Brasileirão Série A

Perfeccionista, ‘ligado no 220’ e fã de ciências: Rafael Guanaes é o técnico sensação do Brasileirão

Treinador de 44 anos vem sendo peça fundamental na campanha do Mirassol na estreia do Campeonato Brasileiro em 2025

Se antes da estreia do Brasileirão falassem que a grande sensação da competição seria o Mirassol, muitas pessoas poderiam duvidar. Afinal, o time do interior de São Paulo fazia sua estreia na competição, havia recentemente perdido por 2 a 0 para o Corinthians nas quartas do Paulistão e realizava a troca de seu comandante.

Rafael Guanaes chegou em 13 de março, após curta passagem pelo Atlético-GO, para substituir Eduardo Barroca, que havia deixado o clube em 21 de fevereiro. O técnico teve um curto período de treinamento antes da estreia do Brasileirão, diante do Cruzeiro, quando perdeu por 2 a 1.

Apesar da derrota, o time não se abalou e, a partir daí, Rafael Guanaes transformou o jeito de jogar futebol do Leão. Desde o início da competição, são incríveis oito vitórias, oito empates e apenas três derrotas, tornando o Mirassol a grande sensação do torneio.

Dentre os adversários derrotados pelo Mirassol estão os principais rivais do estado, como Santos, São Paulo e Corinthians, além de um empate com o Palmeiras no Allianz Parque.

Mas afinal, quem é Rafael Guanaes, treinador sensação do Brasileirão?

Com 44 anos, Guanaes não teve uma carreira longa como jogador. Ele passou por Corinthians e Palmeiras nas categorias de base, antes de se mudar para os Estados Unidos, onde estudou Educação Física. Na faculdade, defendeu o futebol universitário da Campbell University.

Ao retornar ao Brasil, o treinador foi contratado para o time profissional do Nacional, da capital paulista, e depois teve passagem pelo Joseense, equipe da cidade de São José dos Campos.

E foi em seu último clube como jogador que Guanaes estreou como treinador, logo que completou 29 anos. O jovem assumiu o comando da equipe, permanecendo no cargo por quatro anos, de 2010 a 2014.

Rafael Guanaes em partida pelo Monte Azul. Foto: Arquivo Pessoal.

Depois, o treinador passou por mais equipes do interior paulista: União São João, São Carlos — onde ganhou seu primeiro título, o do Campeonato Paulista Série B em 2015 –, e por fim Monte Azul, onde chegou em 2017.

Marcelo Favero é presidente do Monte Azul e já estava no cargo quando Guanaes assumiu como treinador. O dirigente relembra com carinho a passagem do técnico no comando da equipe.

— Foi uma passagem bastante marcante, pois o Rafael Guanaes fez um belo trabalho, levando o Atlético Monte Azul à semifinal da Série A3 do Campeonato Paulista. Estivemos a um passo do acesso para a Série A2, porém acabamos perdendo a semi para a Inter de Limeira, que acabou conquistando o acesso — relembrou o dirigente.

Depois, o treinador seguiu caminho para o Votuporanguense em 2017. Na equipe, foi campeão da Copa Paulista de 2018, e também deixou boas lembranças, conforme lembra o hoje presidente do clube, Edilberto Fiorentino, mais conhecido como Caskinha.

— Tanto como pessoa, quanto profissional, Guanaes sempre foi um ser humano muito dedicado ao trabalho, estudioso ao extremo, e principalmente justo e ético com todos aqueles que fazem parte do seu dia a dia no trabalho. Ele chegou ao clube como uma grande promessa, perante o trabalho que já vinha desenvolvendo em outros clubes e pelo seu ritmo acelerado de trabalhar muito — explicou o presidente, que na época atuava como diretor do clube.

O destaque no Votuporanguense fez com que o treinador chamasse a atenção do Athletico, que o contratou para assumir a equipe sub-23. No comando do Furacão, foi campeão do Campeonato Paranaense em 2019, na época em que o clube usava as categorias de base na disputa do Estadual.

Depois, ainda passou por Sampaio Corrêa, Tombense e Novorizontino, antes de chegar ao Operário, do Paraná. Conduzindo o Fantasma por duas temporadas, chegou a ser o técnico mais longevo da Série B, e viu seu trabalho ganhar cada vez mais destaque. Em 2025, foi contratado pelo Atlético-GO, mas permaneceu muito pouco na equipe.

— Ele foi um dos melhores treinadores que o Operário teve. Muito cabeça aberta, um cara que além de técnico, é empreendedor, que gosta das modificações, de valorizar o clube. Então, para nós, a passagem dele foi uma passagem excelente. Para mim, como presidente do grupo gestor, foi um dos melhores técnicos que nós tivemos durante os 10 anos que eu estive dentro de clubes — disse José Álvaro Góes, presidente do grupo gestor do Fantasma.

Guanaes como técnico do Operário. Foto: Foto: Enzo Binotto/Operário

— Como profissional, ele é ligado no 220. O homem é diferenciado. Ele gosta das coisas perfeitas. Ele é perfeccionista, é um cara trabalhador, um cara batalhador, não tem horário, não tem nada, então é um cara que tem que tirar o chapéu para ele. E como pessoa é um cara extraordinário, de bom papo, família. Ele é reservado, mas um cara boa praça que dá para gente conversar e trocar ideia — completou José Álvaro.

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Guanaes é um dos diferenciais do Mirassol

Após a passagem pelo Atlético-GO, Guanaes chegou à pequena cidade de Mirassol com a missão de fazer o clube da cidade ter uma boa campanha na estreia do Brasileirão

A equipe do interior queria mostrar todas as suas credenciais e o treinador foi a pessoa perfeita para isso. A química entre o Leão e Rafael Guanaes deu certo e o técnico passou a ser uma das peças fundamentais do clube em sua primeira temporada na Série A.

Utilizando uma metodologia moderna de trabalho, inclusive tendo a neurociência como uma de suas grandes aliadas no dia a dia, Guanaes vai deixando sua assinatura por onde passa, e até quem conheceu o treinador recentemente já consegue reconhecer as qualidades do técnico.

— Ele é uma pessoa que tive o privilégio de conhecer aqui no Mirassol e já pude perceber que ele é um treinador altamente capacitado. É um profissional de qualidade, que no dia a dia não mede esforços para fazer o melhor e extrair o melhor dos atletas, que é o mais importante. Ele utiliza uma metodologia moderna de trabalho, valorizando todo o entorno dele — conta o coordenador de saúde e performance do Mirassol, Danilo Augusto.

— O professor Rafael Guanaes faz questão de extrair todas as informações e utilizar no dia a dia. Ele dá uma enorme importância à ciência, né? Ele aplica essa ciência dentro do trabalho dele. Ele é adepto do treinamento integrado, que é um treinamento que contempla os aspectos físicos, técnicos, táticos, comportamentais e estratégicos. Isso em todas as sessões de treino e em todas as atividades — completou Danilo.

Guanaes sendo apresentado no Mirassol. Foto: JP Pinheiro/Agência Mirassol

E não é apenas quem acabou de conhecer Guanaes que elogia o treinador. Profissionais que acompanham o técnico há bastante tempo também enchem de elogios o técnico. É o caso dos auxiliares Marcelo Mendes e Rainer Costa. A dupla faz parte da comissão técnica montada e agora atua no Mirassol, ao lado dele.

O caráter e o bom coração do treinador também são ressaltados pelos colegas de trabalho.

— Ele é um cara mais tranquilo, um cara brincalhão, apesar de ser o chefe da comissão. Mas é um cara que dá muita liberdade para tudo, e a gente se sente feliz de estar trabalhando com ele por causa disso. É um cara que nos dá abertura para treino, para conversa, para falar algumas coisas e ele recebe bem e troca muita ideia. Então é um cara muito bacana no dia a dia. Esse jeito dele parece meio carrancudo, mas é um cara de um coração do tamanho do mundo — compartilhou Marcelo Mendes, que trabalha com o treinador desde 2021.

— Eu não vou dizer que é um paizão, porque nós somos quase da mesma idade. Mas é um irmãozão. Fala na hora que tem que falar, que acha que tem que estar melhor e quando a gente também fala com ele, ele recebe bem. É um ser humano ímpar. Ele se preocupa com tudo e com todos — completou.

A opinião é compartilhada por Rainer Costa, que elogia também a organização do treinador, algo que para ele é o que faz toda a diferença no dia a dia e nas sessões de treinamento.

— O Rafael é bastante organizado e a gente tem que ser organizado também. Temos que preparar tudo antecipadamente, ele é bastante exigente nessa parte, mas ele nos ensina muito também. O cara é um professor para a gente, então estamos preparados. Ele prepara a gente para o dia a dia. O Rafa é um cara parceiro. Ele cobra, mas te dá apoio. Ele te protege nas situações — contou o auxiliar, que atua com Guanaes há dez anos.

No Leão, Guanaes tem a oportunidade de treinar atletas experientes, como o goleiro Walter e o lateral Reinaldo, e jogadores mais jovens, extraindo o que há de melhor em cada um. A atenção com os atletas pode ser um diferencial para o bom momento do Mirassol.

— Ele é muito preocupado com o estado atual do atleta, com a condição que o atleta tem e que pode oferecer ali no dia a dia. Ele é muito antenado em todos os detalhes que fazem parte do contexto do treinamento, e é um cara que tem um trabalho humanizado. Ele se preocupa com o bem-estar do atleta, em fazer com que o atleta se sinta bem no ambiente de trabalho, e também que possa desempenhar sempre ao máximo, no seu limite — conta o coordenador de saúde e performance, Danilo Augusto.

Agora, o treinador tem a missão de manter o Mirassol no mais alto patamar e buscar uma histórica classificação para a Copa Libertadores ou Sul-Americana em 2026.

Guanaes é muito elogiado por quem trabalha com ele no Mirassol. Foto: JP Pinheiro. Agência Mirassol.

— Mirassol e Guanaes foram feitos um para o outro. Clube correto, administração de excelência e um técnico que prima pelos detalhes e não mede esforços para conseguir grandes vitórias.  Não tinha e não tem como dar errado. Quando se faz futebol de forma simples e com pessoas honestas, o resultado é questão de tempo — comentou Edilberto “Caskinha”, do Votuporanguense.

Querido por todos, Guanaes deixa histórias por onde passou

Quem trabalhou com Guanaes guarda as melhores lembranças do treinador. Não é difícil que os ex e atuais colegas relembrem histórias envolvendo o técnico. Desde os engraçados até aqueles repletos de fé, os relatos explicam como o treinador se relaciona com quem o conhece.

— Guanaes chegou ao Votuporanguense para disputar a A2 de 2018, depois de fazer uma boa A3 no Monte Azul. Ao chegar, tínhamos um contrato com ele somente para A2, ele era uma aposta do clube. Quando começou a A2 de 2018 em seu primeiro jogo, ele venceu. Após isso, tivemos dois jogos seguidos fora de casa. Perdemos de 1 a 0 do São Bernardo e levamos 5 a 1 do Nacional. Quando nós, da diretoria, voltávamos de carro após o jogo, ele ainda estava em São Paulo e ligou para o presidente Marcelo, perguntando se, mesmo após a goleada, ele poderia trazer a sua mudança para Votuporanga. Seu medo era que, diante das duas derrotas, uma por goleada, nós pudéssemos mandá-lo embora — contou Caskinha.

— Mas diante da sua pergunta, falamos a ele que nada mudava em nossos planos e que ele poderia trazer sua mudança. Porém, ao trazer sua mudança, chamamos ele para um almoço e passamos a informação de que nossos planos mudaram. O contrato que estava previsto somente para A2 seria estendido para o resto do ano, quando iríamos disputar a Copa Paulista. Inclusive, nesse torneio fomos campeões com o jogo decisivo sendo fora de Votuporanga — completou o dirigente.

Guanaes e elenco do Monte Azul em partida – Foto: Arquivo Pessoal

As boas histórias não se resumem ao Votuporanguense. Por onde passou, o treinador deixou boas memórias e histórias que hoje seus amigos contam com saudade e muitas risadas. 

José Álvaro, presidente do grupo gestor do Operário, lembrou um momento único ao lado do amigo.

— Nos horários de intervalos, quando tinha descanso, a gente saía do Operário e ia jogar um futevôlei. Eu com meu parceiro e ele com o parceiro dele, que era o Bruno Batata. Certo dia, estávamos jogando e aí eu e meu parceiro começamos a brincar com ele, tirar um pouquinho de sarro. Sei que demos um saque em cima dele, ele pegou a bola e chutou para o meio do mato e foi embora. Após uns cinco minutos, ele nos ligou pedindo desculpas. Esse é o Guanaes. Na hora é ‘estouradão’, mas é um cara de bom coração — relembrou rindo o amigo.

O treinador também deixou marcado na memória dos seus companheiros algumas histórias envolvendo a fé. Conforme lembra o auxiliar Rainer Costa, que viveu alguns momentos inesquecíveis com o amigo de longa data.

— Em 2015, a gente começou a trabalhar junto lá no São Carlos, disputando segunda fase da segunda divisão do Paulista, com dez jogos. Em determinado momento, ele nos falou de uma passagem da Bíblia onde o pessoal dava sete voltas em torno da cidade e, na sétima volta, eles dão um grito e conquistam o local. Não lembro exatamente qual era a história, mas ele nos deu essa palavra e falou que a gente subiria no sétimo jogo dessa segunda fase. Justamente no sétimo jogo, enfrentamos o Grêmio Prudente, na casa deles. Era um dia chuvoso, tivemos jogador expulso, mas mesmo assim vencemos por 1 a 0. No dia seguinte, a derrota do Olímpia, se eu não me engano, nos deu o acesso — contou Rainer.


Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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