21 anos de pontos corridos: maioridade precisa ser coroada com maturidade
Ajustes precisam ser feitos para que o sistema de disputa do Brasileirão continue evoluindo

O sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro alcança a maioridade em 2024. São 21 anos de disputas nesse formato, desde a conquista do Cruzeiro em 2003. Antes que se consolidasse a fórmula com 20 clubes, o torneio foi disputado por 24 equipes em 2003 e 2005, e 22 em 2005.
Continuo preferindo os jogos eliminatórios como espetáculo, mas reconheço que o sistema de pontos corridos tem contribuído seguidamente para a evolução do futebol no Brasil. Principalmente no que diz respeito a planejamento de temporada e formação de elenco.
Há uma corrente de analistas e torcedores que credita à mudança no sistema de disputa do Brasileirão a falta de títulos da Seleção Brasileira. Considero precipitada e oportunista a conclusão. Está mais para o campo da coincidência que o último Brasileiro no modo mata-mata tenha sido o de 2002, ano da conquista da Copa do Japão e da Coreia do Sul.
Apenas três equipes disputaram todas as edições do Campeonato Brasileiro desde 2003: Flamengo, São Paulo e Fluminense.
Os maiores vencedores no período são Corinthians e Palmeiras, com quatro títulos.
Os números completos da Maioridade do Brasileirão serão conhecidos ao final da disputa deste ano.
Ainda há um longo caminho a ser percorrido para que o Brasileirão conquiste o reconhecimento internacional que seu equilíbrio sugere.
Algumas questões são econômicas. O Brasil é refém da fragilidade de sua moeda, o Real, frente a Euro e Dólar. Para fechar contas, os clubes precisam colocar em seus orçamentos a venda de jovens valores.
Outros aspectos a serem aprimorados ou corrigidos dependem da CBF. A organizadora do torneio deveria cuidar com mais carinho de sua principal propriedade. O produto merece ser mais bem tratado.
A questão dos gramados é prioritária. Cabe à CBF, no mínimo, exigir padronização e cobrar qualidade dos gramados. Entre as ligas nacionais de pátrias boleiras, a que tem os piores gramados é a do Brasil. Um vexame.
Perde-se tempo com o debate clubista sobre campos naturais ou sintéticos. Desde que aprovados pelo regulamento, os gramados precisam ser bons, não importa se naturais ou artificiais. Gramado ruim não pode ser utilizado.
Uma comissão de jogadores deveria fiscalizar os gramados antes das competições e aprovar ou não. Com seu poderoso orçamento, a CBF pode tranquilamente bancar reformas e multar clubes que não apresentem gramados praticáveis.
Outro ponto é o da iluminação. Estádios que não tenham o mínimo de qualidade de luz não poderiam receber jogos enquanto não tivessem a condição ideal. Mais uma medida que a CBF tem caixa para bancar e, depois, fiscalizar.
A venda de mando de campo de jogo é uma prática que precisa ser extinta. Interfere na isonomia técnica da competição. Com uma distribuição de dinheiro mais justa entre os participantes, alguns clubes não precisariam vender seus mandos para pagar contas. Os clubes deveriam ser obrigados a apresentar um estádio e duas alternativas para casos em que seu campo principal não puder ser utilizado.
Outro aspecto que parece banal, mas não é, diz respeito à padronização dos números nos uniformes. No Brasil existem números ilegíveis. Basta ver o que ocorre na Premier League para entender que não é difícil e ajuda muito arbitragem e torcedores.
A evolução emergencial precisa acontecer na arbitragem. O nível do apito nacional é constrangedor. Renovação apressada e com forte cunho político cobra seu preço com erros bizarros. A tecnologia do VAR nacional é ultrapassada e sua utilização está atrelada à transmissão comercial pela TV. Um erro básico. Quem transmite os jogos não é obrigado a pensar seu posicionamento de câmeras para priorizar o VAR. Tem que buscar a melhor transmissão como espetáculo e entretenimento.
Para mudar esse quadro, a CBF precisa fazer as transmissões por conta própria e distribuir sinais únicos às emissoras de TV ou streaming que comprem direitos. Somente desta forma poderá ser desenhado um esquema de câmeras que atenda à necessidade do VAR e não dependa do orçamento das empresas de comunicação. Com a onda de corte de custos, o número de câmeras em transmissões tem sido reduzido, principalmente em partidas realizadas em estádios sem estrutura ideal.
Por fim, a uniformidade de critérios de arbitragem é urgente. Não se pode deixar o torneio mais importante do futebol nacional à mercê dos conceitos particulares de arbitragem dos ex-árbitros que a CBF contrata para dirigir o departamento. Cada um vê as jogadas de uma forma e acaba contaminando o pensamento dos árbitros em campo.
Os “duelos” entre arbitragem de campo e vídeo também precisam acabar. A arbitragem é uma equipe, não pode existir disputa de protagonismo entre gramado e cabine. O que efetivamente ocorre.



