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O Brasileirão respeita a Data Fifa em 2023? Sim, mas na verdade, não

A CBF alega que, pela primeira vez em muito tempo, o Brasileirão irá respeitar as datas Fifa, mas mostramos como isso não é verdade

Uma das coisas que tem sido repetidas exaustivamente pela CBF desde o fim de 2022 é que o Campeonato Brasileiro passará a respeitar as Datas Fifa em 2023. O que seria uma grande notícia se fosse verdade. Opa, peraí, quer dizer que a CBF está mentindo? Vamos por partes. Primeiro, o Brasileirão irá parar durante a Data Fifa? Sim, vai. Isso significa que vai respeitar as Datas Fifa e que, portanto, os jogadores poderão ser convocados sem desfalcar seus clubes? Não, não é verdade. Calma, vamos explicar aqui por que o Brasileirão não respeita a Data Fifa, como a CBF alega.

A data Fifa de junho, que no exterior é chamada de “janela de jogos internacionais”, começou neste dia 12 de junho, segunda-feira, data que os jogadores se apresentam às seleções, e vai até o dia 20, terça-feira, última data para jogos. O Brasileirão não terá jogos durante esse período, mas o pulo do gato, e que torna tudo questionável, é que o Brasileirão terá jogos dias 21 e 22, quarta e quinta-feira.

Na Europa, onde o calendário de fato respeita as Datas Fifa, os clubes só voltam a campo no fim de semana, o que significaria, neste caso, no dia 24. Só que no caso Brasileiro, o fim de semana dos dias 24 e 25 já tem uma nova rodada. Na prática, o que a CBF fez foi empurrar a rodada que acontecia no fim de semana da data Fifa para o meio de semana.

Esse é um padrão que irá se repetir em todas as datas Fifa até o fim do ano: em setembro, a janela internacional é do dia 4 ao dia 12, mas o Brasileirão tem jogo no dia 13 e 14. Em outubro, a data Fifa vai de 9 a 17, com o Brasileirão com rodada cheia nos dias 18 e 19. Em novembro, a janela internacional é de 13 a 21, com o Brasileirão com jogos nos dias 22 e 23. Você pode conferir no calendário oficial da CBF para 2023 aqui.

Um problema grave para jogadores, clubes e torcedores

Qual é o problema de fazer isso? Basicamente, torna impossível que os jogadores que atuam por suas seleções estejam em campo pelo Brasileirão. Vamos pegar um caso prático. Joaquin Piquerez, do Palmeiras, foi convocado para defender a seleção uruguaia. A Celeste entra em campo no dia 14, esta quarta-feira, e depois no dia 20, último dia da data Fifa, às 20h30 (horário de Brasília, que é o mesmo de Montevidéu).

O Palmeiras tem jogo marcado para o dia 21, o dia seguinte, às 21h30, em Salvador, contra o Bahia. Como sabemos, um jogador atuar em dois dias seguidos com viagens no meio disso não é saudável e muito menos recomendável. Será um caso similar ao goleiro Weverton, que jogará pela seleção brasileira nos dias 17, sábado, e 20, terça, na Europa. O segundo jogo será em Lisboa. Ele terá uma longa viagem ao Brasil, o que o impedirá de jogar pelo Palmeiras no dia seguinte.

Na prática, então, significa que o Brasileirão continua não respeitando as datas Fifa, porque os jogadores não terão o intervalo mínimo de 48 horas e nem muito menos o recomendado de 72 horas para poderem estar em campo. Se já seria desgastante se o jogo só acontecesse a partir de sábado, acontecendo no dia seguinte torna isso basicamente impossível.

Isso além de criar uma situação terrível para os jogadores e os clubes. Em 2018, por exemplo, Giorgian De Arrascaeta fez o que, do ponto de vista físico, pode ser considerado uma loucura. O seu clube na época, o Cruzeiro, chegou à final da Copa do Brasil, que seria disputada nos dias 10 e 17 de outubro. Na manhã do dia 16 de outubro (em horário de Brasília), ele jogou pelo Uruguai um amistoso no Japão – derrota da Celeste por 4 a 3 para a seleção japonesa – em Saitama. Arrascaeta esteve em campo por 45 minutos.

Como fazer um jogador que jogou no Japão na terça-feira de manhã estar em campo na quarta-feira à noite? Foi feita uma operação para levar o jogador de lá até São Paulo, onde aconteceria o jogo decisivo da Copa do Brasil. Foi de carro por meia hora de Saitama para Tóquio, pegou um avião até Dubai e de lá foi para São Paulo.

Arrascaeta chegou à capital paulista às 16h do dia da partida, 17 de outubro. Faltavam cinco horas e meia para a partida. Foi direto para a concentração do Cruzeiro. Começou o jogo no banco. Entrou aos 21 minutos da etapa final e marcou o gol do título, aos 36 minutos. Vitória do Cruzeiro por 2 a 1 e título para a Raposa.

Só que essa é uma situação absurda e muito arriscada. Vimos isso se repetir com outros jogadores, como Diego Tardelli, em 2014. O jogador jogou pela seleção brasileira em amistoso contra o Japão no dia 14 de outubro daquele ano, em Singapura. Foram 65 minutos em campo.

Tardelli viajou para o Brasil em seguida para conseguir estar em campo no dia seguinte, pelo Atlético Mineiro, em jogo da Copa do Brasil. O Atlético venceu por 4 a 1 e se classificou às semifinais. Do outro lado, dois jogadores que também jogaram pelo Brasil ficaram no banco: Elias e Gil, pelo Corinthians. Os jogadores e o técnico Mano Menezes foram criticados porque Elias só entrou no segundo tempo.

É uma situação irreal e impensável para jogadores profissionais. Os clubes europeus jamais aceitariam que os seus calendários os obrigassem a jogar no dia seguinte a uma data Fifa, porque eles sabem que seria impossível. Muitos dos clubes europeus têm uma dezena de jogadores atuando por suas seleções. Isso não seria aceito e algo mudaria. Tanto que a briga em relação a calendário sempre passa por uma disputa entre as federações, como Uefa e Fifa, e os clubes.

Descaso, desorganização e política são as causas

As datas Fifa foram criadas em 2001, mas foram ganhando forma nos primeiros anos dos anos 2000 para chegarem ao formato que vivemos hoje. Foram criadas justamente porque muitos clubes europeus não liberavam seus jogadores para atuarem por seleções, especialmente quando eram amistosos. Como as datas não eram padronizadas, por vezes os jogos eram espalhados em diferentes datas, desfalcando os clubes várias vezes, cada hora por uma seleção diferente.

A criação de um calendário unificado veio a partir de uma sugestão da Uefa em 1999, que acabou sendo adotada após a Fifa criar um grupo de trabalho para elaborar como isso seria feito. Nascia a janela de jogos internacionais, ou a Data Fifa, como nos acostumamos a chamar por aqui.

O Brasil já vivia um processo de esvaziamento dos seus campeonatos. Com o passar dos anos, foi sendo cada vez mais raro jogadores atuando no Brasil estarem na seleção brasileira. E com um calendário que inclui os estaduais tomando um terço do ano, respeitar as datas Fifa se tornou um desafio que a CBF nunca levou muito a sério. Os clubes também não se importaram.

Vimos até jornalistas defenderem que o Brasileirão não precisava parar nas Datas Fifa justamente porque não havia jogadores daqui na seleção brasileira. Alguns até diziam que não tinha que parar porque Datas Fifa são “chatas” e, portanto, é legal poder ter jogo. As emissoras que transmitem os campeonatos também não se queixavam: mantinham o produto para poder exigir durante a Data Fifa.

Bom, só que isso sempre foi fadado a dar errado. A CBF, mediante a sua própria desorganização e especialmente sem querer entrar em conflito com as federações estaduais, passou a montar seu calendário sem se importar com as datas Fifa.

A situação, porém, mudou. O futebol brasileiro se tornou poderoso na América do Sul, podendo contratar jogadores sul-americanos com uma frequência muito maior. Alguns deles, jogadores das suas seleções. E mesmo jogadores do Brasil poderiam ser eventualmente convocados, gerando aquelas cobranças sobre o técnico da seleção brasileira ter que pensar nos clubes para convocar, e aí limitar o número de convocados por clube ou mesmo, por vezes, convocar o mesmo número de jogadores dos principais clubes, sempre sob o risco de estar beneficiando um e prejudicando outro.

Isso sem falar em cobranças para que mais jogadores atuando no Brasil sejam convocados, mas também reclamações quando estes jogadores são convocados, porque eles desfalcam seus clubes. É uma equação quase impossível de ser resolvida, porque não há solução que seja razoável. Os clubes sempre são prejudicados pelas convocações, enquanto o técnico sempre é prejudicado porque não pode convocar quem quiser, porque os clubes, os torcedores e a imprensa irão reclamar das convocações dos jogadores atuando por aqui prejudicarem seus clubes.

A solução que a CBF deu para dizer que respeita a data Fifa é falsa, é uma mentira contada apenas com verdades. Sim, é verdade, o Brasileirão não tem jogos durante a Data Fifa. Mas não, não é verdade que o Brasileirão e a CBF respeitam a data Fifa, eles só criaram um subterfúgio que continua prejudicando os clubes, os jogadores e os torcedores, mas vendendo a ideia de que tudo está sendo respeitado – por vezes com a anuência da imprensa que não parou para questionar que isso não é bem verdade.

Esperamos que um dia a CBF respeite as Datas Fifa e não prejudique os clubes que tenham jogadores convocados. Mas hoje ainda não é esse dia.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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