Brasileirão Série A
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Discurso “contra tudo e contra todos” é um fetiche do torcedor brasileiro

João Martins diz que há um "sistema" que não quer que o Palmeiras seja campeão, um sintoma de uma doença que ninguém quer resolver

Athletico Paranaense e Palmeiras empataram por 2 a 2 na Ligga Arena neste domingo e os alviverdes deixaram o gramado com motivos para reclamação. José Ivaldo fez um pênalti em Endrick e deveria ter sido expulso por agressão. Foi poupado pela arbitragem — que inclusive reviu o lance no VAR. Um erro que o Palmeiras teria motivos para reclamar e o fez. Só que João Martins, auxiliar de Abel Ferreira no Palmeiras, foi bem além disso.

Usou um discurso que é um fetiche dos torcedores brasileiros, o “contra tudo e contra todos”, alimentando teorias de conspiração e, claro, sem apresentar uma prova sequer do absurdo que disse. O que se viu a seguir foi um circo, que resultou em notas oficiais e relações absolutamente sem sentido para ver quem consegue gritar mais alto e atiçar mais os torcedores. 

É importante começar pelo que disse João Martins após o jogo. O contexto também é relevante: apesar da falha da arbitragem em não expulsar Zé Ivaldo, o Palmeiras abriu 2 a 0 no placar e acabou tomando o empate no segundo tempo, depois de sofrer um gol de pênalti que, este sim, resultou em um segundo cartão amarelo para o lateral direito Gustavo Garcia, que já tinha um amarelo. Assim, foi expulso.

“Ainda bem que sou eu hoje aqui. Nós entendemos que o futebol brasileiro passa uma imagem de que é o mais competitivo do mundo porque ganham vários. Mas ganham vários porque, muitas vezes, não deixam os melhores ganharem. Foi mais uma vez o que se passou hoje. É ruim para o sistema o Palmeiras ganhar dois anos seguidos”, acusou o auxiliar do Palmeiras. “O que aconteceu hoje foi uma vergonha. Como é que se condiciona um jogo aos três minutos?”.

João Martins reclamou também do primeiro cartão amarelo recebido por Garcia, que teria atrasado a cobrança de um arremesso lateral. “Deu amarelo ao Garcia por atrasar um lateral. Inacreditável. O Brasil é especialista em perder tempo, por isso na Europa não se vê jogos do Brasil. E ele dá o amarelo ao Garcia. Depois, um pênalti (para o Athletico) muito bem marcado. E que ele (árbitro) não viu. Não sei, deve estar cansado, falta de preparo físico. Amarelo bem dado, mas condicionado com aquele amarelo ridículo. Só no Brasil isso acontece”, reclamou.

“Tenho que agradecer aos meus jogadores, que fizeram uma excelente partida. Vamos continuar dizendo verdade, podem nos expulsar. Qualquer um se sentiria revoltado se estivesse no nosso lugar. Até riem para nós. É revoltante. Temos uma vontade muito grande de ganhar, fazer o que for preciso para a nossa equipe ser mais forte, mas contra esse sistema é muito difícil”, repetiu o auxiliar, ressaltando que o Palmeiras é perseguido pelo sistema. O tal inimigo oculto, sombrio, um vilão de filme, certamente.

Torcedores têm um fetiche no “Contra tudo e contra todos”

Você certamente já ouviu muito por aí o “contra tudo e contra todos” quando falamos de futebol. Teve clube que já fez até camisa com esses dizeres ao ganhar o título. É um sentimento absolutamente espalhado pelas torcidas de futebol no Brasil. Se dizer ou mesmo se sentir perseguido é um prazer não admitido do futebol brasileiro, tal qual demissão de técnicos. As torcidas sentem um tesão especial em achar que são perseguidos e, mesmo assim, triunfarem.

Isso acontece em basicamente qualquer clube. Os pequenos se dizem perseguidos por serem pequenos e não têm voz; os grandes se dizem perseguidos porque são grandes, há muita torcida contra e todos querem que ele perca. Há um fetiche em achar que o sistema te persegue, que tentará de tudo para impedir o seu time de ser campeão. Sim, o seu time em especial. E há uma coisa monumental atrás disso, o “sistema”, composto por CBF, imprensa e todos os outros clubes, que tentam derrubar com todas as forças o seu clube. Seja ele qual for.

É uma teoria da conspiração, que por si possuem uma atração especial para as pessoas: a de se sentir superior porque percebe algo que os outros, reles mortais, não dotados do seu intelecto ou capacidade perceptiva, podem ver. Aquele que acredita na teoria conspiratória se sente único, especial, uma classe acima dos demais. É um iluminado, capaz de ver onde os outros não veem.

“A teoria da conspiração oferece a chance de ter um conhecimento escondido, importante e imediato para que aquele que acredita nela se torne um especialista no assunto, tendo um conhecimento que nem mesmo os ditos especialistas no assunto têm”, afirmou o escritor Michael Billig em 1984, citado por reportagem da BBC.

A reportagem da BBC ainda cita Stephan Lewandowsky, professor de Psicologia da Universidade de Bristol, do Reino Unido, que estuda a aderência de pessoas às teorias da conspiração. “Nós não gostamos da ideia de que algo terrível possa acontecer do nada, então é psicologicamente reconfortante para algumas pessoas acreditar que exista uma conspiração muito bem organizada de pessoas poderosas que são responsáveis por esses acontecimentos”, diz o pesquisador.

O futebol se tornou um ambiente absolutamente propenso a esse tipo de teoria. Teorias conspiratórias assim se espalham como fogo em mato seco, ainda mais em tempos de redes sociais e com bolhas de pessoas que pensam iguais reforçando as crenças (e as paranoias) umas das outras.

Problema na arbitragem é culpa da CBF, dos clubes e dos jogadores

Para tratar de tantas coisas, comecemos do princípio: a arbitragem brasileira é um problema grave. Os árbitros não só em geral são mal preparados, sem critério algum e erram com uma frequência muito maior do que o que gostaríamos. Isso é, em parte, por culpa também da CBF, que não padroniza os critérios e nem treina bem os seus árbitros. Ela é a primeira e principal culpada, mas não é a única.

Os clubes cobram arbitragem melhores, mas só quando são prejudicados. São raras as ocasiões que acontece de um clube reclamar de um erro a favor. Há uma razão para isso: os clubes, seja por dirigentes, seja pelos técnicos e comissão técnica, reclamam quando são prejudicados para criar uma pressão na arbitragem no próximo jogo, de modo que não errem mais contra si. É uma estratégia de empurra: se vão errar, que errem a meu favor. Isso é um comportamento de todos, todos os clubes, não só o Palmeiras. Sim, o seu, que você tá aí pensando que não, também faz.

Além dos clubes, há também os jogadores. Primeiro, no Brasil se estimula que os jogadores simulem. Desde a base, é estimulado aos jogadores habilidosos que se joguem pra conseguirem a falta, muitas vezes com a justificativa que o jogador precisa se proteger. Temos uma cultura de cai-cai que é imensa.

As simulações se unem a outro problema: a perda de tempo. É, de fato, um inferno o quanto se perde tempo em times que estão ganhando o jogo. É claro que esfriar o jogo é uma estratégia, mas há uma leniência absurda no Brasil, fomentada por uma culta de levar vantagem. Já reparou o quanto goleiro de time que está ganhando fica machucado? Parece uma doença crônica. E não acontece nada, a arbitragem é leniente, os próprios clubes não buscam combater isso — não porque não se incomodem, mas porque querem poder usar quando for a seu favor.

Por fim, mas não menos importante, os jogadores ainda atrapalham imensamente o jogo com as reclamações. A cada decisão da arbitragem, é um teatro de gestos, gritos, bolinho em cima dos árbitros, do bandeira e do quarto árbitro. Aqui entram os técnicos também: há um comportamento constante dos técnicos de atazanar o quarto árbitro e reclamar da arbitragem em tudo. Novamente, não é por acaso: as comissões técnicas fazem isso como uma estratégia pra que os árbitros fiquem ainda mais pressionados e não errem contra seus times. E alguns técnicos, como Abel Ferreira, fazem isso, olha só que ironia, sistematicamente.

O que dá para fazer para melhorar a arbitragem?

Qual é a solução para isso? Não há solução perfeita e ninguém no mundo consegue lidar com isso de forma que não haja mais reclamação alguma, jamais. Mas dá para amenizar. A começar com profissionalização dos árbitros, que passariam a ter salário e dedicação integral. Hoje, eles são profissionais, claro, mas muitos, provavelmente a maioria, nem consegue viver disso. Precisam ter outra profissão. Os principais árbitros, claro, conseguem trabalhar só na arbitragem, mas é um sistema que prejudica o produto final, que é o jogo.

É preciso também uma mudança de comportamento dos jogadores, que precisam parar de simular, de ficar se jogando pra perder tempo quando estão vencendo e parar com as reclamações sempre muito acintosas o tempo todo. Se você reclama de todas as decisões o tempo todo, não é uma reclamação de verdade, é só pressão na arbitragem. E veja: quando os jogadores saem do país parece que eles esquecem de fazer isso. Ou seria por que por lá eles seriam punidos se o fizessem?

E aqui se inclui os técnicos. Precisa parar essa gritaria o tempo todo. É insuportável o quanto eles ficam pressionando a arbitragem o tempo todo do jogo. Há técnicos que se tornam especialistas nisso e Abel Ferreira é um, Mano Menezes é outro. Até Dorival Júnior faz isso, por vezes usando os auxiliares pra reclamarem no seu lugar. É preciso mudar essa cultura que “quem não chora não mama”, que torna tudo insuportável.

Os clubes precisam querer mudar e se organizarem para isso. Exigir a profissionalização, buscar uma padronização da arbitragem. A CBF se tornou mais transparente, temos que admitir isso, mas ainda está longe do ideal. Precisa fazer muito mais e muito melhor para capacitar os árbitros e tornar a arbitragem melhor.

Só que se os clubes não conseguem se organizar nem para montar uma liga, que todos concordam que é necessária, como é que vão se organizar pra algo que não seja chorar para ganhar os benefícios para si?

Além disso, muitos reclamam só para tentar empurrar os erros paras o outro lado, porque querem se beneficiar dos mesmos vícios que bradam indignados quando acontecem contra si. Parece uma conversa de malucos em que o objetivo é gritar mais alto que o outro para se fazer ouvir. Por vezes, tentando ressoar as suas imensas torcidas para engrossar o coro.

No fim, ninguém parece muito disposto a resolver o problema, porque resolver é difícil, dá trabalho, exige organização e, além disso tudo, nunca será perfeito. Reclamar, de preferência alimentando as teorias conspiratórias mais estapafúrdias, costuma ser mais produtivo a curto prazo. O longo prazo? Ah, que se foda. Eu quero é ganhar agora. Depois a gente vê.

CBF divulga nota fazendo correlações sem nexo

A fala de João Martins foi péssima e ajudou a alimentar esse monstro de teorias de conspiração em gente maluca, mas aí começou um outro espetáculo lamentável: o das notas oficiais. A CBF, seguindo o exemplo do próprio João Martins, tinha pontos corretos a criticar na fala do auxiliar, mas não se conteve a isso: faz várias relações toscas.

“O comportamento do jogador brasileiro, que o funcionário em questão tanto critica, não corresponde à realidade, na medida em que o Brasil é o país do mundo que mais tem jogadores atuando no exterior, inclusive na própria seleção portuguesa”, diz a nota, relacionando coisas que não tem nada a ver. O fato do Brasil ser o país com mais jogadores no exterior não invalida que há sim um problema grave de excesso de simulações e de perda de tempo.

Depois, a CBF ainda vai além. “Somos o único país do mundo a oferecer avanços tecnológicos nos estádios, com os telões mostrando os lances da partida em tempo real”. Dizer que aqui somos o único país do mundo a oferecer avanços tecnológicos nos estádios é de rir largado, porque é uma piada ruim. Não temos a tecnologia na linha do gol, por exemplo, que várias ligas europeias usam.

O que acontece no Brasil, de ter o lance no telão do estádio, é ótimo, mas não é exatamente uma novidade. Acontece em outras ligas europeias. O que não tira o mérito da CBF em fazer isso, mas isso é basicamente pedir parabéns por fazer o seu trabalho. Que bom que usamos algumas das práticas comuns. Poderíamos adotar mais. Tipo a profissionalização da arbitragem.

Mas nem tudo é ruim. A nota cita que equívocos acontecem também na Europa (eles ainda meteram um “principalmente na Europa”, o que é um claro exagero, mas sim, acontecem lá também) e que o futebol não é feito por máquinas. O que também é verdade. A CBF se disse muito transparente e, nesse aspecto, melhorou mesmo. Ao menos ultimamente temos podido concordar ou discordar das marcações com explicações do chefe da comissão de arbitragem, o que é realmente importante.

A CBF dizer que encaminhará o vídeo com as declarações conspiracionistas de João Martins ao STJD também é totalmente dentro do jogo. O que João Martins falou é uma acusação grave e que, como ele não pode provar, vai ter que responder. Nisso, está correta.

Palmeiras responde com nota cheia de relações sem sentido

Como o circo não pode parar, o Palmeiras quis também meter o bedelho na cumbuca e divulgou uma nota oficial em resposta à CBF. O clube diz na nota que “a Sociedade Esporte Palmeiras propõe alguns questionamentos, sempre no sentido de defender os direitos do clube e contribuir com a melhora do produto futebol”.

É uma nota que trata o que João Martins fez como uma reclamação normal, quando o que fez foi dizer que há um complô para impedir o título do Palmeiras. Só que vai além. Claro. Se a CBF quis entrar nas comparações estapafúrdias na sua nota, em um verdadeiro campeonato de associação livre, o Palmeiras também o fez.

Por exemplo, ao escrever o seguinte: “Por que a opinião de um profissional português sobre o futebol brasileiro causou tanto desconforto à CBF se a própria entidade, como é de conhecimento público, busca um treinador estrangeiro para comandar a Seleção Brasileira?”. Qual a relação entre as coisas? Nenhuma.

Tem uma pérola também: “Por que a Comissão de Arbitragem da CBF, presidida por Wilson Seneme, nunca pediu desculpas ao Palmeiras pelo erro grave cometido pelo VAR na Copa do Brasil do ano passado?”. Sim, é isso mesmo: o Palmeiras queria um pedido de desculpas.

Não quer dizer que a nota do Palmeiras só tenha questionamentos sem sentido. Tem alguns bons, como por exemplo, “por que o Palmeiras, na rodada seguinte após a mais recente Data Fifa, não pôde contar com nenhum de seus três atletas convocados para a Seleção Brasileira?”.

O questionamento é válido e nós fizemos aqui na semana da Data Fifa, quando a CBF ficava repetindo (e com veículos de imprensa também repetindo, acriticamente) que o “Brasileirão respeitava data Fifa”. Como mostramos, não respeitava muito. O que isso tem a ver com o episódio de ontem e a nota da CBF? Nada. Mas aí também é querer demais.

Também questiona por que o Brasileirão não tem a tecnologia na linha do gol, que ajudaria em lances como o que aconteceu entre Palmeiras x Bahia, que não se teve certeza pelas imagens se a bola entrou ou não. Também questiona porque Zé Ivaldo não foi expulso, como deveria, ou sobre o uso incorreto do VAR na Copa do Brasil 2022, que acabou prejudicando o clube por não ter checado se Jonathan Calleri estava impedido no lance que sofre o pênalti de Gustavo Gómez.

O campeonato de notas oficiais é um circo que é preparado para o torcedor, é claro. Se a CBF quisesse falar ao Palmeiras, falaria, como o Palmeiras também poderia falar diretamente com a entidade. A batalha de comunicados em seus sites é uma forma de continuar o ambiente de gritar mais alto até tentar se sobressair — inflamando a torcida, contra ou a favor, para tentar ganhar a discussão.

Como falamos, tanto Palmeiras quanto CBF poderiam fazer mais e melhor para de fato melhorar o futebol. Mas ninguém quer. Nem o Palmeiras, nem clube nenhum, e muito menos a CBF. No fim, CBF e Palmeiras padeceram do mesmo problema, que é também um problema maior do futebol brasileiro. Ninguém quer mesmo resolver. Todo mundo quer gritar, inflamar a torcida e criar caos. No meio do caos, ele eventualmente te beneficia.

Assim, seguimos nessa situação ridícula de um campeonato tão bom quanto o Brasileiro continuar sendo desvalorizado por seus próprios atores: clubes, jogadores e CBF. E usando o seu ódio, torcedor, como combustível para isso. 

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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