodrigo Caetano é importante, importantíssimo, eu trouxe o Rodrigo Caetano. Não é por questão de marra. Quem trouxe fui eu. Porque eu achava que o departamento de futebol do fluminense ia ser mais organizado, profissionalizado. Mas o Branco foi muito importante naquele momento, como nós fomos em 1999 quando estava no fundo do poço. Então, é uma história desses 14 anos. Eu acho que todo mundo que participou dessa história, Renato Gaúcho, Branco, Alcides Antunes, Tote Menezes, Horcades, o triunvirato, o presidente Peter, todas essas pessoas têm importância nessa conquista. Não é uma conquista desse ano. É uma conquista de uma história. E felizmente nessa história estamos juntos desde 1999.

Mas o senhor acredita que essa gestão, ao contrário das anteriores, está se resguardando melhor para uma possível saída da Unimed?

Eu acho que o Fluminense tem que se organizar enquanto clube, enquanto instituição. Me parece que o presidente Peter está fazendo um esforço grande nesse sentido, mas é lógico que o clube não pode viver só da receita de patrocínio. O clube tem que viver da receita de jogador, da receita de bilheteria, de marketing, de outros aspectos, da venda de produto e de camisa. E também de patrocínio. Eu acho que hoje, infelizmente, o Fluminense e outros clubes também estão muito ligados a questão do patrocínio. Não vejo isso como uma opção ideal. Essa questão tem que ser pensada e o clube tem que se organizar para o momento em que o patrocinador… Não é o caso só do Fluminense… Ou de qualquer outro clube resolva rever, o que é natural, a questão do patrocínio e for o caso deixar, que o clube possa estar organizado para continuar crescendo, se mantendo e tendo conquistas.

O Fluminense estaria pronto para sobreviver sem a Unimed hoje?

Não sei se para a saída da Unimed. Falaram nessa história de sócio-torcedor, sócio-futebol, não sei o quê. Há muito tempo, conversei com o presidente Peter… Não que eu seja o mágico ou nada, mas disse que o clube deveria acreditar nessa história. Não sei se no modelo que está colocado, não sei se para votar, nada disso. Mas que aquele torcedor tricolor que goste de futebol, que goste e queira gostar, pudesse contribuir de alguma forma para o êxito do futebol. E aí você poderia ter mensalidade de 20 reais, 50, 100, 500 para quem pudesse pagar, categorias em que você pudesse pagar e ajudar o seu clube a ser forte no futebol. Eu acho que isso é fundamental, o presidente está caminhando nessa linha do sócio-torcedor, o modelo que eu torno a dizer não sei se é o ideal ou não, mas que isso tem que ser feito de alguma forma, tem. Agora tem que ter credibilidade, tem que mostrar que esse recurso está indo para o futebol, tem que mostrar como isso está agregando e ajudando o futebol do clube a ser vitorioso. Então, nesse aspecto, sou totalmente favorável a isso. E acho até uma perda porque eu, como pessoa física, sou sócio do Fluminense, podeira pegar um valor X e pago o valor do sócio, 100 reais. Se o sócio-torcedor fosse uma coisa assim, eu poderia pagar um valor Y, mas não tenho como fazer isso, não há um planejamento de agregar essas contribuições para aqueles que gostam do clube, amam o clube e querem vê-lo forte. Então, eu acho que esse caminho acho que o Fluminense caminha bem.

Nesse tempo que a Unimed está com o Fluminense, nunca cogitou o patrocínio a outro grande clube?

Não, até porque uma coisa que eu acho que é importante nesse período, independente de ser o Fluminense, é que a gente sempre preservou o patrocínio único. Quer dizer, a camisa do Fluminense não é um varal, que tenha 10 marcas, enfim. Sempre teve a Unimed. E é até normal que nós pudéssemos ter o direito ao uso da marca. Poluir a camisa com muitas marcas seria também uma perda de identidade.

Como o senhor enxerga a subida de diversos garotos da base? A relação com o Fluminense está mais tranquila?

Acho que isso é tranquilo. Quer dizer, tranquilo em termos (risos). Na realidade, o Fluminense hoje tem uma safra. Todo mundo fala muito de Xérem, Xérem aqui, Xérem ali, que a Unimed não… Nós adoramos Xérem e acho que nesse momento Xéremnos deu uma das melhores safras de jogadores que nós temos. Wallace, Wellington Nem, Marcos Junio e outros. Então, se o jogador é bom, o jogador jogr. Se o jogador não é bom, pode ser de Xérem, Ninho do Urubu, não sei da onde, não vai acontecer. E na verdade, nós temos tido agora uma safra muito boa de Xérem. E não é difícil equilibrar jogadores jovens, promissores com jogadores mais firmados e a prova disso é o resultados que tivemos na Seleção recentemente.É um exemplo de que nós estamos no caminho certo.

Ronaldinho era um sonho para o Fluminense?

Não sei, parece que ele já acertou com o Atlético-MG. Acho um belíssimo jogador e quem gosta de futbeol quer ter bons jogadores no seu clube. Ronaldinho é um grande jogador, mas nem sempre jogadores que a gente gostaria, podem estar ao noso lado. Até pela questão de investimento e tudo mais. Mas acho um belo jogador e se ele ficar no Atlético, qualquer clube que ele vá, certamente ajudará esse time, esse clube a conquistar resultados positivos.

O histórico do Ronaldinho com o Flamengo seria um problema?

Nesse aspecto, não vejo problema nenhum. Problema é o comprometimento do jogador com o clube, não é se ele tem suas coisas de vida. Ele tem que entender que é atleta e tem que se comportar como atleta do clube. Mas não vejo nesse aspecto nenhum problema.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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