Campeonato Brasileiro

Hernanes é mais um ídolo-escudo para diretoria, mas, acima disso, agrega demais ao São Paulo

O São Paulo conseguiu dar uma notícia boa ao seu torcedor, mesmo em uma sequência de resultados tão ruins e a zona do rebaixamento. A volta do meio-campista Hernanes, 32 anos, foi anunciada na manhã desta quarta-feira. Uma surpresa que deixou torcedores empolgados, com razão. O jogador era especulado para voltar ao clube no começo do ano, quando ficou claro que deixaria a Juventus, mas a proposta da China o levou. Seis meses depois, ele acerta a vinda ao São Paulo por empréstimo de um ano. O São Paulo ganha um ídolo de volta, que traz o torcedor para perto em um momento que o time precisa de apoio. Serve também de escudo aos dirigentes, que desfilaram incompetência. Acima disso, porém, é um jogador que tem tudo para agregar em campo.

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Como a transferência tornou-se possível

Antes de falarmos de Hernanes no São Paulo, é importante entender como essa transferência se tornou possível. A começar pela ida do brasileiro ao país asiático. Em fevereiro, depois do fechamento da janela de transferências na Europa, a proposta da China levou o jogador, no dia 9 de fevereiro, por € 8 milhões. Para quem queria emprestar o meio-campista, conseguir vendê-lo acabou sendo um negócio melhor do que o esperado pela Juve na época. E foi isso que tirou o jogador do alcance do São Paulo. Os altos salários do futebol chinês o levaram ao Hebei Fortune.

O problema é que as regras do jogo mudaram na China. Primeiro, em dezembro, a Superliga Chinesa diminuiu o limite de estrangeiros. Eram quatro (com a opção de um quinto que fosse asiático), mas a regra mudou para apenas três, sem mais o benefício do estrangeiro asiático como extra. Com isso, muitos clubes tiveram que mudar o planejamento e boa parte deles ficou com mais estrangeiros do que era permitido por partida.

Em janeiro já havia uma ameaça do governo para inibir os gastos estratosféricos feitos pelos clubes da Superliga Chinesa. Foi só em maio, porém, que as regras se tornaram ainda mais rígidas: contratações acima de € 6 milhões teriam que pagar uma taxa de mesmo valor para reverter para investimento no futebol de base do país. Com isso, a tentativa do governo é frear a gastança maluca dos clubes.

Em campo as coisas se complicaram para Hernanes. A regra de estrangeiros já tinha dificultado a situação no seu clube. Além dele, o clube conta com Stéphane Mbia, Ezequiel Lavezzi, Aloísio (outro ex-São Paulo) e Ju-Young Kim. Foram poucos jogos disputados, só oito no total, sendo o último no dia 26 de junho pela Copa da China. Jogou os seis primeiros da liga, até perder espaço. Com a volta de Gervinho de lesão, no início de julho, Hernanes não jogou mais. Foi para o time B do clube para não perder a forma física. Como só três estrangeiros podem ser relacionados para cada partida, ele se tornou menos utilizado.

Foi aí que surgiu a chance de voltar ao São Paulo. O Hebei sabia que ele estava encostado. Hernanes queria voltar a jogar e na China isso deixou de ser possível. Voltar ao clube pelo qual brilhou se tornou uma opção muito mais atraente. O São Paulo buscou o jogador e conseguiu um acordo para que ele venha para o clube que o revelou por empréstimo de um ano, até o final de junho de 2018. O clube do Morumbi arcará com um terço do salário do meia (que se igualará ao jogador mais bem pago do clube), com os outros dois terços ainda pagos pelo clube chinês. Um acordo que satisfez todas as partes.

Em campo, complemento a Cueva

A chegada de Hernanes é um grande reforço para um time que sofre tanto no setor que ele joga, o meio-campo. É verdade que Hernanes não vem bem nas últimas temporadas. Mudou de clube em janeiro de 2014, quando deixou a Lazio, onde era referência, para defender a Inter, na qual teve alguns bons momentos, mas também sofreu com a irregularidade do time. Mesmo assim, era um titular importante do time.

Um ano e meio depois, foi para a Juventus, em agosto de 2015. Em Turim, nunca se firmou como titular. Sempre foi um reserva, em alguns momentos bem pouco utilizado e fora até do banco de reservas. Por isso que acabou negociado com a China em janeiro de 2017. Em um time com a ambição da Juventus, Hernanes parecia não ter espaço.

Se jogar no nível que estava na Juventus, nas partidas que entrava, já será um bom reforço ao clube do Morumbi. Hernanes tem boas qualidades técnicas, chuta bem de fora da área, tem uma bola parada que é perigosa e ajuda a organizar o time. É um jogador que, aos 32 anos, pode fazer com que o São Paulo seja um time mais eficiente com a bola, um dos principais problemas da equipe que era treinada por Rogério Ceni e agora é dirigida por Dorival Júnior.

Hernanes já declarou que quer ser meia, não volante, como jogou em seus primeiros anos de São Paulo. Na Lazio (2010-14) e na Internazionale (2014-15), foi meia, atuando sempre perto dos atacantes e marcando gols. Na Juventus (2015-17), pelo esquema 3-5-2 da equipe de Massimiliano Allegri, foi usado como regista, na posição de Pirlo. Não se deu bem. Os meias da Juve funcionavam em uma posição mais parecida com a que exercia no São Paulo, como um meio-campista marcador que ataca, mas nunca conseguiu ganhar o espaço que era ocupado principalmente por Pogba e Marchisio. É como meia que Hernanes chega ao São Paulo. Na China, era o camisa 10 do time e deve exercer justamente essa função.

A característica de Hernanes é mais de meio-campista do que de atacante, ao contrário de Christian Cueva, atual camisa 10 do São Paulo (Hernanes recebeu a camisa 15, que era de João Schmidt). Por isso, os dois podem se complementar. Cueva pode jogar mais pelo lado do campo, onde já rendeu bem. Hernanes recompõe mais o meio-campo e tem, além dos passes em profundidade, os passes longos e o chute de longa distância no seu repertório. Cueva pode ficar mais perto do gol, aproveitar seus dribles e rapidez. Por isso, Hernanes traz algo que o time não tinha com essa qualidade.

Não se sabe a condição física de Hernanes, mas jogar no time B foi uma forma de tentar manter o mínimo de preparo físico. Mesmo assim, jogadores que voltam da China e do Oriente Médio precisam de algum tempo de adaptação. Só que o São Paulo não tem esse tempo. Precisará fazer um preparo especial para que o jogador esteja em condições de entrar em campo o mais rápido possível. Até porque a 18ª posição na tabela não dá trégua e ele tem potencial para ser um jogador fundamental a um time que vai tão mal em campo.

Escudo para a diretoria

Hernanes é uma melhora ao combalido e transformado elenco do São Paulo, mas é também uma forma da diretoria do clube se defender da enxurrada de críticas – justas, aliás – que tem sofrido pela má gestão. A volta de um ídolo é um item muito comum nos clubes em crise que lutam contra o rebaixamento (e muitos deles sem sucesso). Hernanes é, além de reforço, um escudo para Leco e a sua diretoria se apoiarem.

É um ídolo da torcida que serve como um enorme escudo, mas com reais perspectivas de melhorar o time. Em certa medida, é parecido com Lugano: um jogador experiente e ídolo que chama a torcida para apoiar a equipe, em momento de tantas críticas à diretoria. A diferença é que Lugano, embora mais ídolo, era muito mais questionável em campo. Hernanes tem muito potencial para realmente ajudar o time sendo um titular importante, algo que não aconteceu com o zagueiro uruguaio, de forma até previsível.

Apesar do mau momento que viveu na Juventus, Hernanes é um jogador que tem alta capacidade de ser importante em um time tão carente de futebol, pelas suas qualidades técnicas, capazes de trazer pontos por si em bolas paradas ou em lances isolados. Com um time tão frágil emocionalmente, um jogador como Hernanes em campo também ajuda. Claro, a diretoria sabe que um eventual rebaixamento mancharia definitivamente as suas biografias. Por isso, nem os altos salários de Hernanes foram problema. Mesmo assim, é um grande negócio, considerando que o clube não gasta nada para trazer o jogador de volta.

Sete anos depois da sua saída, Hernanes chega com uma missão dura pela frente. Terá que ser mais do que O Profeta. Com a situação atual do São Paulo, precisará ser um salvador. A torcida se empolgou, com razão. Deve fazer festa com a sua volta. Recebeu a camisa 15 no anúncio feito pelo clube. Primeiro usou a camisa 26, em 2007, a 15, em 2008, e herdou a camisa 10 em 2009, número que vestiu até a sua saída, em 2010. Chega para dar muito mais qualidade ao time. A diretoria espera que signifique também uma melhora que amenize a imensa pressão da torcida.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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