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Greve na Série D faz até cozinheiras e lavadeiras de clube pararem

Se a situação financeira dos clubes da elite do Brasileirão nem sempre é boa, nas divisões inferiores a calamidade é cotidiana. Equipes que possuem renda praticamente nula e precisam sobreviver com o parco apoio de patrocinadores – além, é claro, com a negligência da CBF e das federações. Assim, os atrasos de salários infelizmente acontecem com frequência ao longo da competição. E, por algumas vezes, estouraram o limite da paciência dos jogadores. Na luta pelos próprios direitos trabalhistas, já são quatro focos de greve nas últimas semanas.

Há algumas rodadas, o Imperatriz se recusou a treinar, enquanto o próprio presidente do Vilhena fechou as portas do clube e impediu seu elenco de realizar as atividades. Já nesta semana, o principal episódio aconteceu no tradicional Villa Nova. O clube de Nova Lima vive grave crise financeira e, na lanterna de seu grupo na quarta divisão, não paga salários há pelo menos dois meses – em alguns casos, já são nove meses sem receber. Então, parte dos funcionários optou por paralisar os trabalhos.

Alguns jogadores sequer viajaram para o duelo contra o Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. E, com o time desfalcado, o resultado não poderia ser diferente: goleada por 5 a 0 para os cariocas. Porém, a situação é bem mais profunda. O elenco chegou a ficar sem jantar e também treinou com as roupas sujas, porque as cozinheiras e lavadeiras aderiram à greve. Além disso, a sede do clube teve a água cortada por falta de pagamento. As reclamações se concentram sobre o presidente Nélio Aurélio, recém-eleito, que, segundo os atletas, nunca compareceu ao CT para conversar com eles sobre a situação.

Já no Piauí, a manifestação do River não teve tantas consequências, mas gerou represálias da diretoria. Dono de uma das melhores campanhas na Série D, o time não treinou em dois dias da última semana para protestar contra os três meses de salários atrasados. O problema vem desde o começo da competição, mas, diante das propostas da diretoria, o elenco preferiu abafar o caso. No entanto, o prometido não acabou cumprido e fez com que o movimento estourasse entre os atletas.

Só que a resposta do presidente Júlio Arcoverde não melhorou em nada a situação do Galo. O dirigente foi a público dizer que os jogadores “estavam fazendo piti” e que já sabiam das dificuldades do clube para cumprir seu compromisso, sem a necessidade de alarde. O elenco do River não recebeu bem as afirmações de Arcoverde, reclamando da humilhação. Mas, apesar da mágoa, o time não deixou de cumprir seu objetivo em campo, vencendo o Santos do Amapá por 1 a 0 e confirmando a classificação às oitavas de final da Série D. Honra que se mantém apesar dos problemas.

Abaixo, outros destaques da coluna semanal “Lado B de Brasil”, que fala do futebol brasileiro além do que acontece na Série A. Confira:

Série D

O Azulão segue voando

Rodada após rodada, o São Caetano vai confirmando o excelente desempenho na Série D. O Azulão chegou à sexta vitória em sete rodadas, outra vez com placar amplo: 3 a 0 sobre o Volta Redonda no Anacleto Campanella. Treinada por Luiz Carlos Martins, a equipe mantém média de três gols por jogo. E o artilheiro Jô ampliou suas marcas na competição, balançando as redes duas vezes e chegando a 11 tentos na quarta divisão. Entretanto, outro destaque da vitória do time do ABC foi o golaço de Esley, que abriu o placar. Um lindo chute na gaveta, para abrilhantar ainda mais o momento do clube.

Oitavas de final quase completas

Restando uma rodada para o fim da fase de grupos da Série D, a maioria das equipes já está garantida nas oitavas de final do torneio. Até o momento, são 13 times classificados: Rio Branco-AC, Remo, Palmas, River, Campinense, Coruripe, Estanciano, Caldense, Rio Branco-ES, Ypiranga de Erechim, Operário-PR, São Caetano e Lajeadense. Todavia, a última rodada segue interessando todos eles. Apenas São Caetano e Campinense não podem ser mais alcançados na liderança de seus grupos. Além disso, o chaveamento nos mata-matas será feito por campanha, com os times com maior pontuação pegando os de menor.

As últimas brigas

Assim, somente duas chaves seguem com vagas em aberto na Série D. No Grupo 4, o Treze perdeu na visita ao eliminado Serrano e acabou ultrapassado pelo Central, com um ponto na frente. Já no Grupo 6, tudo aberto. O Crac é o líder isolado, com 15 pontos, e só depende de um empate contra o Villa Nova-MG para se garantir. Já o grande jogo se promete em Ribeirão Preto. Botafogo e Gama fazem confronto direto no Estádio Santa Cruz e, com os mesmos 12 pontos, quem vencer passa. Já a vantagem do empate é dos paulistas, que convocaram sua torcida para lotar as arquibancadas.

Série C

roberto leal

Com drama, a Lusa vence a decisão no Canindé

Correndo o risco de passar mais um ano na Terceirona, a Portuguesa acordou para a vida e pegou embalo nos últimos jogos. São três vitórias dos paulistas nas últimas quatro rodadas. E, nesta segunda, a equipe rubro-verde venceu o famoso “jogo de seis pontos”. Em confronto direto com o Juventude, a Lusa fez valer a sua força no Canindé, mas não sem antes sofrer. O time do técnico Estevam Soares esteve por duas vezes em vantagem, mas permitiu em ambas o empate do Juventude. Já os gols na vitória por 4 a 2 saíram só depois dos 39 do segundo tempo, com Hugo e Willen. Guilherme Queiroz fez seu 11º gol na Série C, igualando a marca de Leandrão na artilharia geral. O resultado recolocou a Lusa no G-4. (PS: Iria colocar uma foto do jogo, mas não resisti ao ver Roberto Leal na chamada principal do site da Portuguesa)

O Guaratinguetá realmente ressurgiu

Quem acreditava que o Guaratinguetá estava morto, após ser rebaixado na Série A2 do Campeonato Paulista e passar os primeiros 30 jogos do ano com apenas uma vitória, se enganou. A parceria com o Atlético Paranaense, que fez a Garça se mudar do Vale do Paraíba para Curitiba, revigorou a equipe. E já são três vitórias nas últimas quatro rodadas, duas delas contra times do G-4, o suficiente para tirar o clube da zona de rebaixamento. O último triunfo aconteceu contra o novo “vizinho”, o Londrina. O Guará reforçou o seu elenco com jogadores não utilizados pelo Furacão, servindo como time satélite.

O guineense que virou solução ao Brasil

A torcida Xavante ficou órfã do artilheiro da Terceirona. Leandrão recusou proposta do Ceará e fez juras de amor ao Brasil de Pelotas, mas não resistiu quando o Vasco veio buscá-lo. O desempenho dos gaúchos vem caindo na Série C e, agora, eles precisam se virar com uma nova referência no ataque. Neste final de semana, quem assumiu a missão foi Nena. Nascido em Santos, o atacante é dos muitos brasileiros que se naturalizou por Guiné Equatorial, vislumbrando uma chance na seleção. Mas, sem nunca defender a equipe africana, o veterano brilhou mesmo no Bento de Freitas. Marcou os dois gols contra o Tombense e não evitou o custoso empate dentro de casa, que amplia para quatro rodadas o jejum dos rubro-negros.

O Tupi dispara na liderança

Já o grande destaque do momento na Série D é o Tupi. Após ficar a um triz do acesso em 2014, o clube de Juiz de Fora vive excelente fase e assumiu a liderança do Grupo B. O time venceu quatro de suas últimas cinco partidas, ainda que a vida tenha sido fácil neste final de semana: Geraldo e Felipe Augusto fizeram os gols na vitória por 2 a 0 sobre o lanterna Caxias. O Galo Carijó abriu três pontos de vantagem para o Londrina, segundo colocado, e com oito pontos de sobra no G-4, só não se classifica com um desastre.

Fortaleza também quase lá

No Grupo A, nenhuma mudança no topo da tabela. O Fortaleza voltou de Natal satisfeito com o empate por 0 a 0 contra o América e, graças ao tropeço do Vila Nova, abriu quatro pontos de folga na primeira posição. Novidades apenas um pouco mais abaixo, com o Asa de Arapiraca (outro clube que manifestou publicamente os atrasos de salários nesta semana) superando o próprio América e assumindo a terceira posição, enquanto o Botafogo da Paraíba ronda o G-4, após acumular a terceira vitória nos últimos quatro jogos.

Série B

sassá

A vitória dramática do Botafogo

A Segundona tem primado em emoções. E um grande exemplo veio neste sábado, no Barradão. Na base da raça, o Botafogo arrancou um resultado essencial do Vitória. A festa alvinegra começou com um golaço de Navarro, de voleio, já no segundo tempo. Os baianos pareciam prontos para se recuperar, ao buscarem o empate nos acréscimos, com Guilherme Mattis. Mas ainda houve tempo para Sassá ganhar na corrida e anotar o gol decisivo aos 49 minutos. Valeu a liderança dos cariocas, que abrem dois pontos de vantagem.

Equilíbrio total na briga pelo acesso

A cada rodada, aliás, a disputa pelo acesso na Série B reitera o seu equilíbrio. Neste momento, apenas sete pontos separam o Vitória, quarto colocado, do Luverdense na 12ª posição. Paysandu e Sampaio Correia, vivendo boa sequência, se firmaram no G-4. Bahia, Náutico e América Mineiro perdem fôlego. Enquanto isso, mais abaixo, Santa Cruz, Bragantino, Paraná, Criciúma e Luverdense ensaiam a ascensão. Garantia de muita disputa na sequência da competição.

Rafael Costa dá ao Ceará a esperança da salvação

E se a briga pelo G-4 pega fogo, na metade inferior da tabela os times também prometem muita luta para não cair. O maior exemplo vem do Ceará, que venceu os seus dois últimos jogos e, após deixar a lanterna, já aparece na 17ª posição – ainda que tenha feito um jogo a mais do que Boa Esporte e ABC. O Vovô está apenas quatro pontos abaixo do Oeste, que também entrou em campo 24 vezes. E a principal explicação para o bom momento está em Rafael Costa. O atacante chegou em julho, trazido do Joinville, e demorou um pouco para engrenar. Mas, nos últimos sete jogos, o reforço já anotou sete gols. Brilhou contra o São Paulo na Copa do Brasil e, nos últimos dias, ajudou nos triunfos sobre CRB e Náutico.

Pelo país

ibis

O maior momento do Íbis

O feito do Íbis, por si só, já mereceu destaque aqui na Trivela. No entanto, vale a pena repetir: o Pássaro Preto conquistou a maior goleada de sua história. Enfiou 8 a 2 no Timbaúba, fora de casa, em massacre que não coube nem mesmo no placar – com o funcionário do estádio improvisando um “6+2” no marcador. O nome da partida foi Rogério Moicano, primeiro jogador da história do clube pernambucano a anotar quatro gols em um mesmo jogo. Às vezes, a insistência dos jogadores em “pedir música no Fantástico” enche a paciência – Herrera, estamos contigo. Sendo o Íbis, até isso fica mais legal.

O reencontro do Juvenal

Pela segunda vez nesta Copa Paulista, Nacional e Juventus fizeram o “clássico” dos nanicos da cidade de São Paulo. Mas, desta vez, o Estádio Nicolau Alayon não recebeu bom público como havia acontecido na Rua Javari. Apenas 473 pessoas compraram ingresso, cerca de 13% do público total no jogo que aconteceu na Mooca. Mesmo assim, quem esteve nas arquibancadas viu um bom jogo. Em confronto de muitas chances de gol, o Moleque Travesso abriu o placar, mas o Naça empatou com Jorge Mauá e poderia ter virado, parando no goleiro André Dias. O Nacional lidera o grupo, ainda invicto no torneio, enquanto o Juventus vê a classificação se complicar.

Juiz é agredido e, sem policiamento, encerra o jogo

O Maringá deverá ser premiado com três pontos fáceis. Tudo porque um dirigente do Andraus Brasil perdeu o controle de si durante intervalo de partida válida pela Taça FPF. Após primeiro tempo empatado em 1 a 1, o cartola decidiu ir a campo reclamar com o árbitro e o agrediu. Pior para o seu clube, como um todo. Como não havia policiamento suficiente no estádio, o juiz não sentiu segurança para dar continuidade ao jogo e resolveu encerrá-lo. No fim das contas, o Maringá deverá receber de bandeja a vitória por 3 a 0, como um W.O.

O futebol de raiz que sobrevive pelos nomes

Se você está cansado de nomes compostos no futebol, com saudade dos apelidos, basta olhar para a tabela dos campeonatos além da Série A para perceber como eles ainda seguem vivos. Entre os jogadores que marcaram gols na última semana estão: Adalgiso Pitbull (Campinense), Vinícius Queijinho (Palmeirense), Naôh (Coruripe), Caçula (Ypiranga-AP), Peixinho (Internacional-PB), Marcelo Tevez (Aquidauanense), Morotó (Real Noroeste), Panda (Serrano), Samuray (Íbis), Sadan (Itaporã) e Caxito (Afogados da Ingazeira). E a melhor manchete vai para o Globo Esporte, em matéria sobre o Atlético Goianiense:

bambu pedra

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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