Brasil

Cássio, raro ídolo de paixão contida, é a exceção que confirma o Corinthians

Antes quase que sinônimos, Cássio e Corinthians se despediram no último sábado

A lista de ídolos de Corinthians ao longo de 110 anos de história não poupa exageros. Ali, se tem de tudo um muito. Neco, Luizinho, Wladimir, Sócrates, Neto, Marcelinho Carioca e tantos outros foram demasiadamente corintianos, alvinegros demais, excessivamente fiéis, entregues ao sentimento do clube de maior torcida da maior cidade do país. Rivellino, unanimidade técnica que acabou por sair pela porta dos fundos, teria dito que trocaria a Copa do Mundo de 1970 por um Campeonato Paulista qualquer com o alvinegro. Tratava-se de emoção demais para não retribuir, e o sentimento transbordando virou o peso que lhe custou a sequência no Parque São Jorge.

Alguém pode pensar que grandeza se faz assim em todo canto – devoção, paixão, proximidade total, um de nós lá no campo. Mais ou menos. A identificação tem suas nuances a depender das cores e logradouros, e no Corinthians do Bom Retiro, da Ponte Grande, da Fazendinha, do Pacaembu e de Itaquera se forjou uma referência muito própria, uma paixão que se faz das linhas para dentro e também nos gestos, nas palavras, numa entrega completa de um certo jeito de ver o jogo e, por consequência, a vida.

O Doutor que fez profecia ao cantar a bola e prever morrer num domingo de Corinthians campeão, o Pé de Anjo que firmou a marca da segunda pele, o hoje mais popular apresentador da TV cuja verve só se justifica porque foi ali, de preto e branco, que se fez eterno. Onde mais poderia jogar Carlos Tévez, jovem revelação da seleção argentina e um furacão no futebol brasileiro, se não no lugar que preza pelo bom futebol, claro, mas que celebra a dedicação indomável dos incansáveis, mais até que uma caneta, um golaço? É um lugar sensível. O torcedor de futebol é muito mais inteligente do que se considera.

Até que surgiu Cássio, quase dois metros de altura, numa senhora exceção para confirmar a regra, uma rara referência de paixão tímida, discreta. Um goleiro contratado do futebol holandês que surge num momento de emergência fechando o gol. Em semanas, campeão da América na primeira prateleira do protagonismo, autor da defesa eterna contra o Vasco na saída para a Praça Charles Miller. Em meses, campeão do mundo para fazer da chave do melhor em campo uma guitarra improvisada no Japão. Um tipo atípico, confundindo nossas convenções sobre o que é ser Corinthians enquanto acumulava títulos e milagres por mais de uma década debaixo dos paus.

O gigante se fez para sempre sem grandes hipérboles nem o caminho mais fácil, o do discurso popularesco, esse cujo afeto é reverenciado e exaltado a cada meia saída de campo, numa pergunta de raspão sobre como foi o primeiro tempo. É como se fosse um Marcelinho às avessas, com calma de entrar na história, sossegado demais para lembrar seu lugar na estante meio que naturalmente, semana após semana, desde a Libertadores sob risco lá em abril, maio de 2012. Quando Cássio dá adeus, todo esse Corinthians vem à tona, o que explode, não o da emoção contida, que aparece agora perfeita para reafirmar a marca do pertencimento por ali.

A despedida de Cássio no CT Joaquim Grava foi comovente, mas não catártica, porque Cássio não grita como Ronaldo Giovanelli, não tira onda feito Emerson Sheik (nem chegaria de helicóptero para treinar), muito menos comove pelo suor tipo Biro-Biro ou Wilson Mano. Muitos vão dizer, inclusive, que de goleiro se viu tantos melhores, e que líder, mesmo, foram outros, mas vá lá, foi um enorme. O abalo fica para o entorno, os jogadores jovens do elenco registrando uma última foto, as torcidas marcando presença, os filhos dos funcionários tão emocionados, representantes de toda uma geração que desde que começou a assistir futebol imagina que um gol defendido pelo Corinthians terá até sempre aquele gaúcho meio cabeludo, um corpo que parece não caber direito e que se mantém lá, firme e forte, segurando as pontas. Se não há a loucura, se não há no ídolo o desespero de nunca mais vestir o símbolo que o fez alguém no mundo, há a admiração, o acolhimento, a segurança – também importa.

Um dos temas mais fascinantes do futebol é o tratamento aos ídolos do clube ao longo de seus vários anos de casa, porque, ainda que se possa falar em gestão de carreira, não há manual de instruções te contando qual o melhor jeito de tirar não um titular do time, mas uma estátua, um pôster, a própria representação dos maiores títulos da história. Me parece de ótimo tamanho para clube e goleiro que Cássio tenha recebido uma generosa proposta de Série A e entendido junto com a casa que era hora de buscar uma nova onda, provavelmente a última volta, diminuindo a pressão de ser o escudo de um vestiário e a caminho de baixar o gás de vez. Com outra camisa, será só o Cássio, o Cássio do Corinthians, o Cássio que parou o Diego Souza, o Chelsea, o Cássio de Copa do Mundo, mas vai saber. Desses caras a gente pode esperar de tudo, até virar um ídolo torto, descomunal.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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