Brasileirão Série A

Paulo Junior: Trauma do Botafogo em 2023 supera o Campeonato Brasileiro, que vira detalhe

Narrativa do Botafogo no Campeonato Brasileiro 2023 supera a do próprio torneio - cada capítulo é ainda mais instigante que o anterior

Você está vidrado numa série. Quando sobem a trilha e os créditos depois de um momento decisivo, você jura, atônito no sofá, louco para compartilhar com as amizades, que acabara de assistir ao auge, ao que de melhor poderia ser tirado dali, esquece tudo, aquilo foi o ouro, o máximo. A combinação entre a longa relação com os personagens, sua expectativa de várias semanas, uma certa imprevisibilidade suspensa – não é possível que os caras acertaram tanto mais uma vez – e essa incrível capacidade do roteiro em ainda conseguir tirar seu ar nos minutos finais… A mágica. Maravilhado, você garante: é o melhor episódio.

Mas chega o momento seguinte e já não há mais nenhum compromisso com o anterior. Acontece tudo de novo, e de novo, e de novo. Sua emoção à prova, seus equilíbrios virando pó, e a série brincando contigo, deitando e rolando com seu envolvimento. Uma grande história contada em pedacinhos que se superam, se completam e quase parecem forçados demais, óbvios, de tão bem encaixados.

O trauma do Botafogo superou o campeonato. Cada capítulo é ainda mais instigante que o anterior e com pitadas de deboche e exagero, o que faz a tabela virar mero acessório matemático. As disputas paralelas são um detalhe menor, com os rebaixados menos rebaixados já vistos e um campeão que fará sua festa, claro, faixa no peito e pôster na parede, mas sem o destaque devido nessa história, à espera de um spin-off para quem sabe ter sua saga contada. Por agora, todos os 19 outros participantes do mais desajustado Campeonato Brasileiro de todos os tempos estão sob a sombra do protagonismo da Estrela Solitária.

O episódio de quando acabou a luz no estádio, o jogo ficou para o dia seguinte e acabou cancelando a próxima partida, que seria contra um time reserva. Aquele dia que uma virada de três a zero virou quatro a três, perdendo pênalti, tudo nos minutos finais, com um toque de mestre ao ter o menino rival contando que se motivou ao ver a torcida local puxar o “é, campeão!” ainda antes da bola rolar ­– um bom autor de roteiros capricha no subtexto duvidoso, ambíguo, e parece que era para um remador campeão no Pan-Americano, nada a ver com futebol, nada a ver com o jogo de dali a pouco.

‘Não é possível que vai ser isso mesmo'

Teve uma barriga meio filme da Sessão da Tarde, aqueles em que o time dos meninos bonzinhos que só apanham no recreio tem seu dia de ganhar dos bonitões. Não é possível que vai ser isso mesmo, quer dizer que o baixinho de óculos e cabelo desarrumado que mal sabia controlar a bola vai fazer o lance decisivo sobre os melhores jogadores do colégio? É filme, gente. O episódio em que uma semana depois de tomar um quatro a três de virada o Botafogo foi lá e tomou outro quatro a três de virada. Clichê. A previsão era de que o craque da noite não visitaria o alvinegro por conta de seu gramado sintético, mas o jogo trocou de lugar por conta de um show. Quem acredita?

Aí a coisa ficou escancarada. Vai ganhar e toma o empate no minuto 96. Vai ganhar e toma o empate aos 90. Lugar comum de série de esporte, a frustração no final, o jogo só acaba quando termina e outras cascatas desse tipo. A cesta do Michael Jordan no Space Jam depois de estar perdendo por trocentos pontos. Isso não se sustenta mais. Então o Botafogo perdeu a liderança, o campeonato pareceu muito mais para os favoritos da véspera Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG, e a tendência era de que, sem os holofotes, tudo voltasse a uma certa rotina até meio sem graça, dias derradeiros mais quietos, buscando alguma paz.

Estádio Couto Pereira, em Curitiba, de portões fechados, jogo para a TV aberta, últimos minutos para todo o Brasil porque já acabou a partida de lá. Um pênalti para o Botafogo é o momento de redenção mínima, porque já não importa mais a posição na liga, mas ao menos uma quarta-feira de alívio, um chope na quinta, uma sexta-feira leve, um fim de semana tirando uma onda na praia antes do futebol, enviando uma figurinha engraçada para um amigo no WhatsApp, confirmando a viagem de ano novo, pegando um samba sem constrangimento, indo trabalhar com a camisa alvinegra para trocar aqueles dois dedos de prosa com o motorista do ônibus, o porteiro do prédio, o cafezinho do almoço. Gol. Tiquinho Soares, por um instante, matando a saudade da paz. Essa torcida merece.

Mas não sei se estamos vendo séries demais ou se as pessoas que trabalham com roteiro estão tendo uma formação muito padronizada, porque banalizou-se a repetição sem nenhum embaraço. O desenrolar foi no lugar-comum, no chavão, no estereótipo de quem está buscando a crueldade mais pitoresca possível, um jogo de idas e vindas, de altos e baixos, que parece tirado de um manual de contação de histórias. O vizinho do prédio gritou gol e outros termos irreprodutíveis, a transmissão mostrou a reprise, a bola saiu, foi para a área, rebateu, foi de novo, e o Botafogo tomou o empate. Acabou, subiram os créditos e ficaram os fãs perplexos na sala, assombrados porque não é possível que dessa vez a história nos pegou no contrapé de novo. E de novo, e de novo. Aquela sensação submissa de parecer nunca estar preparado, já que dessa vez não parecia, juro.

Estamos na última semana. Falaremos por gerações sobre o que foi acompanhar a temporada 2023 no calor do momento, tal qual os antepassados nas cavernas esperavam um episódio novo de Família Soprano na TV, viam Lost antes do Jornal da Globo e caçavam um arquivo de procedência duvidosa com as legendas de Breaking Bad. Os clássicos são aqueles que sobrevivem ao tempo, afinal. Em algum pequeno núcleo secundário haverá de ser citado o campeão – Palmeiras, Atlético-MG, Flamengo, quem sabe até o próprio Botafogo, virada fácil para uma caneta tão afiada – e uma segunda divisão amarga para um Bahia, um Vasco, um Santos ou um Cruzeiro da vida. No início, diante da tela preta, o letreiro que serve como proteção e aviso: ‘baseado em fatos reais.

Um abraço sincero para todas e todos botafoguenses, com votos de saúde e dias mais tranquilos. Futebol é bom para brincar. Que seja o mais leve possível. Que ressignifique como ficção, história para contar.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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